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AVESSO
PHONOS

AVESSO, desassossego

“desassossego”, o álbum de estreia dos AVESSO, é um disco tão acessível quanto labiríntico. Um trabalho esplendorosamente atmosférico e emocionalmente poderoso para redescobrir em cada escuta.

Idealizado como residência artística no início de 2022, o encontro improvável de músicos oriundos de diferentes linguagens musicais, rapidamente se transformou num consistente e promissor projecto artístico. Assim, em 2023, após várias sessões de experimentação e criação conjunta em estúdio, os AVESSO, grupo constituído por Diogo Leite na bateria, Dani Valente na guitarra, Vitor Hugo na guitarra/voz, e Paulo Rui no baixo/voz, iniciaram e finalizaram o processo de gravação de 14 temas no Caos Armado Estúdio.

Estes temas compõem o seu primeiro álbum denominado “desassossego”, sendo que o culminar deste processo oficializa, assim, AVESSO como banda. Resultado das diferentes influências, linguagens e culturas musicais, das diferentes formas de criar música, diferentes percursos e experiências individuais enquanto elementos de outras bandas e circuitos, seria naturalmente imprevisível o resultado.

Através do rock, os AVESSO exploram os domínios do espírito humano, dos seus pântanos aos seus cumes, não se fechando em sonoridades nem fórmulas de criação ou expressão, trazendo assim uma mistura experimental tanto de melodias como dissonâncias num rodopio de tons doces com notas azedas, que se configuram numa forma de composição em espiral.

A música de AVESSO, é vocalizada em Português, liricamente suportado em poemas de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos, bem como na reinterpretação da dramaturgia renascentista, onde Séneca é referência, passando pelos Rubaiyat de Omar Caiam, encontramos também vários textos originais escritos por ambos os vocalistas.

O Filósofo e o Imperador

Séneca, o Jovem, e Marco Aurélio. Duas das mais imponentes figuras do estoicismo. Separados por um século. O primeiro, nascido por volta do ano 4 a.C., foi um escritor, filósofo e estadista romano. Os seus ensinamentos são expressos principalmente nas suas numerosas cartas, nas quais aborda uma variedade de temas, desde questões éticas até à natureza da felicidade. Séneca enfatizava a importância da virtude como o caminho para a verdadeira felicidade e a necessidade de aceitar o que não podia ser mudado. Para ele, a sabedoria consistia em viver consoante a natureza, em harmonia com o Logos que governa o Universo.

Marco Aurélio, nascido em 121 d.C., ascendeu ao trono como imperador romano e o seu reinado foi marcado por desafios e conflitos. Na suas “Meditações”, uma série de escritos pessoais, Marco Aurélio reflecte sobre a natureza efémera da vida e a importância de cultivar a virtude em meio às adversidades. Ele acreditava que a verdadeira liberdade residia na capacidade de controlar as próprias reações às circunstâncias, uma ideia fundamental no estoicismo.

Uma semelhança notável entre Séneca e Marco Aurélio, é fácil de perceber, é a ênfase na virtude como a chave para uma vida significativa. Ambos consideravam a sabedoria, a coragem, a justiça e a temperança como virtudes fundamentais que deveriam guiar as ações humanas. A busca pela virtude não era apenas um ideal abstracto, mas uma praxis diária que envolvia introspecção constante e o aprimoramento contínuo, através da autodisciplina e do controlo das emoções.

A capacidade de enfrentar as adversidades com serenidade e equilíbrio era vista como uma manifestação da verdadeira força interior. Ambos reconheciam que, embora não possamos controlar as circunstâncias externas, temos controlo sobre as nossas reações e atitudes em relação a elas.

Outro ponto em comum é a aceitação da impermanência e da natureza efémera da existência. Séneca escreveu extensivamente sobre a brevidade da vida e a importância de viver plenamente no presente. Marco Aurélio, por sua vez, ponderou sobre a transitoriedade da vida humana e a inevitabilidade das mudanças. Ambos reconheciam que as dificuldades eram uma parte intrínseca da existência, mas como respondemos a esses desafios é crucial para nossa felicidade interior.

Trincar A Vida Toda

Foi sobre as palavras do filósofo e do imperador mais focadas neste particular que Paulo Rui construiu o lirismo de “Se Eu Pudesse Trincar a Vida Toda”. Palavras que, sobre as múltiplas camadas de tessitura indolente, se sentem em vigorosa justaposição no primeiro single de AVESSO.

