Álbuns Nacionais

Best of 2024: Álbuns Nacionais

Eis os álbuns nacionais que mais gostámos de ouvir em 2024. Como sempre, procurámos ser eclécticos. Da pop ao metal, passando pelo jazz, talvez a música mais experimental tenha alguma predominância nesta excepcional lista.

Este parágrafo é um copy/paste que vai tornando-se tradicional. Felizmente, já é chavão dizer que «este foi um grande ano para a música portuguesa». Mas foi mesmo! Entre as várias expressões musicais, sucedem-se excelentes álbuns nacionais. Talvez pelo reflexo ainda do tempo que as bandas tiveram para ponderar e preparar bem as suas composições durante o isolamento pandémico e depois, já em estúdio, tenham manifestado uma enorme sede de tocar. Alguma coisa terá sido.

Mas este ano, a música portuguesa teve uma colheita de abundância e qualidade deveras impressionante. O que remete esta selecção de álbuns nacionais para uma categoria puramente pessoal. Porque não ouvimos nem metade doa discos que saíram. E, ainda assim, não estão na lista (limitada a 10 discos), mas merecem menções muito honrosas álbuns nacionais que analisámos ao detalhe na ROMA INVERSA. Caso de “Hades”, o ominoso terceiro álbum de Centauri, analisado tema a tema nestas páginas pelo guitarrista e compositor André Fernandes.

Também “O Ferroviário”, o trabalho instrumental de Um Corpo Estranho que resulta da colaboração do duo setubalense com o Festival Filmfest, para o qual foram convidados, em 2022, a criar a banda sonora musicada ao vivo para o filme “The Railroader”, de Buster Keaton. E no espectro mais pesado, “Cremation Pyre”, o álbum de estreia dos Phenocryst, que confirma todas as expectativas geradas pelo EP de 2021. Uma vez mais com o selo da Blood Harvest, este álbum coloca-nos a contemplar o abismo, um poço de arrasador fogo vulcânico.

Nesta lista que apresentamos de álbuns nacionais, não há uma ordem específica de classificação. De resto, podem concordar ou discordar com estas escolhas, mas não as ignorem. Só discaços!

O álbum de estreia de Ana Lua Caiano combina as tradições da música rural portuguesa com vozes sobrepostas, sintetizadores, batidas insistentes e gravações de campo. A sua música é visceral e meticulosamente focada, inspirando-se num mosaico rico de influências que inclui o canto colectivo tradicional (as work songs do folclore ou o coral pseudo-religioso), a musique concrète, os cantautores do período revolucionário português dos anos 70 e ícones da música electrónica como Björk e Laurie Anderson.

É música electrónica. Totalmente contemporânea. Pulsante, glitchy, atmosférica e movida por batidas, mas com raízes profundas na música tradicional portuguesa que os seus pais ouviam na sua infância. «Eles tinham muitas cassetes que colocavam a tocar. Adorava imitar os cantores. Acho que absorvi isso por osmose, e esses elementos continuam presentes no que faço», recorda Ana Lua Caianio.

O ritmo também é uma parte vital da sua música. Está presente na sua performance física, sempre em movimento enquanto toca, impulsionando a canção, sentindo cada batida enquanto usa o bombo ou o colorido brinquinho de madeira, um instrumento tradicional de percussão da Madeira, misturando os instrumentos mais naturais com a electrónica. Algo que se pressente mesmo ouvindo sem ver, que se entranha nos sentidos e nos impulsos físicos.

Desde que iniciou as suas experiências sónicas durante o confinamento, Ana Lua Caiano tem empurrado implacavelmente os limites da sua música. Trata-se, claro, de um processo que já havia começado quando imitou os cantares tradicionais pela primeira vez ou teve a sua primeira aula de piano. É um processo que a conduziu ao caminho em que está agora, onde tradição e electrónica caminham lado a lado.

