“Concealed, in the silence”, o sétimo trabalho de originais dos Karnnos é mais um monumento de música onírica e contemplativa. Um disco verdadeiramente deslumbrante de um projecto absolutamente singular na música portuguesa.
As palavras da Corvus, o selo discográfico deste disco, que acompanham a edição são magistralmente eloquentes: «’Concealed, in the silence’ é o sétimo álbum dos Karnnos, uma busca contemplativa e onírica pela mãe cósmica, no abismo do tempo. Canções e paisagens sonoras de cariz ambiental, folclórico e sinistro ilustram a viagem pelos mistérios da Grande Mãe, da morte, da transformação e do renascimento.
À actual formação de baixo, guitarra, acordeão e sintetizador juntaram-se o violino, o hurdy gurdy, o saltério e o bandolim, trazendo uma sonoridade renovada à paleta sonora de Karnnos. A música Karnnos sempre foi uma viagem nostálgica pelos vestígios de outrora, uma corrente de sensações, imagens e símbolos vindos das florestas mais profundas, dos ecos dos nossos antepassados, da ligação com o invisível, o misterioso e o indomável».
Esta coisa das liner notes, em inúmeras ocasiões, peca pelo excessivo uso de superlativos. Mas no caso deste álbum de Karnnos são absolutamente assertivas. Já há alguns anos desde que a banda adquiriu maior foco nas composições e maior densidade atmosférica. Este “Concealed, in the silence” mostra um cada vez mais apurado sentido dinâmico, somado pelo bom gosto dos apontamentos específicos da instrumentação, como, por exemplo, as suaves melodias de baixo em “A Sea Of Saturnine Reflections”.
Em momentos como “A Mãe Das Profundezas”, “O Sonho Da Serpente Numinosa” ou “A Vertigem Sem Fim”, além do sentido bucólico (som mais cru e acústico, nomeadamente no reforço da sanfona, na guitarra e no acordeão) parece tudo um pouco mais pós-punk, daquele jeito que essa corrente estética se imiscuiu na sonoridade de Rodrigo Leão.
Mas no caso dos Karnnos, a gratificação empírica é mais potente. Quiçá fruto de um fluxo mais etéreo e xamânico dos ambientes e das texturas. As melodias são mais sugeridas que impostas e isso permite que o ouvinte se perca na leveza dos guias narrativos (os bilingues vocalizos etéreos) do disco.
A “metade anglo-saxónica” do álbum, a dos títulos cifrados em inglês, é mais sombria, mais gélida e, ainda assim, de absorção mais imediata. Seja pelo seu charme e envolvência de sintetização, como já referimos a propósito do tema de abertura, seja pela sua cadência mais repetitiva e lisérgica (“Staring At The Fountain Of Nothingness”). Pessoalmente, sou remetido para o folclore sombrio dos nórdicos Of The Wand & The Moon, ainda que não me atrevesse a sugerir Kim Larsen como uma referência dos Karnnos – talvez o contrário fosse mais ajustado, na verdade.
No final, “Concealed, in the silence” parece também mais melódico, com mais momentos-canção, mas ainda assim, é na sua vertente mais contemplativa que os Karnnos continuam estelares. Como se vulgarizou dizer sobre alguns thrillers cinematográficos, a encerrar o disco “A Murder Of Crows Guiding Epiphany Back to the Unformed Skies” é um slow burner que, ao longo de uns épicos 12 minutos, se revela como a jóia da coroa deste trabalho, o pináculo do ritual. As suas sucessivas vagas de crescentes camadas sónicas tornam-na irresistivelmente onírica. E assim sendo, parece siamesa de Alberto Caeiro:
«Só a Natureza é divina, e ela não é divina… / Se às vezes falo dela como de um ente / É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens / Que dá personalidade às coisas, / E impõe nome às coisas. / Mas as coisas não têm nome nem personalidade: / Existem, e o céu é grande e a terra larga, / E o nosso coração do tamanho de um punho fechado… / Bendito seja eu por tudo quanto não sei. / Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.»

Um pensamento sobre “Karnnos, Concealed in the silence”