A enigmática cantora, compositora, multi-instrumentista e produtora Marika Hackman estreou o seu quarto álbum de estúdio “Big Sigh” a 12 de Janeiro de 2024 pela Chrysalis Records (no nosso país via Popstock! Portugal). Na sua busca incessante para desvendar o seu universo interno e explorar melodias complexas, fez o seu álbum mais honesto e corajoso até à data.
“Big Sigh” (que pode ser traduzido por enorme suspiro) – o «disco mais difícil» que Marika Hackman já fez – é, como o título sugere, uma espécie de libertação. É uma mistura edificante de tristeza, stress e luxúria, mas principalmente – e crucialmente – de alívio. Algo que se tornou mais óbvio quando Marika Hackman partilhou o poderoso single “Hanging”, uma faixa que processa o fim de uma relação num delicado e dissociativo torpor, até ao seu final envolvente num estrondo de lamentos que parecem extraídos de uma banshee e guitarras grunge.
“Hanging” simboliza os temas opostos do álbum: o contraste entre o barulho e o silêncio, o industrial e o pastoral, e a inocência da infância contra as realidades da idade adulta. Marika Hackman refere, sobre o single: «’Hanging’ reflecte sobre uma relação difícil do passado e como nos podemos prender numa situação em que não conseguimos crescer para a fase seguinte da nossa vida. A linha ‘yeah you were a part of me, i’m so relieved it hurts’ descreve como ainda é doloroso terminar uma relação, mesmo que não seja a melhor».
Depois, em Novembro de 2023, deu-se o lançamento do single “No Caffeine” através de um espetáculo único e intimista no ICA, que esgotou em minutos. “No Caffeine” deu início à nova era de Marika Hackman, atirando o ouvinte diretamente para o olho da tempestade, enumerando o que fazer para evitar um ataque de pânico e analisando a sua própria ansiedade como um parceiro abusivo.
Resumindo, “Big Sigh” é o mais recente disco de uma música que se tem mantido inventiva a cada lançamento. Ao longo dos anos, o seu som que se transforma em géneros tem sido comparado a «o filho de Nico e Joanna Newsom», Blur e PJ Harvey da era “Rid of Me”, enquanto a crítica de cinco estrelas do The Guardian a “Any Human Friend”, de 2019, elogiou os seus «ganchos pop letalmente afiados». Em “Big Sigh”, no entanto, Marika Hackman aventura-se em terreno novo.
Há um jogo constante entre a instrumentação orgânica e a dinâmica mais áspera da distorção sintética – como entrar num terreno baldio industrial abandonado coberto de hera venenosa. Para conseguir estas dualidades, Marika Hackman teve de criar uma paisagem sonora muito específica para cada canção: não só tocou todos os instrumentos, excepto os metais e as cordas, como também os produziu, juntamente com Sam Petts-Davies [Thom Yorke, Warpaint] e o colaborador de longa data Charlie Andrew.
Marika Hackman compara o seu processo criativo a desbastar um bloco de gelo: «Trata-se de ir lascando o que quer que seja aquela coisa dourada no centro. Quanto mais o fazes, mais visível e fácil de lhe aceder se torna». O problema, diz Marika, é se deixares o bloco por muito tempo, ele torna a congelar. O brilho torna-se mais opaco, o medo de encontrá-lo intensifica: «Não é a metáfora mais relaxada para um músico que está tentando reduzir os níveis de stress, admito». Este foi o caso de “Big Sigh”, como referido atrás, o «álbum mais difícil» que Marika já fez. Mas porque usa a artista estas palavras?
A Maldição COVID-19
No início de 2020, Marika mergulhou no confinamento; sufocada e isolada, com o seu cérebro musical anulado. Até aí, ao longo de mais de uma década, passara por um ciclo constante de escrever/gravar/divulgar/digressão e o silêncio fantasmagórico de parar era agonizante. «Tenho ansiedade bastante forte. Normalmente, é controlável, mas nos dois anos durante a pandemia foi impossível». Tudo o que Marika Hackman normalmente usava para distrair a mente de pensamentos e sentimentos que espiralavam, tinha desaparecido. Ela parou de escrever música. O gelo ficou mais grosso.
À medida que os meses avançavam, acumulava fragmentos de melodias, mas nunca sentia aquele golpe espectral de uma música totalmente formada a aproximar-se da sua mente. Em vez disso, gravou e produziu interpretações de algumas das suas músicas favoritas. Lá no fundo, no entanto, Marika perguntava-se se escreveria novamente.
Até que, numa noite de 2021, encontrou ouro no lugar mais improvável: uma casa de banho. As restrições sociais haviam sido suspensas e Marika foi ao pub. «Havia escrito uma música em casa naquele dia e gravei-a rapidamente no meu telefone, pois precisava sair para me encontrar com amigos. Quando estava no pub, entrei nos lavabos para ouvir o que gravara e percebi que era incrível. Fiquei emocionada e enormemente aliviada. Percebi o que tinha feito – tinha conseguido a primeira fissura no gelo», confessa sobre esse esboço que tornou-se “Hanging”, um dos temas centrais do disco, como referido nos primeiros parágrafos.