★★★★★

Através do rock, os AVESSO exploram os domínios do espírito humano, dos seus pântanos aos seus cumes, não se fechando em sonoridades nem fórmulas de criação ou expressão, trazendo assim uma mistura experimental tanto de melodias como dissonâncias num rodopio de tons doces com notas azedas, que se configuram numa forma de composição em espiral. A música é vocalizada em Português, liricamente suportada em poemas de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos, bem como na reinterpretação da dramaturgia renascentista, onde Séneca é referência, passando pelos Rubaiyat de Omar Caiam, encontramos também vários textos originais escritos por ambos os vocalistas.

No “Pêndulo de Focault”, de Umberto Eco, é memorável a cena em que Belbo mantém uma nota musical e se sente gloriosamente alinhado com um potencial ponto fixo no Universo, o ponto que sustém o pêndulo. Um clarão de luz, uma orgástica epifania. Esse tipo de sensação, é uma das mais gratificantes e comuns no álbum.

Através de penetrantes leads, dão-se esses rasgões prismáticos entre a opressiva massa de distorção e a propulsividade rítmica. Os três singles, “Se Eu Pudesse Trincar a Vida Toda”, “A existência dos Homens” e “Aos Que a Felicidade É Sil Virá a Noite” são apenas uma parte de tudo o que são os AVESSO. Pórticos elaborados, mas apenas um meio para entrar na exuberante cidadela de sons e ideias que é “desassossego”.

Carregado de progressões melódicas tão surpreendentes quanto aditivas, com uma tremenda parede de amplificação, ainda que com uma tensão instrumental espartanamente controlada, e deslumbrante densidade atmosférica, este álbum de AVESSO é um discão de ambientes épicos, possui peso e melodia como só é possível verificar neste espectro musical que possui inúmeros contactos com Cult Of Luna, por exemplo, mas também carrega um urbanismo pós-rocker que nos remete para os Linda Martini e uma amplitude de canções e desassombro vocal que associamos aos nossos grandes cantaurores da Revolução.

★★★★★

O imponente trabalho de Rafael Toral de 2024, “Spectral Evolution”, marca o retorno da Moikai, label de Jim O’Rourke, após duas décadas. Conhecido por seus discos influentes de drone de guitarra nos anos 90, como “Sound Mind Sound Body” e “Wave Field”, Toral nunca se contentou em repetir a suas glórias passadas. Nos anos 2000, deixou a guitarra de lado e começou o seu “Programa Espacial”, uma investigação de treze anos sobre as possibilidades de performance de instrumentos eletrónicos personalizados, tocados com um fraseado fluido e flexibilidade rítmica inspirada no jazz.

Dedicado a aprimorar as suas habilidades nesses instrumentos idiossincráticos, Toral tem se apresentado extensivamente, tanto em trabalhos solo quanto em colaborações, incluindo o seu Space Quartet, onde o feedback que brota do seu mini-amplificador integra-se perfeitamente na formação de um quarteto clássico de free jazz, com saxofone, contrabaixo e bateria. Desde 2017, o trabalho de Toral entrou numa nova fase. Embora ainda esteja focado no arsenal de instrumentos auto-construídos desenvolvidos no Programa Espacial, também voltou a tocar guitarra eléctrica, após mais de uma década.

“Spectral Evolution” é, sem dúvida, o trabalho mais sofisticado de Toral até agora, combinando elementos das suas explorações anteriores com um novo interesse em sons longos e texturas quase estáticas. Neste novo álbum, Toral alcança um equilíbrio fascinante entre a liberdade de improvisação e composição cuidadosamente elaborada. Explora uma ampla gama de sons e texturas, criando paisagens sonoras impressionantes e imersivas. tremendo realismo dessas texturas evoca uma sensação de suspensão e contemplação. Ao mesmo tempo, a sua habilidade e fluência combinadas com fraseados fluídos adicionam uma sensação de movimento e dinamismo ao álbum.

