De “Absolute Nowhere”, com o qual os Blood Incantation varreram o mainstream, a elegância absolutamente singular de “Wild God”, de Nick Cave & The Bad Seeds, e a absoluta maturação de Chelsea Wolfe em “She Reaches Out To She Reaches Out To She” ao som belíssimo e retro de Fabiana Palladino. Estes são os nossos álbuns preferidos, editados extra-muros, em 2024.
Em relação à nossa lista AOTY dos discos criados em Portugal, esta lista retrata ainda mais as preferências pessoais deste vosso escriba e tem menos em consideração outros critérios. Teria sempre que ser assim, considerando a escala de uma tarefa destas – afinal, quem terá ouvido, pelo menos, 10% de toda a música editada internacionalmente em 2024?
De qualquer forma, há discos incontornáveis. No espectro do rock ou da música alternativa havia desde logo o visceral “Wild God”, o 18.º álbum de estúdio de Nick Cave & The Bad Seeds, e um dos mais consensuais álbuns de metal de sempre para o mainstream, prova de que em “Absolute Elsewhere”, os Blood Incantation estão a deixar a noção de género para trás e a escrever uma nova linguagem para a própria música extrema. Talvez esses dois se destaquem entre as nossas escolhas.
Custa deixar de fora desta eleição alguns discos, nomeadamente “The Collective”, o intenso, desorientador e pulsante segundo álbum a solo de Kim Gordon; o portentoso “Umbilical”, o primeiro álbum de música totalmente original dos Thou desde “Magus” (2018); ou o sexto álbum de estúdio de Jack White, lançado de surpresa em Julho. O disco foi inicialmente distribuído, de graça e sem quaisquer avisos prévios, nas três lojas da Third Man Records. Bastava uma compra para receberem em mãos um vinil sem capa, com No Name escrito num autocolante. Um título que colou para um álbum que é um regresso às raízes garage rock do músico, ao mesmo tempo que sehue o trilho dos últimos trabalhos a solo.
De resto, como sempre, procurámos ser ecléticos e os discos que integram esta lista de 10 melhores álbuns internacionais para a ROMA INVERSA, não seguem qualquer ordem específica e classificativa. Vamos lá…

Nas palavras de Nick Cave, sobre “Wild God”: «Espero que o álbum tenha o efeito nos ouvintes que teve em mim. Rebentando com os altifalantes e fazendo-me deixar levar por ele. É um disco complicado, mas também é profunda e alegremente contagiante. Nunca há um plano mestre quando fazemos um disco. Os discos reflectem antes o estado emocional dos compositores e músicos que os tocaram. Ao ouvir este, não sei, parece que estamos felizes».
Ao longo de dez malhas, a banda dança entre a convenção e a experimentação, dando voltas à esquerda e desvios que aumentam a riqueza imagética e emocional das narrativas comoventes de Cave. É o som de um grupo encorajado pela reconexão – lançado cinco anos depois de “Ghosteen” (2019), que foi sobretudo uma colaboração em estúdio entre Cave e Ellis, “Wild God” é o primeiro álbum de estúdio a contar com a participação total dos Bad Seeds desde “Skeleton Tree” (2016) – e a levantar voo. Há momentos que tocam com carinho o passado dos Bad Seeds, mas são fugazes e servem apenas para imbuir o movimento incansável e inquieto da banda.
Produzido por Nick Cave e Warren Ellis, e misturado por David Fridmann, Nick Cave começou a escrever o álbum no dia de Ano Novo de 2023. Com sessões em Miraval, na Provença, e em Soundtree, em Londres, os Bad Seeds acrescentaram a sua alquimia única, com participações adicionais de Colin Greenwood (baixo) e Luis Almau (guitarra de cordas de nylon, guitarra acústica).
