O renascimento sombrio dos Black Sabbath: entre exaustão, delírio e inspiração num castelo inglês, Sabbath Bloody Sabbath ergue-se como a obra que salvou — e reinventou — os titãs britânicos.
Há discos que não pertencem apenas à história do heavy metal; pertencem ao imaginário humano, àquele território onde a criação emerge entre delírio, exaustão e uma qualquer forma de revelação obscura. Sabbath Bloody Sabbath, lançado a 1 de Dezembro de 1973, é precisamente isso: o som de uma banda que, no limite absoluto das suas forças, se recusa a cair.
Há obras que nascem da disciplina e outras que nascem do colapso; Sabbath Bloody Sabbath nasce da implosão iminente de Black Sabbath, e talvez por isso mesmo seja tão perigosamente brilhante. É o quinto álbum da banda, o ponto exacto em que a semente do género que haviam criado começa a maturar, a expandir-se, a exigir ambição. E a banda, arruinada por meses de digressão, fármacos, cocaína, noites sem sono e o peso de ser pioneira, responde não com controlo, mas com um salto para dentro do abismo criativo.
A lenda repete-se quase sempre da mesma forma: depois da digressão extenuante de Vol. 4, nenhum dos quatro conseguia escrever um riff decente. Tony Iommi, cérebro e espinha dorsal sonora do grupo, chegava aos ensaios em Los Angeles incapaz de produzir uma ideia que prestasse; Ozzy estava demasiado desgastado para cantar com clareza; Geezer Butler escrevia letras entre estados de humor alterados; Bill Ward lutava contra corpo, mente e substâncias.
Velha Albion
Em qualquer outra banda, isto teria sido o fim. Em Black Sabbath, foi apenas o prenúncio de que algo tinha de mudar. Los Angeles, com os seus estúdios assépticos e tentações demasiado fáceis, tornou-se um espaço morto. E então surge a decisão que mudaria a história: fugir. Abandonar a Califórnia. Regressar à Inglaterra. Trocar o sol plástico de Hollywood por uma fortaleza medieval onde os rumores de fantasmas eram tão espessos quanto a humidade. Clearwell Castle, no meio do Floresta de Dean, seria o cenário da ressurreição.
É aí que tudo acontece. Tony Iommi, sozinho numa sala subterrânea, guitarra em punho, sente finalmente o clique criativo que o vinha a abandonar há meses. O riff surge duro, quase puro demais, com aquela arquitectura que apenas Iommi sabe invocar: pesado, mas elegante, ameaçador, mas irresistível, simples na superfície e complexo no impacto.
O riff de “Sabbath Bloody Sabbath” não é apenas a primeira ideia do álbum; é o renascimento mental da banda. É a prova de que havia ainda algo dentro deles, de que não estavam apenas a sobreviver ao caos, mas a produzir arte a partir dele. O castelo, com as suas sombras e corredores frios, assustava-os, mas também lhes devolvia aquilo que tinham perdido: foco. Força. Medo. E, no caso de Black Sabbath, o medo é sempre fértil.
A partir desse impulso, o álbum desenvolve-se como uma criatura orgânica, mutante, muito mais sofisticada do que tudo o que haviam feito até então. Há quem veja em Sabbath Bloody Sabbath o início oficial do chamado “prog Sabbath”, e não é um exagero. Aqui, finalmente, a banda permite que o seu peso se expanda para além da fórmula inicial. Os arranjos são mais ricos, as harmonias mais ousadas, os experimentos sonoros mais declarados.
Não há aqui o minimalismo quase documental de Paranoid; há um desejo claro de ir mais longe, de explorar a escuridão com mais instrumentos, mais texturas, mais camadas. E, no entanto, nada se perde. A identidade está ali, intacta, apenas mais ambiciosa.
