Vol.4

Black Sabbath, Vol.4

Alicerçado numa dieta de estupefacientes, “Vol.4” é a cúpula da tetralogia sagrada com a qual os Black Sabbath reescreveram a história da música.

Este não é um álbum de metal, heavy metal, stoner ou doom, é antes um diário sacrílego sobre a importância dos narcóticos como potenciadores da capacidade criativa. Nele, Iommi, Ozzy, Ward e Butler surgem como pitonisas em transe psicotrópico, a inalar o fumo e o pó da criação eléctrica. O experimentalismo, presente como em nenhum dos três trabalhos anteriores, derivará desse factor e acaba por fazer de “Vol.4” o álbum menos focado dos quatro. Mesmo em termos de impacto mediático, este é o que tem menos hinos que chegaram à aclamação mainstream.

E, no entanto, a viagem começa logo com “Wheels of Confusion”, um épico em várias partes que condensa a lógica do álbum: riffs mutantes, mudanças súbitas de tempo, e um groove que tanto pisa terrenos progressivos como mergulha no peso primitivo. Há algo de descontrolado na forma como a música avança, como se fosse um ensaio estendido — mas é precisamente esse carácter errático que lhe dá uma chama singular.

Contudo, ao final de mais de 50 anos, esse factor de alguma dispersão torna o “Vol.4” capaz de sobreviver à erosão da exposição contínua. Ou seja, actualmente é mais fácil ser surpreendido por este trabalho que por “Paranoid”, por exemplo. A meio disto a banda consegue ainda aqui ter o peso de “Master of Reality” e a acessibilidade de “Paranoid”. Não é um álbum perfeito, apenas porque num ou noutro momento há uma perda significativa de controlo durante o disco, ainda que seja precisamente isso que o torna tão distinto.

Entre esses momentos está “Changes”, talvez a canção mais divisiva da carreira dos Sabbath. Sem guitarras, sem riffs, apenas piano, melotron e Ozzy a cantar sobre a perda de amor. Muitos a acusaram de traição, outros reconheceram nela uma vulnerabilidade inesperada. Hoje, soa como um parêntesis comovente, a prova de que até no auge da intoxicação a banda era capaz de escrever uma balada que ressoa meio século depois e com mais vigor após o dia 22 de Julho de 2025.

Além disso, a espontaneidade rítmica, o balanço de Butler e Ward em “Vol.4”, tem um swing que mais nenhum dos 4 álbuns sagrados consegue demonstrar, bem como ambos os músicos surgem mais independentes, nas suas prestações, das tecelagens graníticas de Iommi (algo a que não é alheia a forma brilhante como Colin Caldwell e Vic Smith foram capazes de, mantendo o peso sólido da batida de Ward, abrir mais o som de bateria na mistura, tornando-a maior). A acentuar a sensação mais psicadélica do álbum, também os vocalizos feéricos de Ozzy surgem mais soltos das linhas melódicas instrumentais.

Esse mesmo desprendimento ganha corpo em “Supernaut”, talvez o ponto mais alto do disco. É a faixa onde Iommi ergue um dos protótipos de todo o stoner rock, com um riff que é simultaneamente paquidérmico e dançável. Butler e Ward funcionam como locomotivas gémeas, e Ozzy, em estado de possessão, parece declamar um mantra pagão. John Bonham, dos Led Zeppelin, chegou a dizer que esta era a sua música favorita dos Sabbath — e não é difícil perceber porquê…

No meio da brutalidade, há ainda espaço para experiências como “FX”, um interlúdio de efeitos de guitarra tão bizarro que continua a dividir opiniões: ruído inútil para uns, ousadia psicadélica para outros. E há o fecho monumental de “Vol.4” com “Under the Sun”, uma das canções mais subestimadas dos Sabbath, onde riffs ciclópicos se alternam com secções quase jazzísticas, encerrando o álbum como um sermão profano.

Iommi não é o melhor guitarrista da história das seis cordas dentro do espectro sonoro mais pesado, mas é o maior. Foi ele o Ferreiro que inventou o martelo e a bigorna que haveriam de mudar para sempre a história da guitarra eléctrica – hoje usam-se afinações em B ou mesmo drop A de modo a que seja mais imediata a sensação monolítica do som (em “Vol.4” não há afinações abaixo do drop D), mas Iommi erigiu dólmens com as mãos.

Após cinco décadas, fica a sensação de que a música vai sendo refém de detalhes de produção, da indústria e mesmo da displicência que a era digital permite na execução. Mas uma máquina jamais terá alma – e ao fim deste tempo a salvação do rock não reside sob os holofotes dos media, mas continua no submundo da amplificação onde os Black Sabbath permanecem como a figura maior do panteão ao qual, aí, se presta culto. Ouvir “Vol.4” fará qualquer jovem crente querer pegar na guitarra e incorporar o “Supernaut”…

…«I want to reach out and touch the sky».

VOL.4: SUPER DELUXE EDITION

Em Fevereiro de 2021 chegou uma versão expandida de “Vol.4”. Os fãs podem ouvir 20 gravações em estúdio e ao vivo até aí inéditas, nos formatos 4xCD e 5xLP do clássico disco de 1972. Ambos os formatos vêm com extensos cadernos de notas, com citações de Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward. A colecção inclui também um poster, fotografias raras e um rascunho inédito do trabalho artístico do álbum, que ostenta o título de trabalho “Snowblind”. “Vol 4: Super Deluxe Edition”, integra ainda um concerto captado ao vivo na digressão britânica de 1973.