«A morte, não é ela que devemos temer, mas sim nunca começar a viver. Perdemos na suposição do que devia o Homem ser e não somos, sejamos. Esperamos para viver, e na espera do amanhã perdemos o hoje. A vida, assim como o seu caminho, não importa quanto tempo dura, mas o que dela fazemos. Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. Curta é a vida quando se esquece o passado, se ofusca o presente, se teme o futuro.

Anseia-se a morte, mas a maior parte da morte, já se foi. Anseia-se a morte, mas a maior parte da morte, já se foi. Todo o homem quer viver feliz, mas descobrir o que traz a felicidade vai-se tentando, uma vez que quanto mais a procuramos mais dela nos afastamos, porque não pensar que um dia é por si, só uma vida? A maior parte da morte já se foi, deseja-se a sorte que mói o tempo que passou a ela pertence».

Rubaiyat

“A Existência Dos Homens” foi o segundo single de avanço para o álbum de estreia desta banda. Nas palavras de Paulo Rui. vocalista/baixista dos AVESSO,, este tema «foi transcrito a partir de um dos poemas de Rubaiyat, por Omar Khayyam, que foi (entre outras coisas) um poeta persa do século XI e XII. Nos seus textos encontramos temas e citações que continuam a ecoar presentemente, pelo menos para nós, de uma forma muito pertinente. E curiosidade, sendo que muito do álbum é inspirado e transcrito a partir de Fernando pessoa, por foi ele quem também esteve na transcrição dos Rubayat para a língua portuguesa».

Concretamente, a transposição das palavras para a melodia, a sua concretização vocal, faz deste tema um dos mais progressivos dos AVESSO. Não há exactamente o usual esquema de versos e refrão, mas um crescendo, alimentado por uma bateria frenética, que culmina numa parede de distorção post hardcore que revela algumas das mais predominantes influências dos AVESSO.

Desassossego

«Quero ignorado, e calmo / Por ignorado, e próprio / Por calmo, encher meus dias / De não querer mais deles. / Aos que a riqueza toca / O ouro irrita a pele. / Aos que a fama bafeja / Embacia-se a vida. / Aos que a felicidade / É sol, virá a noite. / Mas ao que nada ‘spera / Tudo que vem é grato».

No dia em que estreou o álbum “desassossego”, o primeiro álbum dos AVESSO e o álbum que inaugura a ROMA INVERSA como editora discográfica, a banda apresentou também o seu terceiro single, “Aos que a felicidade é sol virá a noite”, com as brilhantes dicotomias de Fernando Pessoa, publicadas nas Odes de Ricardo Reis.

Clarões

No “Pêndulo de Focault”, de Umberto Eco, é memorável a cena em que Belbo mantém uma nota musical e se sente gloriosamente alinhado com um potencial ponto fixo no Universo, o ponto que sustém o pêndulo. Um clarão de luz, uma orgástica epifania. Esse tipo de sensação, é uma das mais gratificantes e comuns no álbum de estreia de AVESSO.

Através de penetrantes leads, dão-se esses rasgões prismáticos entre a opressiva massa de distorção e a propulsividade rítmica. Sem desprimor para os três singles, “Se Eu Pudesse Trincar a Vida Toda”, “A existência dos Homens” e “Aos Que a Felicidade É Sil Virá a Noite” são apenas uma parte de tudo o que são os AVESSO. Pórticos elaborados, mas apenas um meio para entrar na exuberante cidadela de sons e ideias que é o álbum “desassossego”.

Carregado de progressões melódicas tão surpreendentes quanto aditivas, com uma tremenda parede de amplificação, ainda que com uma tensão instrumental espartanamente controlada, e deslumbrante densidade atmosférica, este álbum de AVESSO é um discão de ambientes épicos, possui peso e melodia como só é possível verificar neste espectro musical que possui inúmeros contactos com Cult Of Luna, por exemplo, mas também carrega um urbanismo pós-rocker que nos remete para os Linda Martini e uma amplitude de canções e desassombro vocal que associamos aos nossos grandes cantaurores da Revolução.

Esplendorosamente atmosférico e emocionalmente poderoso, “desassossego” teve edição no dia 8 de Novembro de 2024, num esforço conjunto da Raging Planet e da ROMA INVERSA (a nossa primeira edição discográfica, tal como sucede com AVESSO). Podem encomendá-lo através do Bandcamp ou enviando email para romainversaprint@gmail.com

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3 pensamentos sobre “AVESSO, desassossego”

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