Este Sabbath Bloody Sabbath é um disco construído sobre contrastes: fragilidade e poder, delírio e disciplina, introspecção e violência. Iommi, talvez ciente de que não podia simplesmente repetir a fórmula, investe em composições que exigem mais de todos. Geezer, como letrista, está especialmente inspirado, escrevendo sobre ansiedade, manipulação, auto-aniquilamento, desespero existencial — temas que ressoam ainda mais quando sabemos em que estado estavam todos.
Bill Ward oferece interpretações que navegam entre a explosão rítmica e a subtileza. E Ozzy, por sua vez, canta como um homem que não compreende totalmente o que está a viver, mas sente que está a ser consumido por algo maior. Há aqui um brilho trágico, uma vulnerabilidade que nunca mais voltaria a soar tão autêntica.
Improbabilidades
É fácil esquecer que Sabbath Bloody Sabbath não é apenas um triunfo artístico, mas uma reacção à própria possibilidade de extinção. A banda sabia que, se este disco não funcionasse, poderia muito bem ser o fim. O desgaste físico era brutal; as tensões internas, quase permanentes; e o mercado, já então, exigia reinvenções que muitas bandas não sobreviveram ao tentar cumprir.
O que a maioria desconhece — ou prefere ignorar — é que a criação de Sabbath Bloody Sabbath foi tudo menos romântica. Houve ataques de pânico, noites inteiras sem qualquer progresso, discussões acesas, crises de identidade. E, ainda assim, o resultado final soa como se tivesse sido concebido com clareza cristalina.
A faixa-título, núcleo conceptual e emocional de Sabbath Bloody Sabbath, é um monumento. O seu riff é tão instantaneamente reconhecível que parece ter existido sempre, à espera que alguém o encontrasse. O seu movimento entre agressividade e melodia revela uma maturidade inesperada, como se a banda tivesse finalmente compreendido a elasticidade do próprio som. “A National Acrobat”, logo a seguir, expande essa mesma ideia com um jogo de tensões que demonstra o quanto Iommi estava disposto a experimentar.
“Fluff”, a peça instrumental, aparece como um respiro quase pastoral, uma miniatura acústica que prepara terreno para que o peso posterior tenha ainda mais impacto. E quando chegamos a “Sabbra Cadabra”, percebemos que o Sabbath estava a brincar com fogo, puxando para o rock sensual e cheio de groove um arrojo que, na década seguinte, muitos tentariam imitar sem sucesso.
Mas é no conjunto — na arquitectura total — que Sabbath Bloody Sabbath revela a sua verdadeira força. Este não é apenas um álbum; é uma afirmação de sobrevivência. É o som de quatro homens a jogar contra o próprio corpo, a própria mente, o próprio destino, e a vencer. É, ao mesmo tempo, a última obra totalmente unificada da formação clássica. Depois disto, a fractura seria inevitável. A sombra do colapso definitivo já pairava, mas aqui ainda existe a centelha: a vontade de lutar, de criar, de transcender.
E há algo profundamente comovente na ideia de que um dos riffs mais importantes da história do metal tenha surgido num castelo inglês, tocado por um homem exausto, frustrado, possivelmente drogado, mas determinado a não ceder à impotência criativa. É quase um mito de fundação, mas é real. E talvez seja essa realidade crua — essa mistura de decadência física e lucidez artística — que faz de Sabbath Bloody Sabbath uma obra tão intensa, tão honesta, tão irredutível.
Passaram-se décadas desde aquele 1 de Dezembro de 1973, mas Sabbath Bloody Sabbath continua a soar como uma espécie de grito de guerra espiritual. É pesado sem ser bruto, complexo sem ser pretensioso, emocional sem ser melodramático. É o Sabbath a reinventar-se no exacto momento em que tudo indicava que estavam a morrer. E é por isso que o disco é tão decisivo: porque nos lembra que há grandeza no acto de resistir, mesmo quando a resistência é quase impossível.
Há álbuns que definem géneros; Sabbath Bloody Sabbath define o que significa sobreviver a si próprio. E é precisamente essa brutal beleza que o torna imortal.