Em resumo, “Spectral Evolution” marca um novo capítulo na carreira de Rafael Toral, combinando os seus anos de experimentação desenfreada com uma nova abordagem sonora. Este trabalho demonstra a sua capacidade de explorar diferentes instrumentos e estilos musicais, resultando num álbum sofisticado e hipnotizante.

★★★★★

Em “Metade-Metade”, Aldina Duarte arrojou-se a colaborar como um dos maiores vultos do hip hop português. Capicua é a autora dos poemas do álbum, uma opção que Aldina Duarte explica: «Graças ao talento enorme de Capicua, que inventou uma nova linguagem poética, um léxico nunca antes cantado nas melodias do fado tradicional, sendo que a seu pedido ensinei-lhe todas as regras da escrita para todas as estruturas do espólio do Fado Tradicional, incluindo dois fados com estruturas irregulares».

Ainda nas palavras de Aldina Duarte, “Metade-Metade” «é uma declaração de amor à natureza, à liberdade e à poesia. E, também, uma grande incerteza sobre o futuro da Humanidade; a urgência de nos reencontrarmos com a nossa forma de inteligência comunitária, de reaprender o nosso lugar no planeta, [mudando a visão antropocêntrica danosa]».

«Este é o meu primeiro disco em que o amor romântico não é o tema, mas sim o amor universal, sendo, também, um manifesto político e social: os velhos são a esperança, enquanto espelhos de superação de guerras, doenças, ditaduras, muitas fomes e frios, com quem temos de aprender, as crianças, o futuro ameaçado, numa civilização consumista decadente que precisa de avançar quanto antes para uma civilização ecológica, mais igualitária, justa e digna para todos», conclui.

Para o resultado final deste trabalho que é “Metade-Metade” contribuíram ainda os músicos Ana Isabel Dias (harpa), Bernardo Romão (guitarra portuguesa), Rogério Ferreira (viola) e Joana Sá (piano), sendo que as gravações dos temas decorreram no histórico estúdio lisboeta Namouche. O som do álbum, a articulação e suavidade aveludada dos instrumentos, com a voz de Aldina Duarte, é absolutamente luxuosa.

★★★★★

Este “Concealed, in the silence” mostra um cada vez mais apurado sentido dinâmico dos Karnnos, somado pelo bom gosto dos apontamentos específicos da instrumentação, como, por exemplo, as suaves melodias de baixo em “A Sea Of Saturnine Reflections”. Em momentos como “A Mãe Das Profundezas”, “O Sonho Da Serpente Numinosa” ou “A Vertigem Sem Fim”, além do sentido bucólico (som mais cru e acústico, nomeadamente no reforço da sanfona, na guitarra e no acordeão) parece tudo um pouco mais pós-punk, daquele jeito que essa corrente estética se imiscuiu na sonoridade de Rodrigo Leão.

Mas no caso dos Karnnos, a gratificação empírica é mais potente. Quiçá fruto de um fluxo mais etéreo e xamânico dos ambientes e das texturas. As melodias são mais sugeridas que impostas e isso permite que o ouvinte se perca na leveza dos guias narrativos (os bilingues vocalizos etéreos) do disco.

A “metade anglo-saxónica” do álbum, a dos títulos cifrados em inglês, é mais sombria, mais gélida e, ainda assim, de absorção mais imediata. Seja pelo seu charme e envolvência de sintetização, como já referimos a propósito do tema de abertura, seja pela sua cadência mais repetitiva e lisérgica (“Staring At The Fountain Of Nothingness”). Pessoalmente, sou remetido para o folclore sombrio dos nórdicos Of The Wand & The Moon, ainda que não me atrevesse a sugerir Kim Larsen como uma referência dos Karnnos – talvez o contrário fosse mais ajustado, na verdade.

