Ptolemea

Ptolemea, 2 Faces de Kali

“Kali” tem edição em Novembro de 2025, via Raging Planet. O novo álbum dos Ptolemea é uma viagem íntima pelo medo, memória e renascimento, onde Priscila Da Costa explora a sua espiritualidade, as raízes portuguesas e o peso atmosférico do doom com lirismo e estética cinematográfica.

PTOLEMEA é um projecto de doom rock alternativo, cujo nome é inspirado por Cláudio Ptolomeu, o matemático, astrónomo, astrólogo, geógrafo e teórico da música romano, cujos ensinamentos Priscila da Costa estudou. Até aqui, a cantora e guitarrista era apoiada Remo Cavallini, também na guitarra, por Niels Engel e Martin Schommer na bateria e outros instrumentos de percussão, Sebastian Schlapbe e Yves Oek na guitarra baixo e Christophe Reitz no violino eléctrico. “Tome I” (2018) e “Maze” (2020) deram início à discografia, corolada em 20 de Janeiro de 2023, pelo álbum “Balanced Darkness” (alvo de louvores da ROMA INVERSA).

Há momentos em que uma banda parece parar para se reorganizar no silêncio, antes de emergir mais clara, mais forte e mais determinada. Kali, o novo álbum do projecto de raízes luxemburgueses, liderado por Priscila Da Costa, é exactamente isso: uma travessia entre o peso do passado e a urgência de recomeçar, entre a memória e o renascimento e novos colaboradores. Com lançamento marcado para 6 de Novembro de 2025 pela Raging Planet, o segundo LP de Ptolemea começou a ser apresentado através de singles que revelam um universo musical denso, cinematográfico e intimamente pessoal.

O primeiro desses singles, Guilhotina, é uma declaração de intenções. Com melodias assombrosas que se movem entre o arrepio e a inspiração, a canção é acompanhada por um vídeo que oscila entre realidade e sonho, inserido numa natureza agreste que parece tanto refúgio quanto prisão. Árvores retorcidas, sombras movendo-se entre nevoeiros e silêncios abruptos: o cenário visual traduz a tensão da música e acentua o conceito de corte e libertação que Priscila pretende transmitir em Ptolemea.

Ela explica: «Começo a cortar os laços que me mantinham presa. Capta aquele momento frágil entre ‘que raio é que eu estou a fazer’ e a certeza profunda de que algo melhor me espera». A malha é, ao mesmo tempo, melancólica e cheia de energia, encapsulando o espírito de transformação que permeia Kali.

O segundo single, Aqui, Ali, Acolá, aprofunda a vertente lírica e introspectiva do álbum. Evoca deslocamento, memória e reencontro com as origens, especialmente com as raízes portuguesas de Priscila. «Os meus avós mudaram-se de Portugal para o Luxemburgo no final dos anos 60. Nunca vivi em Portugal até há um ano, mas em casa sempre falámos português, e essa cultura foi sempre uma presença forte. Esta canção fala sobre voltar a ligar-me às minhas raízes e sobre a coragem que é precisa para mudar de país ou regressar à terra natal», explica a vocalista.

A estética sonora do single é minimalista, quase suspensa, com camadas de guitarra que lembram o vento a percorrer vales vazios, e a bateria criando um pulso quase ritualístico. O vídeo que acompanha a faixa reforça a estética cinematográfica da banda, transformando cada canção numa pequena narrativa visual, quase como curtas-metragens musicais, que expandem a sensação de deslocamento, memória e introspecção.

É notável como Kali surge num contexto de reorientação criativa de Ptolemea. Embora não haja uma declaração formal sobre refundação, a banda parece ter sido centrada mais directamente em torno de Priscila Da Costa, que assume agora o papel de líder criativa e compositora principal. A gravação do álbum decorreu em fases diferentes: algumas músicas foram compostas durante a pandemia, outras posteriormente, criando um mosaico de experiências e emoções. A produção contou com o apoio de colaboradores próximos, como membros dos Sinistro, que contribuíram tanto na composição do tema principal como na realização dos vídeos promocionais.

Musicalmente, o álbum mantém o peso e a densidade que se espera do doom atmosférico, mas combina-os com lirismo, tensão narrativa e nuances cinematográficas. O som de Ptolemea em Kali é, ao mesmo tempo, melancólico e intenso, uma combinação de guitarras pesadas e vocais etéreos, sustentados por uma linha rítmica que se move entre a delicadeza introspectiva e a urgência dramática. Há uma clara atenção ao detalhe: cada pausa, cada silenciamento, cada eco de voz ou instrumento é pensado para maximizar a tensão emocional e criar uma experiência quase imersiva, quase teatral.

A ligação pessoal de Priscila à língua e à cultura portuguesas acrescenta outra camada de profundidade ao disco e a Ptolemea. Não se trata apenas de nostalgia, mas de uma necessidade de reconectar-se com uma identidade que sempre esteve presente, mesmo à distância. Este diálogo com o passado e com a própria história familiar torna Kali mais do que um álbum de doom: é uma obra de introspecção, de confrontação com o medo, a dúvida e a dor, mas também de afirmação da força, clareza e possibilidade de renascimento.

Ptolemea, ‘Kali’ tracklist: 1.Kura; 2.Breathe; 3.Blue Moon; 4.Luta; 5.Guilhotina; 6.Andhera; 7.Gaivota; 8.Aqui, Ali, Acolá; 9.Kali 

Se os singles já apontam para um álbum intenso e revelador de Ptolemea, Kali promete ser uma travessia completa, onde a banda se confronta com o medo e a dor, mas também encontra beleza, esperança e uma nova liberdade criativa. Mais do que música, é um exercício de presença e reflexão — uma jornada de libertação e reconexão, tal como Priscila Da Costa a concebeu e detalha no podcast ‘Kali’s Calling’, uma série de nove episódios que mergulha no processo criativo e emocional por detrás de cada tema do disco.

Com menos de dez minutos por episódio, o podcast aborda transformação, autodescoberta e resiliência emocional, oferecendo também um primeiro vislumbre sonoro das malhas e de Ptolemea.

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