Mors-Amor & O Revolteio Entrelaçado De Penumbra

Uma reflexão sobre os vigorosos temas presentes em “Mors-Amor”, romance de estreia de Sónia Ferreira, e as sinestesias com “Dun Scaith”, segundo álbum dos Karnnos, misterioso projecto neo folk português.

O potente divino feminino de Marion Zimmer Bradley e os ciclos de morte e renascimento dos mitos arturianos. A nostalgia do bucolismo idílico, diante das inexoráveis correntes do progresso. Esse choque está imensamente presente em Tolkien, sim, mas aqui deriva mais dos contrastes dos pseudónimos de Pessoa. Aliás, todos eles presentes. Tão lusa, como a sua obra, Sónia Ferreira criou o dinamismo da sua narrativa com justaposições entre as perspectivas de Alberto Caeiro e o carácter de Álvaro Campos. Momentos há em que surge algo do neoclassicismo de Ricardo Reis. E, tudo somado, este “Mors-Amor” sente-se bastante intímo e até fragmentado, como o “Desassossego” de Bernardo Soares. Essa fragmentação é o aspecto mais negativo deste romance de estreia.

Sónia Ferreira escreveu “Mors-Amor”, talvez, ao longo de mais de uma década. Uma década em que amou, foi mãe, tornou a apaixonar-se e a ser mãe. Lutou para criar os filhos, para manter o lar, enquanto construiu a pulso a sua carreira profissional. Se são mulheres, sabem exactamente o que isto significa. Se são homens e casados com uma mulher, também o sabem. E, neste romance, na sua execução, sente-se cada momento de maior vigor criativo da autora, quando a narrativa flui, cada esperança íntima e cada forma de ver-se a si própria e aos que a rodeiam. Sentem-se também as frustrações e o cansaço, como muitos momentos em que a narrativa se torna confusa e difícil de ler.

Devo confessar que sou amigo da autora desde o liceu. Não tenho pretensões a escritor, nem metade da sua imaginação. Faço a confissão para que não julguem que os elogios são falsos louvores ou que as críticas sejam inveja mesquinha. Acontece que, quando referia sentir-se cada luta pessoal e diária da autora, isso se reflecte na execução da obra. Especificamente, percebe-se a intenção da autora em humanizar os heróis, em dotá-los de entes queridos e complexidade social, para mais se sentir aquilo que colocam em jogo, mas a informação é hiper-abundante, desorganizada e, em alguns casos, redundante. O leitor terá uma tarefa árdua para se familiarizar com o livro nos primeiros capítulos. Há também informação que, por isso, se revela supérflua. Depois, há muitos momentos em que há pouca riqueza no vocabulário. Um amigo mais próximo poderá ainda condescender, por perceber as lutas do criador, nos intervalos da criação. Todavia, um leitor anónimo terá um julgamento mais duro sobre o que lê. O mesmo deve ser dito sobre os problemas gramaticais (em particular na pontuação, sintaxte e ortografia). No fundo, “Mors-Amor” é bastante semelhante a uma demo tape de enorme potencial, que carece de apurada edição.

Nos momentos em que a narrativa não está apressada, esta pungente tragédia consegue envolver-nos pelo realismo descritivo dos seus elementos místicos e mágicos, pela sua temível aura sobrenatural, por um erotismo cru e pela ferocidade de uma emoção tão visceral como o amor. Tudo isto sublimemente integrado com as imponentes Serras Beirãs do Caramulo, de Arada, da Freita, desde a época castreja à violenta romanização, até Fontes Pereira de Melo e a vibrante Regeneração, focalizada em Torredeita. E esse é o mais sublime dos ciclos de morte e renascimento deste romance. Os protagonistas da Idade do Ferro, a sua tragédia, a infame Traição de Galba, tudo entrelaçado até à esperança revigorada em Viriato (deixada em aberto) e a concretização já nessa era que foi o último grande fôlego da monarquia portuguesa. Elegantemente entrosada com a fé cristã e com a superstição popular, surge a sua atmosfera pagã, a devoção à Natureza, à Mãe. É neste aspecto que surgem imponentes sinestesias com os Karnnos e o seu segundo álbum…

“Dun Scaith” oferece continuidade ao promissor trabalho de estreia, “Deatharch Crann”, mas mais focado e com maior densidade atmosférica. Optando por um som mais cru e acústico, nomeadamente no reforço da sanfona, na rabeca (ou violino) e no acordeão, o neo folk dos Karnnos ganha maior vigor e maior alcance ambiental, com maior riqueza nas texturas. As camadas que formam a base musical da banda são menos difusas e mais consistentes, paradoxalmente ampliando a sua dimensão e a profundidade das composições. “Ruins And Terror” parecem premonitórias da tragédia de Erithia e Iccius, os protagonistas de “Mors-Amor”, “O Revolteio Entrelaçado de Penumbra” remete-nos para as fundações imemoriais das montanhas, as suas raízes de pedra, os rebanhos e o pastoreio das Beiras. “Dun Scaith” é um belo álbum, mais melódico que aquele que o antecedeu, mas também mais sombrio, que nos oferece uma visão pagã de Portugal tão inesperada quanto fascinante, tal como “Mors-Amor”.

A Purinos Polemos é uma das mais bem documentadas campanhas do Império Romano. A autora apoia-se nela, mas talvez pudesse ter aprofundado um pouco mais os aspectos históricos, para redimensionar o seu trabalho. No entanto, no final, o grande trunfo deste romance e de Sónia Ferreira é forma como é capaz de expressar e dar forma à força indómita com que se ama, credibilizando os elementos de literatura fantástica da narrativa.

Podem e devem adquiri-lo no site oficial da Sónia Ferreira. Quanto ao álbum dos Karnnos, trata-se de uma edição limitada de 2022 e possuir uma cópia é uma tarefa bem difícil. Fiquem com o streaming, no player seguinte.

Um pensamento sobre “Mors-Amor & O Revolteio Entrelaçado De Penumbra

Leave a Reply