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Com cerca de 45 minutos, as duas composições que compõem este álbum induzem tanta confusão e desorientação como envolvência, fundindo as tendências prog dos anos 70 dos Tangerine Dream com a raiva mortífera dos Morbid Angel. Significa isto que “Absolute Elsewhere” é um divisor de águas e, mais que consensos, irá semear discórdia. É um daqueles discos que se ama ou se odeia. A ROMA INVERSA está entre os que adoram o disco. Principalmente porque, para lá das fusões e do hype gerado no mainstream, há aqui muitas coisas para um devoto do old school death metal que não são assim tão inovadoras.
Começando pelo final de “Stargate” (a terceira parte), este progressismo todo continua a ter que pedir meças ao que os Death fizeram em “Human”. Claro que é impossível negar o apelo das amplas passagens extraídas ao kraut rock, em que os Blood Incantation deixam de estar ao lado dos titãs do passado do death metal e dão as mãos My Morning Jacket e assumem-se como Deadheads.
Os contrastes entre essa leveza sónica e os arrastões de riffs de progressão descendente à Trey Azagthoth (ouça-se o primeiro movimento de “The Message”) raiam o fascinante e percebe-se o impacto do disco junto de pessoal tão ilustre como Mike Portnoy. Da mesma forma, percebe-se que para muito boa gente, “Abolute Elsewhere” seja demasiado derivativo.
A questão é que muitos dos momentos mais exóticos não parecem essenciais à estrutura das canções – estas existiriam com os gumes igualmente afiados se fossem executados religiosamente dentro do cânone death metal. Todavia, é gratificante ouvir as transições serem executadas perfeitamente e esperar os momentos em que os Blood Incantation nos vão surpreender como na magistral segunda parte de “The Message” onde a fusão entre Morbid Angel, Death, Gorguts, Immolation, Dream Theater, Yes e Pink Floyd parece existir em perfeição alquímica desde o início dos tempos.
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Não somos tendencialmente negativos na nossa forma de olhar a música, portanto procuramos sempre descobrir o ângulo mais favorável de cada trabalho e, no caso dos Opeth, mesmo na fase em que muitos insistem na sua descaracterização sónica, somos imensamente apreciadores de álbuns como “Heritage” ou “Sorceress”. Ainda assim, diante de “The Last Will & Testament” é impossível não emergir imediatamente a sensação que estamos diante de uma obra-prima para colar ao lado do fulgurante período de “Still Life” a “Ghost Reveries”. Em “The Last Will & Testament”, os Opeth abdicaram de melhorar a há tanto tempo desejada convergência entre o death metal e o mais assumidamente declarado prog rock dos anos 70 e fizeram algo completamente diferente.
No §1 isso faz-se com maior subtileza, com contrastes dinâmicos menos abruptos e, acima de tudo, pela harmonização do alargado espectro vocal de Mikael Åkerfeldt. Apesar do melodicamente deslumbrante final do tema, a tensão narrativa é brilhantemente transposta para a instrumentação e progressões musicais, instalando-se uma sensação enervante, de inesperado desconforto, que não é fácil de sacudir após a finalização do álbum. A entrada dos Opeth no disco foi sublime, mas as coisas vão tornar-se maiores em §2.
Aí somos envolvidos pelas surpreendentes soluções criativas dos Opeth, pelas flautas de Ian Anderson, pelos pianos, Hammonds, Mellotrons, Fender Rhodes e Moogs de Joakim Svalberg, Os coros de Joey Tempest aumentam a palete de cores já alargada por Åkerfeldt. Dessa forma, as estruturas mais contrastantes do tema (que introduzem mais personagens e elementos narrativos) são toleradas com uma inesperada facilidade.
§3 talvez seja o tema mais tradicionalmente Opeth ou aquilo que mais habitualmente se espera dos suecos, mesmo que mantendo os abruptos contrastes narrativos e dando continuidade teatral ao álbum. Quando usamos termos como ‘tradicional’ ou ‘habitual’, queremos apontar os momentos em que os Opeth nos surpreendem menos (aos que os ouvem desde “Orchid”), porque no geral, Mikael Åkerfeldt mandou fora a maioria das coisas padronizadas na sua composição.