Foi nesse momento que decidiu avançar com o álbum e com esse jogo de contrastes. Marika Hackman teve que convocar uma paisagem sonora muito específica para cada uma das canções e, tendo decidido assumir toda a instrumentação, excepto os metais e cordas, chamou para a co-produção os já referidos Sam Petts-Davies e Charlie Andrew, mas com as suas ideias bastante claras.
«Sempre produzi os meus discos, mas nunca tive confiança suficiente para realmente dizer que o fazia. Sempre me senti como uma esponja e olhava para os dois terços iniciais da minha carreira como uma experiência de aprendizagem – em que me recostava numa posição ligeiramente deferente, para permitir que a dinâmica funcionasse. Com este álbum, cheguei a um ponto em que percebi que tinha aprendido o suficiente, sabia o que fazer», admite Marika Hackman.
“Big Sigh” é a declaração de uma música que permaneceu inventiva a cada lançamento e torna a pisar território por exeplorar. Começa com “The Ground”, uma malha cinematográfica com o seu quê de “Daydreaming”, dos Radiohead. Inquietantemente inocente, dá ao ouvinte a sensação de uma porta a abrir para o mundo e é uma de muitas músicas centradas no piano. “No Caffeine” usa esse mesmo instrumento como um dispositivo de horror para acelerar a sensação de pânico lancinante, enquanto os pianos em “The Lonely House” moldam um instrumental austero. A música é desprovida das vozes distintivas de Marika Hackman, sintetizador ou afectações grunge, revelando a habilidade subtil da artista para desenvolver uma melodia comovente.
“Blood” e “The Yellow Mile” apresentam guitarras acústicas cruas, enquanto “Vitamins” segue a árvore genealógica de “The Rip”, dos Portishead – uma profunda e alucinogénea descida em sintetizadores misteriosos, tilintar metalúrgico e um grandioso clímax apocalíptico. Se são as suas paisagens sonoras assombrosas que primeiro atraem, são as suas acrobacias líricas que se grudam ao cérebro – imagens de sanguinolência, anseio e romance descompassado. Diz a compositora: «A maneira como escrevi sobre amor e sexo neste disco é muito diferente de ‘Any Human Friend’, que foi uma celebração de diversão sexy e calor visceral e rançoso. Enquanto isto é sensível – uma reflexão mais ponderada».
Durante um tempo, ponderou usar um pouco menos de obscenidade, «mas havia uma música que não podia deixar de fora». “Slime” é essa música. A canção lembra o caos de um novo relacionamento, aqueles primeiros arroubos de paixão e intimidade. «É uma reflexão da destruição que pode ser causada quando nos envolvemos com alguém e há outros factores em jogo. Por um lado, há algo novo que é realmente emocionante, quente e luxuriante, mas também podem haver muitas nuvens de tempestade flutuando ao redor, muitos resíduos sociais», refere Marika Hackman.
Memento Mori
Deixando para trás os dias carnais dos seus 20 anos, este álbum é menos uma documentação fotorrealista do momento, mas mais como um artista a olhar através da fresta de uma porta para reavaliar a sua vida passada. Excepto “No Caffeine”, que arremessa o ouvinte para o olho do furacão. Uma lista de afazeres cantada como se estivesse encolhida, enumera as ferramentas preventivas que Marika Hackman aprendeu para tentar evitar um ataque de pânico: «Occupy your mind / Don’t stay home / Talk to all your friends, but don’t look at your phone / Scream into a bag / Try to turn your brain off».
Em “Big Sigh”, Marika Hackman não relata apenas a sua experiência de ansiedade, mas enfrenta-a determinada. Foi de algo aparentemente controlado que surgiu o caos e encontrou pela primeira vez um nível agudo de medo. Aos 17 anos, uma apendicite tornou-se um incidente quase fatal, piorado ao contrair sepse no hospital. «Foi um grande choque para o corpo. Eu era apenas uma criança e depois disso tive traumas rápidos subsequentes, com os quais não lidei. Foi então que tive meu primeiro ataque de pânico e tenho ansiedade desde então». Esse confronto com a morte alterou Marika profundamente – tornou-se a génese da sua carreira musical.
Marika Hackman começou a fazer música logo após o incidente, o qual lhe deu uma das suas maiores características temáticas: uma preocupação irónica e perturbadora com e expulsões corporais – sangue, vómito, fezes, sémen e além. Todos os elementos físicos de estar vivo que a fazem sentir fora de controlo, aqueles que evita desesperadamente na vida real, mas na sua música confronta a corporeidade com humor brutal e impassível, como em “Vitamins”: «Mum says I’m a waste of skin / A sack of shit, and oxygen».
Talvez no núcleo desse bloco de gelo haja menos um orbe dourado místico e mais uma massa humana, um coração pulsante, um cérebro cansado. Na sua busca interminável por desemaranhar o seu universo interno e explorar melodias complexas, Marika Hackman fez seu álbum mais honesto e corajoso até agora. O que é impressionante considerando que o último tinha uma música sobre masturbação. «Este álbum demorou muito a ser feito. Não foi fácil e quando cheguei ao final mantive-me sossegada. Queria estar longe dele e deixá-lo repousar no seu próprio espaço. Agora que a poeira assentou e tenho que reentrar no mundo de “Big Sigh”, estou animada».

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