“Elegy” representa um ponto de inflexão crucial na discografia dos Amorphis. Mantendo alguns dos elementos-chave que definiam a sua sonoridade inicial, intrinsecamente ligada ao seu património cultural finlandês, abraçou novas influências e desenvolveu uma identidade musical mais melódica, atmosférica e rocker.
Antes de 1996, os Amorphis eram conhecidos por uma sonoridade bem mais próxima do death metal, embora já demonstrassem uma inclinação para atmosferas épicas e elementos do seu património cultural finlandês. Algo bastante evidente no álbum de estreia, “The Karelian Isthmus” (1992), um trabalho cru e brutal, enraizado no death metal da velha guarda, com letras que já tocavam em temas históricos e mitológicos da Carélia.
Com o colossal “Tales from the Thousand Lakes” (1994), a banda começou a expandir o seu som de forma notável. Inspirado no épico finlandês “Kalevala”, o álbum introduziu melodias mais ricas, elementos de folk metal e atmosferas mais melancólicas e progressivas. As letras em inglês facilitaram um alcance mais amplo, e canções como “Black Winter Day”, “Magic and Mayhem”, etc., tornaram-se marcos na sua discografia, mostrando uma banda a encontrar a sua voz única. No entanto, apesar desta evolução, o som de Amorphis ainda mantinha uma base significativa no death metal, com guturais proeminentes dividindo espaço com as vocalizações limpas de Ville Tuomi (que foi músico de sessão neste álbum).
É neste ponto da trajectória dos Amorphis que “Elegy” surge, em 1996, marcando uma ruptura ainda mais acentuada com as suas origens. Este álbum testemunhou uma mudança notável na sonoridade da banda, com uma maior ênfase em melodias intrincadas, arranjos mais complexos e uma atmosfera geral mais melancólica e introspectiva. Os elementos folk metal tornaram-se mais proeminentes e integrados, tecendo-se nas estruturas das músicas de forma mais natural e sofisticada.
A recepção inicial a “Elegy” foi mista, mas geralmente positiva e, a longo prazo, extremamente influente. Alguns fãs da sonoridade death metal original dos Amorphis estranharam a mudança para um som mais melódico e progressivo. No entanto, muitos outros abraçaram esta nova direcção, reconhecendo a maturidade na composição, a beleza das melodias e a profundidade das letras inspiradas na coleção de poemas finlandeses “Kanteletar” (colecção irmã do “Kalevala”).
A crítica também reconheceu a ambição e a qualidade de “Elegy”, elogiando a sua atmosfera única e a forma como a banda conseguiu fundir elementos díspares numa sonoridade coesa e envolvente. O álbum pavimentou o caminho para o sucesso duradouro dos Amorphis, mostrando a sua capacidade de evoluir e de se reinventar sem perder a sua identidade essencial.
Folklore
É fundamental explorarmos o significado do título e a rica temática que permeia o álbum. Só por si, “Elegy” carrega um peso emocional significativo. Uma elegia é tradicionalmente um poema ou uma canção de lamento, frequentemente expressando tristeza pela morte de alguém. No entanto, no contexto deste álbum, o conceito de elegia parece ser mais amplo, evocando sentimentos de perda, melancolia, reflexão sobre o passado e a inevitabilidade do tempo.
A principal fonte de inspiração lírica para “Elegy” é a colecção de poemas finlandeses “Kanteletar”. Esta obra, compilada por Elias Lönnrot (o mesmo responsável pelo “Kalevala”), apresenta uma variedade de cantos folclóricos, baladas líricas e poemas que exploram temas como o amor, a natureza, a vida quotidiana e, crucialmente, a perda e a passagem do tempo. As letras de “Elegy” mergulham profundamente nestes temas, muitas vezes utilizando metáforas e imagens vívidas da natureza finlandesa para expressar emoções complexas. Podemos encontrar referências a lagos serenos, florestas densas, o ciclo das estações e a beleza austera da paisagem, tudo a espelhar os sentimentos de saudade, de transitoriedade e de conexão com um passado ancestral.
Malhas como “Better Unborn”, “On Rich and Poor”, “My Kantele” (uma ode ao instrumento tradicional finlandês, símbolo da cultura e da história), e a própria “Elegy” carregam essa atmosfera de introspecção e lamento. A temática da natureza como um espelho das emoções humanas é particularmente forte no terceiro álbum dos Amorphis. Além da perda pessoal, há também uma sensação de conexão com um passado mítico e histórico. As referências culturais finlandesas, embora não tão explicitamente centradas no “Kalevala” como no álbum anterior, ainda permeiam as letras, evocando um sentido de herança e de continuidade através do tempo.
