Black Widows

Black Widows, 30 Anos de Guitarras & Feitiçaria

“Among The Brave Ones” abriu um novo ciclo que une maturidade, força e fidelidade às origens. Trinta anos depois, as Black Widows mantêm vivo o legado de serem a primeira banda de metal exclusivamente feminina em Portugal e provam que o tempo só fortalece quem nunca desistiu.

Nos anos 90, o metal português vivia numa penumbra de salas podres, revistas fotocopiadas e maquetes trocadas por correio. A cena era dominada por rapazes que cresciam a ouvir Metallica, Slayer, Bathory e Sepultura, mas que, na maioria, olhavam com estranheza para qualquer mulher que ousasse atravessar o palco. Era um país onde as miúdas tocavam piano — não afinavam guitarras Jackson nem vociferavam odes infernais.

Foi nesse cenário que nasceram as Black Widows, um grupo de miúdas estudantes de Antropologia que decidiu desafiar a norma e fazer o impensável: montar uma banda de metal exclusivamente feminina. Um acto de rebeldia, mas também de inocência luminosa. Corria o ano de 1995, e ninguém imaginava que aquela aventura duraria três décadas.

Nunca fui exactamente fã das Black Widows. Admito-o sem vergonha. Os discos parecem-me desiguais, as gravações por vezes frágeis, e a produção longe dos padrões internacionais. Mas, quando era adolescente, elas fascinavam-me — aquelas miúdas mais velhas, de olhos pintados e atitude feroz, que empunhavam guitarras em Lisboa como se desafiassem todo um sistema. Elas eram diferentes. Elas existiam. Numa época em que o “female fronted” ainda era visto como curiosidade e não como identidade, as Black Widows mostraram que o género não define o poder.

A Origem do Feitiço

Tudo começou no ISCTE, em Lisboa, quando Rute Fevereiro e Alexandra Figueiredo — duas estudantes de Antropologia — descobriram uma afinidade por guitarras distorcidas e mitologias sombrias. O nome Black Widows nasceu de forma quase natural, uma metáfora perfeita: a aranha negra que assusta e fascina, símbolo de autonomia e mistério. O primeiro alinhamento foi instável, como acontece em quase todas as bandas jovens. Mas havia uma ideia maior: criar uma banda de metal feita por mulheres e para mulheres, num país onde essa frase soava a utopia.

As demos da segunda metade dos anos 90 são registos crudes, mal gravados, mas cheios de personalidade. Entre ecos de doom, black e gothic metal, revelavam mais vontade do que técnica, mais garra do que refinamento. Ainda assim, foram suficientes para abrir portas, atrair curiosidade e fazer história: foram os primeiros registos de metal em Portugal totalmente femininos.

Essa fase embrionária culminou no ciclo da Recital Records, com o EP Dark Side Of An Angel (2001) e o LP Sweet… the Hell (2002). O som cresceu, a produção melhorou e o peso ganhou forma. A voz de Rute, mais confiante e controlada, assumiu o protagonismo num disco que misturava sensualidade e escuridão. Mas também se percebeu que o mercado português não sabia muito bem o que fazer com elas. O disco teve alguma visibilidade, mas o ambiente masculino e conservador do metal nacional não lhes perdoou a ousadia. Aquelas guitarras, por mais competentes que fossem, pareciam pesar menos do que o simples facto de serem mulheres num território hostil.

Metamorfoses & Renascimento

Seguiram-se anos de silêncio, mudanças de formação e vidas que tomaram rumos diferentes. Rute Fevereiro manteve-se ligada à música — criou e colaborou com outros projectos (principalmente Enchantya), explorou sonoridades novas e manteve viva a chama do que as Black Widows representavam.

O regresso das Black Widows em 2022 com Among the Brave Ones marcou um ponto de viragem. Vinte anos depois do primeiro álbum (Sweet… The Hell), Rute Fevereiro não se limitou a reacender o nome: refundou a banda com uma nova geração de instrumentistas, todas mulheres, todas cientes do peso simbólico que o nome carrega. Hoje, as Black Widows são Rute Fevereiro (voz e guitarra), Marta Brissos (bateria), Cátia Sofia Carvalho (baixo) – foi Solange Campos quem gravou o disco -, Monica Rodrigues (synths) e Irís Prado (guitarra) — uma formação que combina a experiência e o legado de Fevereiro com a energia de uma nova leva de mulheres no metal português.

Among the Brave Ones soa precisamente a isso: bravura. O álbum, editado pela Inverse Records, exibe um som mais sólido, mais bem produzido e com uma profundidade emocional que parece atravessar o tempo. Se o início dos anos 2000 as mostrava a lutar por espaço num cenário dominado por homens, agora as Black Widows soam a quem já não precisa de pedir licença. As letras falam de superação, de feridas antigas, de espiritualidade e instinto.