Esse salto em diante é progressivamente recompensador. Quando chegamos a §4 e a história já se entranhou, começamos a notar que estas malhas, de forma magistral e mantendo o seu núcleo de banda de rock, aproximam os Opeth dos trabalhos de um compositor como Danny Elfman ou ao majestoso sentido teatral de Andrew Lloyd Webber. “Nightmare Before Christmas”, “Jesus Christ Superstar” ou “Phantom Of The Opera” vs. Heavy Metal? Talvez. Resulta? Magnificamente! Há muito, muito mais para ler no artigo de apreciação que a ROMA INVERSA dedicou a “The Last Will & Testament”.
★★★★★

Crípticos, mais não fosse por cantarem tudo num impenetrável finlandês, com influências tão diversas como o black metal, o rock psicadélico e a música electrónica, os Oranssi Pazuzu andam há décadas a criar uma massa sónica convulsiva que transporta os ouvintes para reinos sobrenaturais. Quatro anos após o muito aplaudido “Mestarin Kynsi”, a banda voltou aos meandros do experimentalismo, alimentada por fontes ecléticas que vão dos Death Grips a Portishead, passando pelos Nine Inch Nails, Beherit e My Bloody Valentine.
Depois de, no final de Maio, terem lançado de surpresa o single “Muuntautuja” (que partilha o título com o álbum) e nos terem assegurado que continuam a afirmar-se como um banquete para todos os que cavam fundo no espectro da música pesada e estranha, os Oranssi Pazuzu mergulham de cabeça num som desumano e biológico, «num disco carregado electronicamente, de origem orgânica e inorgânica», explicam os músicos. De resto, Muuntautuja significa “metamorfo”, algo perfeitamente ilustrativo da intenção da banda em dar continuidade à sua missão de ultrapassar os limites do metal, criando um som que desafia qualquer categorização.
«A nossa experimentação com samplers e electrónica fez-nos avançar para o estranho conceito de fazer música rave de pesadelo. Tentámos encontrar um ponto comum entre ritmos dançáveis e ondas opressivas de ruído e distorção. Deixem-na abrir-vos o crânio em direcção ao vazio e guiá-lo para o estado inebriante da transformação», referiu Ikon, o guitarrista da banda, sobre o disco.
Tudo isto é mais notável em 2024 e realizado num género particularmente estanque e averso à mudança como o black metal que por vezes parece ser um território improvável para o despontar de inovações artísticas de destaque. Ao longo de uma carreira que compreende já seis registos de longa duração (contando com este “Muuntautaja”), os Oranssi Pazuzu têm contrariado essa ideia e construído uma obra ímpar.
★★★★★

Em Abril de 2024, Fabiana Palladino lançou o seu homónimo álbum de estreia. Após mais de 5 anos de produção, o álbum foi lançado com uma aclamação generalizada, enquanto Lorde declarou: «Eu imploro que vocês ouçam este álbum, para mim o melhor do ano. O facto de ser um ÁLBUM DE ESTREIA é surreal para mim».
Não se esperava menos, se em retrospectiva olharmos o seu lineup estelar. Escrito e produzido por Fabiana Palladino, o álbum conta com a participação de músicos de renome e amigos próximos, incluindo o cofundador do Paul Institute, Jai Paul, o seu pai e lendário baixista de sessão, Pino Palladino, o seu irmão e baixista de Yussef Dayes, Rocco Palladino, o famoso baterista Steve Ferrone e os cordofones de Rob Moose.
Musicalmente, procura refratar uma série de estilos associados a meados dos anos 80. Há um aceno às produções de Terry Lewis para Janet Jackson em “Can You Look in the Mirror?” e às guitarras do lado mais rocker da obra de Prince em “Shoulda”, por exemplo. E não é difícil imaginar “I Can’t Dream Anymore” como banda sonora de uma cena de amor num brilhante êxito de bilheteira de Hollywood da época.
