“Vértice” quebra um hiato de seis anos de uma banda que teve que se refazer. No seu 4.º LP, os SINISTRO tecem inteligentemente uma nova identidade sem abdicar das idiossincrasias que lhes trouxeram aclamação internacional.
Surgidos nas profundezas do underground português, os SINISTRO abriram caminho na cena musical internacional com o seu álbum de estreia, totalmente instrumental e autointitulado, de 2012, uma abordagem de ambiente e paisagens cinematográficas com um toque Floydiano que rapidamente os estabeleceu como um cocletivo único de músicos. Em 2013, lançaram o EP “Cidade”, adicionando pela primeira vez vozes ao seu som cativante, que ganhou elogios da imprensa nacional e internacional. Os SINISTRO assinaram com a Season Of Mist em 2016 e, com o seu aclamado álbum “Semente”, criaram e aperfeiçoaram ainda mais as suas capacidades de composição para se tornarem uma espécie de fusão entre pós rock e fado para muita boa gente.
Com três impressionantes discos completos no seu currículo e após cinco anos a reconstruir a banda no meio de uma pandemia e mudanças de formação, os SINISTRO regressaram finalmente com o seu novo álbum “Vértice”. Com a Season Of Mist fora da equação, após “Sangue Cássia”, “Vértice” foi produzido por Miguel Tereso (Gaerea, Analepsy) e lançado a 4 de Outubro de 2024 pela Alma Mater Records. Um disco que, inicialmente, foi ponderado como uma obra totalmente instrumental. Em boa hora, os SINISTRO optaram por reverter essa decisão.
Foi em Janeiro de 2024 que a ROMA INVERSA anunciou em primeira mão que Priscila Da Costa foi escolhida como a nova vocalista de SINISTRO, a Luso-Luxemburguesa que tem um percurso musical exploratório, estando activa no seu próprio projecto Ptolemea e ainda no colectivo Judasz & Nahimana. Apesar de só aí ter surgido a confirmação oficial, na verdade, Priscila já integra a família dos Sinistro desde meio de 2023, altura em que gravou as vozes no novo álbum.
Desde as primeiras notas em “Amargura”, fica claro que a nova voz redimensiona a banda, fazem agradecer o facto de a banda ter recuado na intenção de voltar às suas origens instrumentais. Não que o seu disco de estreia seja desprezível, muito pelo contrário, mas porque a voz de Priscila da Costa é verdadeiramente superlativa.
Em comparação com o corpo e revestimento sónico dos trabalhos anteriores, o épico malhão de abertura, ao longo de cerca de 10 minutos, também deixa claro que há menos focos nos graves. Os momentos de guitarras limpas são mais cristalinos, respirando melhor, mas os momentos de distorção são menos opressivos. Obviamente que isto pode ser intencional, afinal a voz de Priscila também é mais luminosa. Que não se interprete isto como qualquer menosprezo por Patrícia Andrade, afinal ainda é o seu estilo que guia a sua sucessora em temas como “Pontas Soltas”, por exemplo.
Foi em Março passado que estreou o soturno single “Pontas Soltas” que, nas palavras da banda, mostra o som que tem sido aperfeiçoado desde os dois discos anteriores. «As vibrações de banda sonora de filmes e o ambiente de densidade pesada misturado com uma sensibilidade de Fado ao longo de todo o álbum é uma viagem constante ao nosso mundo, as letras de ‘Pontas Soltas’ abordam o conforto familiar da repetição versus os aspectos desconhecidos da vida, a vida não é para ser contida, mas sim abraçada e admirada à medida que desvendamos a beleza das suas complexidades».
Lançado posteriormente como single, mas surgindo primeiro no alinhamento do disco. “Elegia”, uma vez mais seguindo a banda «é uma homenagem ao nascimento, à existência e ao amor duradouro das nossas mães. O tema foi inspirado nas pungentes crónicas “Mãe Do Verbo Amar”, do escritor português Baptista-Bastos». Mais emancipado dos álbuns anteriores, o pungente tema remete-nos para referências como os Paradise Lost e os The Gathering, mais Century Media nos anos 90.
“O Equivocado” e “Perfeita Encenação” aproximam-nos uma vez mais dos discos anteriores, com mais inflexões nos riffs e na melodia, e a aproximação a uma dimensão mais teatral do canto, mas ao invés de um maior cinismo urbano que habitava a voz de Patrícia Andrade, temos fulgurantes clarões da voz de Priscila atravessam de forma pungente a densidade de sintetização e das camadas instrumentais dos SINISTRO. Mas temos inclusivamente aqueles emblemáticos sussurros sedutores que terão tido origem em “Cidade”, em 2013 (trabalho que permanece como o nosso favorito).
Não se pretende aqui estar a comparar uma encarnação da banda com outra, afinal cada uma tem méritos inequívocos. Pretendemos apenas situar “Vértice” na discografia dos SINISTRO, algo que a banda também parece ter tido o cuidado de fazer. Afinal, há o cuidado de ter contactos e transmitir uma sensação de sequência e de consequência, evitando o erro de romper com um passado que tantos louvores trouxe ao quinteto. “O Templo das Lágrimas”, outro épico acima dos 10 minutos que encerra o disco, é um indicador claro da tranquilidade da banda diante do seu passado e da energia para o caminho futuro…
Tal como “Amargura”, no pólo oposto do disco, tudo é mais bombástico e mais elástico. Os rasgos dinâmicos e os crescendos são os mais grandiosos na discografia dos SINISTRO. Um riff simples, animado por flanger, vai aumentado a sua intensidade enquanto absorve maneirismos de alguns dos nomes maiores da música portuguesa e tão díspares (ou não) como Dulce Pontes ou António Variações. E quando Priscila Da Costa se harmoniza a si própria, “Templo das Lágrimas” torna-se verdadeiramente majestoso e esmagador nos breakdowns que vão intercalando o percurso melódico central. Um colosso que encerra um álbum notável.

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