No final, “Concealed, in the silence” parece também mais melódico, com mais momentos-canção, mas ainda assim, é na sua vertente mais contemplativa que os Karnnos continuam estelares. Como se vulgarizou dizer sobre alguns thrillers cinematográficos, a encerrar o disco “A Murder Of Crows Guiding Epiphany Back to the Unformed Skies” é um slow burner que, ao longo de uns épicos 12 minutos, se revela como a jóia da coroa deste trabalho, o pináculo do ritual. As suas sucessivas vagas de crescentes camadas sónicas tornam-na irresistivelmente onírica.

★★★★★

Desde as primeiras notas em “Amargura”, fica claro que a nova voz redimensiona os SINISTRO. Em comparação com o corpo e revestimento sónico dos trabalhos anteriores, o épico malhão de abertura de “Vértice”, ao longo de cerca de 10 minutos, também deixa claro que há menos focos nos graves. Os momentos de guitarras limpas são mais cristalinos, respirando melhor, mas os momentos de distorção são menos opressivos. Obviamente que isto pode ser intencional, afinal a voz de Priscila também é mais luminosa. Que não se interprete isto como qualquer menosprezo por Patrícia Andrade, afinal ainda é o seu estilo que guia a sua sucessora em temas como “Pontas Soltas”, por exemplo.

“O Equivocado” e “Perfeita Encenação”, por exemplo, aproximam-nos mais dos discos anteriores, com mais inflexões nos riffs e na melodia, e a aproximação a uma dimensão mais teatral do canto, mas ao invés de um maior cinismo urbano que habitava a voz de Patrícia Andrade, temos fulgurantes clarões da voz de Priscila atravessam de forma pungente a densidade de sintetização e das camadas instrumentais dos SINISTRO. Mas temos inclusivamente aqueles emblemáticos sussurros sedutores que terão tido origem em “Cidade”, em 2013 (trabalho que permanece como o nosso favorito).

Não se pretende aqui estar a comparar uma encarnação da banda com outra, afinal cada uma tem méritos inequívocos. Pretendemos apenas situar “Vértice” na discografia dos SINISTRO, algo que a banda também parece ter tido o cuidado de fazer. Afinal, há o cuidado de ter contactos e transmitir uma sensação de sequência e de consequência, evitando o erro de romper com um passado que tantos louvores trouxe ao quinteto. “O Templo das Lágrimas”, outro épico acima dos 10 minutos que encerra o disco, é um indicador claro da tranquilidade da banda diante do seu passado e da energia para o caminho futuro…

Tal como “Amargura”, no pólo oposto do disco, tudo é mais bombástico e mais elástico. Os rasgos dinâmicos e os crescendos são os mais grandiosos na discografia dos SINISTRO. Um riff simples, animado por flanger, vai aumentado a sua intensidade enquanto absorve maneirismos de alguns dos nomes maiores da música portuguesa e tão díspares (ou não) como Dulce Pontes ou António Variações. E quando Priscila Da Costa se harmoniza a si própria, “Templo das Lágrimas” torna-se verdadeiramente majestoso e esmagador nos breakdowns que vão intercalando o percurso melódico central. Um colosso que encerra um álbum notável (review completa no link).

★★★★★

Um trio com tuba, guitarra e bateria é tudo menos habitual. Esta anti-regra é vigorosamente testada a cada um dos momentos de “Room 4” dos TGB. É quase sempre explosiva a nível rítmico, com excepção de “Dança Fantasma”, “Nebula’s Awakening” (assombroso interlúdio exclusivamente criado pela tuba) ou “Pedro Virtuoso Poeta Errante” (quase um slow de salão de baile). Nos momentos de maior frenesim, o imprevisível é vizinho da criatividade e da capacidade de execução do trio, quase ao ponto do imponderável.

A tuba de Sergio Carolino é obviamente o elemento que mais caracteriza “Room 4”. Fá-lo muito para lá da excentricidade de ter tal instrumento como dominante, mas paradoxalmente pela excentricidade das soluções encontradas por Carolino. Isso é evidente desde “Kinetic”, onde a tuba e a guitarra arrancam em melodias gémeas e a primeira rapidamente ganha protagonismo nos solos, antes do explosivo momento de Frazão e, por fim, de Delgado, cuja mão está cada vez mais pesada (no sentido rocker do termo). São mais de seis minutos absolutamente vertiginosos.