Ainda assim, o álbum nunca parece um exercício puramente retro. Nas palavras de Alexis Petridis, no The Guardian, há uma pitada muito moderna de caos à espreita nas zonas limítrofes do seu som: a distorção sombria em torno da batida de “Can You Look in the Mirror?”; o som de sintetizador levemente desafinado que sustenta “In the Fire”; o vocal estranho e electronicamente embaralhado que acrescenta uma extremidade peculiar à introdução da jam lenta “Deeper”. Irresistível!
★★★★★

“Big Sigh” (que pode ser traduzido por enorme suspiro) – o «disco mais difícil» que Marika Hackman já fez – é, como o título sugere, uma espécie de libertação. É uma mistura edificante de tristeza, stress e luxúria, mas principalmente – e crucialmente – de alívio. Algo que se tornou mais óbvio quando Marika Hackman partilhou o poderoso single “Hanging”, uma faixa que processa o fim de uma relação num delicado e dissociativo torpor, até ao seu final envolvente num estrondo de lamentos que parecem extraídos de uma banshee e guitarras grunge.
“Hanging” simboliza os temas opostos do álbum: o contraste entre o barulho e o silêncio, o industrial e o pastoral, e a inocência da infância contra as realidades da idade adulta. Há um jogo constante entre a instrumentação orgânica e a dinâmica mais áspera da distorção sintética – como entrar num terreno baldio industrial abandonado coberto de hera venenosa. Para conseguir estas dualidades, Marika Hackman teve de criar uma paisagem sonora muito específica para cada canção: não só tocou todos os instrumentos, excepto os metais e as cordas, como também os produziu, juntamente com Sam Petts-Davies [Thom Yorke, Warpaint] e o colaborador de longa data Charlie Andrew.
“Big Sigh” é a declaração de uma música que permaneceu inventiva a cada lançamento e torna a pisar território por exeplorar. Começa com “The Ground”, uma malha cinematográfica com o seu quê de “Daydreaming”, dos Radiohead. Inquietantemente inocente, dá ao ouvinte a sensação de uma porta a abrir para o mundo e é uma de muitas músicas centradas no piano. “No Caffeine” usa esse mesmo instrumento como um dispositivo de horror para acelerar a sensação de pânico lancinante, enquanto os pianos em “The Lonely House” moldam um instrumental austero. A música é desprovida das vozes distintivas de Marika Hackman, sintetizador ou afectações grunge, revelando a habilidade subtil da artista para desenvolver uma melodia comovente.
“Blood” e “The Yellow Mile” apresentam guitarras acústicas cruas, enquanto “Vitamins” segue a árvore genealógica de “The Rip”, dos Portishead – uma profunda e alucinogénea descida em sintetizadores misteriosos, tilintar metalúrgico e um grandioso clímax apocalíptico. Se são as suas paisagens sonoras assombrosas que primeiro atraem, são as suas acrobacias líricas que se grudam ao cérebro – imagens de sanguinolência, anseio e romance descompassado. Diz a compositora: «A maneira como escrevi sobre amor e sexo neste disco é muito diferente de ‘Any Human Friend’, que foi uma celebração de diversão sexy e calor visceral e rançoso. Enquanto isto é sensível – uma reflexão mais ponderada».
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“She Reaches Out To She Reaches Out To She” foi o primeiro álbum a solo de Chelsea Wolfe em cinco anos. Em 2022, a ‘cantautora’ trabalhou extensivamente com Tyler Bates na banda-sonora para o sangrento filme “X” da A24 e juntou-se aos CONVERGE na colaboração “Bloodmoon: I”, mas desde o lançamento de “Birth Of Violence”, em 2019, que não lançava um álbum em nome próprio.