Opulência
“Better Unborn” abre “Elegy” como uma declaração poderosa da nova direcção dos Amorphis. A malha começa com dedilhados de sitar até entrar o para lá de orelhudo riff de guitarra, criando uma atmosfera exótica e contemplativa desde o início. O primeiro verso apenas revela guturais e, então, em 1996, parecia que atravessávamos um portal quando se ouvia a voz “limpa” e rocker de Pasi Koskinen.
Absolutamente marcante, estabelecendo o contraste dinâmico que se tornaria uma marca do álbum, equilibrando momentos de intensidade e peso com passagens melódicas e atmosféricas, demonstrando a complexidade estrutural que caracteriza “Elegy” e introduzindo a fusão de elementos de death metal melódico, folk metal e rock progressivo que definem esta fase da carreira dos Amorphis. “Better Unborn” explora temas de perda e potencial não realizado. O título paradoxal sugere um lamento por algo que nunca chegou a existir plenamente. A letra pode evocar a ideia de um destino pré-determinado ou de vidas interrompidas, expressando tristeza e anseio por um passado diferente.
Seria de pensar que esta capacidade melódica dos Amorphis estaria exaurida depois de tamanho tema de abertura e até do álbum anterior, mas eis que “Against Widows” revela o mesmo vigor melódico e nos remete para “Tales From The Thousand Lake”, numa versão mais 70s rocker, e emanando um enorme sentido de urgência. Afinal, o tema central aqui parece ser a vingança ou a justiça contra aqueles que prejudicaram ou causaram sofrimento, especificamente direccionado a figuras femininas.
Depois “The Orphan” apresenta uma atmosfera mais melancólica e introspectiva ou contemplativa, mas com os órgãos a expandirem a tapeçaria sónica para o kraut e o psicadelismo. A expressividade assume um papel central nesta malha, transmitindo a vulnerabilidade do tema que na sua segunda metade evoluiu para um majestosamente melódico riff de guitarra, numa intensidade em crescendo. E como descrever o riff que emerge nos refrões instrumentais de “On Rich And Poor”? Só pode ser com “inesquecível”. Não fora a dimensão que outra canção adquiriu na carreira dos Amorphis e esta era certamente a jóia da coroa do disco.
Quase como uma extensão de “Black Winter Day”, até com o repetido recurso a um Moog como principal lead melódico e com uma monumental progressão de acordes (executada quer na versão principal, quer na versão acústica que surge no fim do álbum), “My Kantele” destaca-se por uma atmosfera doom metal, etérea e melancólica. A melodia principal é simples, mas profundamente evocativa e carregada de um sentimento nostálgico e ancestral.
A canção é uma ode ao kantele, personificando-o como um objecto de grande importância cultural e emocional, vendo-o como um elo com o passado, um portador de histórias e tradições, e uma fonte de consolo e inspiração. A voz de Pasi Koskinen provavelmente assume um tom reverente e melancólico, transmitindo a importância simbólica do kantele para a identidade finlandesa e para a própria música da banda.
Depois da canção mais despojada, a mais exuberante. Maioritariamente instrumental, “Cares” começa por soar como uma revisão do trajecto musical dos Amorphis, até se misturar com andamentos daquele tipo de música popular a que os alemães chamam schlager, por exemplo, e nós chamamos pimba, e depois a banda força ainda mais os limites de género recorrendo ao techno, secção por sua vez seguida por solos de guitarra que remetem para “The Audience Is Listening”, de Steve Vai, acreditem. Pode não ser o melhor tema do disco, mas é o mais intrigante.
O Futuro Era Retro
Muito antes do renascimento retro no underground, muito antes de bandas como Kadavar, Planet Caravan ou Elder e de cimeiras como o SonicBlast ou o Desert Fest”, Song Of The Troubled One” e “Weeper On The Shore” aumentam o sentido jam e psicadélico do disco em grande estilo, com leads a queimar melodias em fogo intenso – em “Elegy”, e no seu antecessor, os Amorphis debitam melodias (uma ideia que se repete quase a cada parágrafo) como aquela velha metáfora para a opulência de acender charutos com notas. A primeira destas malhas com alguma da cavernosa estética death/doom ainda presente; a segunda num vibrante cruzamento de guitarras acústicas, escalas médio-orientais e Moogs.
E depois, o tema título, com a sua condução ao piano, de modo bem vincado na abertura e encerramento, é quase um tributo aos Kansas. A capacidade que os Amorphis revelam para criar surtpresas neste disco é absolutamente extraordinária. Ao mesmo tempo, essa espontaneidade musical parece uma resposta simbiótica às temáticas mais diversas do “Kanteletar”, por comparação com o mais focado e épico “Tales From The Thousand Lakes” e o “kalevala”, de onde retira a sua inspiração. “Relief” é a suma de tudo aquilo que se escreveu nas linhas anteriores.

Um pensamento sobre “Amorphis, Elegy”