Mais sincopada, “Trailblazer” reforça a sensação de peso, peculiarmente acentuado por um fuzz custom absolutamente rebentado, sempre a clippar. “Em Tempo Real” a banda parece estar a reagir à sequenciação dos arpejos da sintetização. A vontade humana contra a imposição do algoritmo – considerando a actualidade, é quase uma canção de protesto, se quiséssemos ir por aí. E por falar no imponderável, Carolino faz a tuba soar quase como um soprano neste tema. Todavia isso parece um feito menor com os recursos técnicos que são expostos no quase vaudevilliano “Coconut Cartoon”.

Em TGB “III”, principalmente, há uma revisitação explícita do universo oculto do rock, jazz, jazz-rock e rock-jazz, do psicadelismo e do kraut dos anos setenta, “Room 4” acrescenta-lhe mais, muito mais, imprevisibilidade e contrastes. A bateria de Alexandre Frazão, com o irrepreensível papel de baixista que Sérgio Carolino também assume, dá depois mais combustível, as dinâmicas certas, os acentos certos, ao diálogo dos companheiros, para compor um álbum que pode verdadeiramente ir ao encontro dos gostos de um vasto leque de amantes do jazz e do prog.

★★★★★

Inicialmente, não considerava algo importante devido à sua uma extensa e bem sucedida carreira a trabalhar em vários projectos musicais, mas com o tempo, apercebeu-se da importância de partilhar a sua própria música com os outros. Depois de uma longa espera de dez anos, Alexandre Frazão, lançou finalmente o seu primeiro álbum solo. “Quintessência” foi gravado em 2024 no estúdio de Vale de Lobos. O álbum foi produzido e gravado de forma rápida e tranquila, sem percalços. A produção do álbum esteve a cargo de Mário Delgado (o guitarrista não tocou no álbum), colaborador de longa data de Frazão.

Em “Quintessência”, Frazão arriscou ao rodear-se de músicos jovens, mas experientes, em vez de recorrer a nomes estabelecidos. Por exemplo, conheceu o pianista Manuel Olive através de um convite do contrabaixista Rodrigo Correia para abrir uma jam session em Lisboa, há dois anos. A colaboração com estes músicos trouxe uma energia fresca e única ao álbum. Além disso há uma espontaneidade que pode especular-se estar relacionada com só ter decorrido um ensaio de banda antes de esta entrar em estúdio.

O álbum em si é um reflexo do estilo musical e das influências de Frazão – quase um tributo aos grandes músicos com quem tem tocado ao longo destas décadas – algo que é absolutamente evidente em “NAT”, com a guitarra que Tó Trips transporta dos Dead Combo. As composições de Frazão em “Quintessência” são inovadoras e instigantes, ultrapassando os limites da música tradicional de jazz. O álbum apresenta uma mistura de diferentes géneros musicais, incluindo jazz, funk e música do mundo. Esta mistura diversificada de estilos acrescenta profundidade e riqueza ao som global do álbum, como não poderia deixar de ser, e, claro, mostra o seu talento como baterista e a sua capacidade de criar ritmos intrincados e dinâmicos.

★★★★★

Em 2014, os Souq editaram o álbum de estreia. “At La Brava Vol.II Of Red Desert Saga” tinha apontamentos pouco usuais. Não é assim tão comum, no nosso país, bandas que deixem pistas de influências dos side projects de Mike Patton: Tomahawk, Mr. Bungle ou Fantômas. E que o façam ao fundir, com brilhantismo notável, diga-se, desert rock e pertinentes e continuados arranjos de metais… Bem, isso não é tão comum assim em lado nenhum!