Muitas vezes, na cultura popular, a bruxaria é associada a uma espécie de recuperação feminista do poder e a um sentido de vingança ou restituição alimentado pelo rancor. E embora “She Reaches Out To She Reaches Out To She” seja, sem grandes dúvidas, o seu trabalho mais espiritual de sempre, repleto de lirismo poético sobre tarot, mundos subterrâneos e banhos de sangue, o processo de produção foi marcado por um período de cura, alegria e renúncia ao controlo.
«Ao longo dos anos, à medida que vim a abraçar um percurso na bruxaria e seguindo os ciclos das estações e os ciclos da lua, coloquei muito isso no meu processo de escrita e comecei a partilhá-lo mais, porque tem sido uma coisa muito positiva e maravilhosa na minha vida», explica Chelsea Wolfe. A influência da bruxaria significou uma maior atenção em deixar cada disco «ser o que quer ser», diz a cantora, compositora e multi-instrumentista – o que por vezes pode ser abertamente místico, como tirar uma carta de tarot para “clareza e orientação” sobre o que está prestes a escrever, ou mais ostensivamente mundano.
Olhemos, como exemplo, ao seu processo de composição para “She Reaches Out To She Reaches Out To She”. Embora Chelsea Wolfe carregue consigo, frequentemente, demos quase acabadas para o estúdio, para serem afinadas e gravadas para a versão final do álbum, desta vez decidiu trabalhar com o produtor Dave Sitek, que transformou significativamente o som das suas canções. «Este [álbum] parecia querer ser mais electrónico, um pouco mais da influência do trip-hop com que me tenho envolvido ao longo dos anos», diz ela sobre a sua adopção do género de Bristol, que mistura hip-hop e electrónica.
Parte do que informou esta ideia de deixar-se ir e de largar os seus exoesqueletos estéticos – «uma lembrança espetral de tudo aquilo em que nos tornámos», como canta numa canção – foi o início de uma viagem de sobriedade. «Fiquei sóbria de álcool no início de 2021 e já tinha começado este disco. É interessante ouvir as músicas que comecei antes disso e a maneira como elas mudaram. Isso criou muita abertura e clareza na minha vida e na minha criatividade, que canalizava naturalmente para estas músicas. Tornou-se uma questão de renascimento», recorda.
Este é um álbum de renascença, de catarse. Uma ideia plenificada num tema como “Whispers in the Echo Chamber”, uma ruminação sombria e distorcida sobre pensamentos intrusivos e a luta para nos libertarmos deles. Sente-se frágil, mas esperançosa, com a voz de Chelsea Wolfe capaz de nos tirar o fôlego de tão bonita e tão na frente.
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“Liminal Animals” é synth pop em toda a sua glória. Tal como em “Flowers Of Evil” e de há algum tempo a esta parte, os Ulver continuam mergulhados nesse universo estético, nos beats, groove nas sequenciações, robustez nos baixos e swing nas guitarras, fortes ganchos melódicos e refrões bem demarcados.
De certa forma, é como um terceiro acto para “The Assassination of Julius Caesar”. As canções são muito cativantes, mas subtis e melancólicas, a voz de Garm é cada vez mais confiante na sua particularidade e as partes instrumentais estão entre o melhor que se pode esperar dos Ulver contemporâneos. Depois há coros de gospel, ressuscitando a espiritualidade de “Messe I.X-VI.X”; ambiências evocativas de “Drone Activity”; um trompete que nos remete para “Shadows of the Sun”.
Uma malha como “Ghost Entry” possui dinâmicas irrepreensíveis, sónica e musicalmente. A atmosfera de guitarras e baixo remete de alguma forma para The Cure, aliás, a banda refere que na sessão de estúdio se referia internamente ao tema como «a malha das guitarras Cure». “A City In The Skies” possui um ritmo irresistível, imediatamente acessível e uma pungente mensagem sobre a actualidade geopolítica.