E talvez haja aqui uma leitura mais íntima: o amadurecimento, a passagem do tempo, até a maternidade — que Rute nunca esconde como parte da sua vivência — podem ter refinado o olhar e a força com que encara a música. A agressividade está lá, mas é agora uma escolha consciente, não uma necessidade de afirmação.

A sonoridade também amadureceu: riffs de influência gótica e thrash misturam-se com uma voz mais segura, ora lírica, ora rasgada. O tema-título é um manifesto de resistência e Schizo ou Black Orchid exibem uma escrita mais densa, que foge ao estereótipo da “female fronted band” e reivindica a música como território universal, ainda que marcado por uma perspectiva feminina.

Female Power – Ontem e Hoje

No dia 24 de Setembro de 2025, Rute Fevereiro partilhou um texto comovente nas redes sociais das Black Widows — um testemunho que resume não apenas o percurso da banda, mas a essência do que significa resistir:

«Há 30 anos exactamente no dia de hoje, eu e a Alexandra Figueiredo iniciámos esta aventura das Black Widows. Quem diria que duas jovens estudantes de Antropologia no ISCTE se iriam fascinar tanto por explorar as guitarras e formar a primeira banda de metal em Portugal exclusivamente feminina? A mensagem era poderosa e sim, sempre de carácter de bondade e boas energias, e com orgulho nisso! A amizade, essa dura desde 1992.

Hoje mantenho este legado com altos e baixos. Tenho conhecido muitas senhoras dentro e fora da banda, que entram ativamente na música. Ainda hoje em dia, fico perplexa quando me dizem que abrimos o caminho para as mulheres no meio do metal, porque senti que apenas fazíamos o que amávamos. Aliás, honestamente é isso ainda me mantém na música porque essa nunca desilude. Tenho aprendido muito em cima dos palcos mas também fora dos palcos e incrivelmente, são os músicos mais inexperientes que nos ensinam mais cada dia que passa, pela sua simplicidade e vontade de avançar.

Por isso a minha mensagem para todos, independentemente do género, é esta: façam o que amam, não tenham medo de porem em prática os vossos sonhos e não prejudiquem ninguém para atingirem os vossos objetivos. A vida é tão rápida, tudo passa tão depressa! Temos o aqui e agora! O meu aqui foram 30 anos e sou grata a elas e a vocês!»

Há algo de desarmante neste texto: a lucidez e a humildade. Rute Fevereiro nunca procurou estatuto — procurou expressão. É essa sinceridade que torna as Black Widows únicas. Falar de female power no metal, em 2025, é um exercício ingrato. A expressão tornou-se slogan, e o gesto que outrora era subversivo é agora marketing. Mas nos anos 90, o gesto era tudo o que havia. As Black Widows abriram caminho e foram inspiração para dezenas de raparigas que viam nelas um reflexo possível, ainda que distante.

Hoje, a presença feminina no metal português é uma realidade, mas às vezes ainda há resistência, ainda há o “espanto” de ver uma mulher em palco com uma guitarra a fazer suar um a parede de amplificadores. Talvez por isso a mensagem da Rute ressoe tão fundo: façam o que amam.

A discografia das Black Widows não mudará o curso da história musical, mas mudou vidas — e isso é mais do que muitos álbuns perfeitos conseguem. Ouvir Dark Side of an Angel hoje é revisitar um tempo em que a ingenuidade e a fúria coexistiam. Ouvir Among the Brave Ones é perceber que a chama nunca se apagou, apenas mudou de cor. Entre esses dois extremos — a inocência e a maturidade — está um percurso que simboliza algo maior: a conquista de espaço num território que nunca foi acolhedor.

30 Anos Depois

Ver as Black Widows de hoje é perceber o que significa longevidade no metal português — algo raro, ainda mais quando assinado por mulheres. Rute Fevereiro poderia ter ficado na nostalgia dos anos 90, mas preferiu reconstruir, recomeçar e dar palco a novas vozes. Talvez a banda nunca tenha tido o reconhecimento mediático que merecia, mas a verdade é que o seu progresso, 30 anos depois do início da aventura, soa a justiça poética: as pioneiras subsistem maduras, conscientes, e donas do seu destino.

Trinta anos depois, o metal português ainda tem muito a aprender com aquelas miúdas de Antropologia que decidiram desafiar o mundo com guitarras e convicção. E se a discografia delas não está no teu top ten, o teu respeito devia estar.

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