Depois chegou “The Dynamite Sisters – Volume Three Of The Red Desert Saga, um álbum com um tremendo backslap de bateria e baixo, num som gigante e extravagante (“The Bishop & The King”) pejado de riffs titânicos (“Penglai Tower”, “M.A.S.K.”). A componente cinematográfica desses dois discos deixou uma marca na composição conceptual da banda de Aveiro. Daí que não deixou de ser surpreendente ver a banda abdicar da voz no seu terceiro álbum.

Bruno Barreto (baixo), Daniel Dias (trombone tenor), Gabriel Neves (saxofone tenor e soprano), João Martins (bateria) e Jorge Loura (guitarra) e Paulo Gravato (saxofone barítono e tenor) gravaram este disco instrumental em dois momentos: o combo rocker no Gretua e os sopros na Casa do Povo de Mira. Ao ter abdicado da voz, o ouvinte pode sentir alguma orfandade narrativa, que o hermético código de cores não ajuda a dissipar, mas a montanha-russa dinâmica e harmónica que recebe em troca torna tudo mais vertiginoso.

O disco abre com “Red” e instala a sensação de que por um lado os sopros estão directamente mais Morphine, mas em vez de simplicidade há mais loucura à Mothers Of Invention. Logo de seguida, o pesadíssimo staccato de “Green” deixa bem claro a opção por tantos instrumentos de espectro barítonal. É assim um “Running With The Devil” mais jazzy. “Blue” é lamacento e experimental, só com sopros (a verdadeira voz de Souq), quase uma introdução para a progressiva “White” que é delimitada por letárgico twang dedilhado de guitarra, tal como “Violet” – o ex libris deste disco que (pun intended) tem tantas cores para descobrir.

“Black” é puramente exploratório e coloca-nos a olhar o abismo nietzschiano. Talvez por isso lhe suceda “Orange”, o tema mais facilmente digerido no disco, com uma amplitude harmónico épica. “Yellow” é a vaudevilliana despedida deste álbum que se redescobre em crescendo, a cada audição.

★★★★★

Gabriel Neves (saxofone tenor e soprano), João Martins (bateria) e Jorge Loura (guitarra). Precisamente, os Troll’s Toy são uma versão lite do lineup dos Souq. E dizemos lite com todo o respeito. Talvez não seja correcto associar tanto os Troll’s Toy e os Souq, mas considerando o trabalho dos dois projectos em 2024, estes são quase um díptico. A grande diferença é que “Palingenesis” segue no trilho aberto em “Synesthesia”, disco em colaboração com João Salcedo, sendo assumidamente elaborado em regime de improviso.

E “Omega I” é um improviso da porra! A bateria de João Martins evoca a explosividade de Ron Tutt naqueles momentos de big band do Elvis ao vivo, já nos anos 70. E, de repente, somos jogados numa planície etérea, com notas espaçadas e a vigorosa recitação que Maria Inês Almeida faz do aclamado livro de poesia “Cattle of the Lord”, de Rosa Alice Branco – obra que venceu o Prémio Espiral Maior de Poesia, na Galiza, e foi considerado um dos 12 melhores livros publicados nos EUA, em 2016, pela The Chicago Review of Books. Ainda no tema, há qualquer coisa de “Riders On The Storm” ou talvez seja de “The End”, daquele onirismo febril do deserto Mojave.

No terceiro movimento – “Omega” – a entoação de Maria Inês Almeida transporta açlguma urgência ao som, e o trio torna-se mais propulsivo, com os ciclos de repetição de Gabriel Neves a servirem de tundra à cavalgada de Jorge Loura nos trastes mais graves da escala. A segunda parte do solo de guitarra obedece a uma brusca acentuação de intensidade, a uma progressão mais rocker. E a partir daqui restam somente uns épicos quase 22 minutos de exploração dinâmica.

“Alpha” é mais serena (com excepção às colisões polirritmicas que emergem a partir da segunda metade do segundo movimento) e talvez mais lúcida ou, pelo menos, mais simples de ser degustada por um ouvido mal treinado como o deste que vos escreve, com uns overtones extremamente sedutores.

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