“Liminal Animals” é como um puzzle da própria discografia da banda. Disruptivo nas primeiras escutas, especialmente numa malha como “Hollywood Babylon”, depois entranha-se ao ponto das passagens mais estranhas serem as que se entranham na memória durante dias. Neste álbum, os Ulver provam uma vez mais serem capazes de uma elasticidade estética com que, os Anathema, por exemplo, apenas sonharam possuir…
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Depois de “Across the Universe”, de 2020, “Tweentyfour” teve edição no dia 19 de Julho de 2024. O mais recente LP de estúdio de Di Meola foi trabalhado nos últimos quatro anos, tendo as suas origens nos tempos tumultuosos da pandemia. Devido ao seu longo período de desenvolvimento, “Twentyfour” começou por ser um humilde álbum acústico e introspectivo, mas transformou-se paulatinamente em algo completamente diferente, uma vez que Di Meola se esforçou por «resistir ao fascínio da exploração musical sem limites».
Dessa forma, o disco acabou por se tornar «uma obra-prima», de acordo com o press release sem medo de palavras, um trabalho que serve como «uma viagem através da evolução musical de Al, mostrando o seu virtuosismo e visão». Dito isto, “Twentyfour” foi um lançamento considerável tanto para Al Di Meola como para o mundo da guitarra em geral, um deslumbrante passeio pelas proezas técnicas do virtuoso músico, bem como uma exibição do seu notável sentido melódico e sensibilidade composicional.
“Twentyfour” está carregado de uma urgência optimista, por assim dizer, com uma pujante camada de guitarras galopantes de onde emergem reflexões de cordas de nylon. Sensações bem impressas num tema como “Fandango”, onde linhas alternadas de flamenco e progressões dedilhadas misturam-se com algumas das linhas de fusão mais tradicionais na linguagem de Al Di Meola. Aliás, aquando do lançamento do single, em Março passado, escreveu Al Di Meola nas redes sociais: «Esta fusão de flamenco e jazz é apenas o início do belo prado selvagem que cultivei nos últimos quatro anos».
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Beth Gibbons editou o álbum “Lives Outgrown” em Maio de 2024. Um disco composto por 10 belíssimas canções gravadas ao longo de 10 anos, com produção de James Ford (Arctic Monkeys, Depeche Mode, The Last Dinner Party) e da própria Beth Gibbons, e ainda de Lee Harris (Talk Talk). Sucessor de “Out Of Season (2002), criado com Rustin Man, é seu o trabalho mais pessoal até hoje, fruto de um período de profunda reflexão e mudança – «muitas despedidas», nas palavras de Beth Gibbons.
Despedidas de familiares, de amigos e, até, de quem ela costumava ser. Estas são canções de um ponto intermédio da vida, quando olhar para o futuro já não traz as mesmas promessas e olhar para trás ganha um foco mais nítido e melancólico.
«Percebi como é a vida sem esperança. E essa foi uma tristeza que nunca tinha sentido. Antes, tinha a capacidade de mudar o meu futuro, mas, quando estás contra o teu corpo, não o consegues forçar a fazer algo que ele não quer», diz Beth Gibbons sobre as canções que abordam temas como a maternidade, a ansiedade e a menopausa (que artista descreve como «uma auditoria massiva» e «uma enorme ressaca» que «te corta as pernas»), assim como, inevitavelmente, a mortalidade. «As pessoas começaram a morrer. Quando és jovem, nunca sabes os finais, não sabes como vai correr. Pensas: vamos superar isto. Vai melhorar. Alguns finais são difíceis de digerir».
“Lives Outgrown” é um álbum muito bonito, triste e muito minimalista. Poderoso e emocionalmente envolvente, com algo de etéreo e uma instrumentação, apesar do referido minimalismo, dinâmica, diversa e sempre elegante. Uma artista que não desperdiça oportunidades e que revela um profundo respeito pelo seu percurso editorial, oferece-nos um disco perfeito do início ao fim.
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