Charles Bradley

Charles Bradley vs. Black Sabbath

Um dos grandes que o cancro levou. Charles Bradley surgiu como um furacão, ressuscitou a soul clássica para uma nova geração, recorrendo a clássicos do rock, como na mais carregada de alma versão de “Changes”, o pungente original dos Black Sabbath.

A vida foi-lhe madrasta. Apenas em 2011 o mundo conheceu o enorme talento que brota de Charles Bradley. Ele que, com 14 anos, viu um concerto de James Brown no Apollo, no Harlem, e desde daí sonhou em ser músico. Numa era em que se formam estrelas pop por decreto, antes de o sonho de Charles Bradley se tornar realidade, ele viveu na rua, ganhou a vida como cozinheiro, canalizador ou engraxador. Em 2017, o músico tinha 68 anos e morreu devido a um cancro no estômago. Foi-se mais um dos bons.

Tivemos a sorte de o ver e ouvir no Vodafone Paredes de Coura em 2015. Qualquer que seja o ângulo, é surpreendente e vigorosamente irónico que Charles Bradley tenha sido um dos mais celebrados concertos nessa edição do festival. Labels, público, imprensa, todos se empenham em exaurir a internet, em busca da próxima big thing. Marcas de instrumentos, de equipamento de estúdio, de áudio profissional, continuam a explorar o universo digital, em apresentar a tecnologia definitiva.

Era a meio destas ideias que Charles Bradley, à imagem da sua própria carreira e com os Extraordinaires carregados de aparato vintage e analógico, revelava a única coisa que importa verdadeiramente num músico: a alma. Poderia falar-se em atitude, vísceras ou guts, em cojones ou “tê-los no sítio”, mas alma é o que convenientemente traduz a expressão musical de Charles Bradley, o soul.

Essa vez que o vimos ao vivo e nos marcou para sempre, não foi a brilhante prestação da banda, não foi a excelência comunicativa de Charles Bradley ou a sua pujança física, não foi o tremendo charme sonoro do concerto que tornou tudo inesquecível. Foi ter testemunhado algo raro: um artista real, numa entrega incondicional da sua devoção, do seu âmago, musical e pessoal. Quem expõe a alma coloca-se nu, oferece tudo. É real. E assim acolhemos a alma de Charles Bradley.

Nesse ano, parecia que tudo aquilo em Charles Bradley tocava se transformava em ouro. Depois de “Heart Of Gold” e “Stay Away”, clássicos de Neil Young e Nirvana, respectivamente, o artista gravou uma emocionante versão de “Changes”, original dos Black Sabbath, editado no clássico álbum de 1974, “Vol. 4”. Anteriormente editada como single para o Record Store Day, a canção foi o tema que deu o título ao álbum de Charles Bradley editado em Abril de 2016.

Uma escolha, talvez, inesperada. Sobre a canção, Charles Bradley afirmou, na altura: «Penso a fundo nas letras quando canto “Changes” e emociono-me. Faz-me pensar na minha mãe e nas mudanças na minha vida desde que ela faleceu». Deixamos a versão de estúdio e uma gravada ao vivo nos estúdios do Toronto Star, onde se exsuda o suor da alma. Um daqueles casos em que, talvez, a cópia ultrapasse original…

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