No dia 21 de Junho de 2025, o guitarrista Al Di Meola apresentou TWENTYFOUR no Auditório de Espinho, no âmbito do Festival Internacional de Música de Espinho. A natureza acústica do álbum alastrou aos temas de retrospectiva de carreira num concerto sumptuoso.
No dia mais longo do ano, com a luz ainda suspensa sobre Espinho mesmo depois das nove da noite, Al Di Meola subiu ao palco do auditório local como quem chega com um segredo por contar. Nada de luzes dramáticas, e muito menos do virtuosismo exibicionista com que por vezes o catalogaram nos anos 70. O que ali se viu — e sobretudo se ouviu — foi o som de alguém que há muito não precisa de, nem se preocupa em, provar nada a ninguém. E por isso mesmo, comunica com uma nitidez e um magnetismo que poucos conseguem manter durante uma hora e meia de música acústica instrumental.
Acompanhado pelo guitarrista italiano Peo Alfonsi, seu cúmplice de longa data, e pelo percussionista castelhano Sergio Martinez, o lendário músico norte-americano desfiou um repertório que respira as geografias do mundo e a pulsação do tempo — com a precisão de um relógio suíço e a alma de um contador de histórias. Acima de tudo, Al Di Meola apresentou a versão de palco de TWENTYFOUR, o álbum gestado em isolamento pandémico e lançado em 2023, que apresentámos em detalhe aqui aquando do seu lançamento.
Conhecido desde os anos 70 pela sua impressionante técnica e fusão de linguagens — do jazz-rock à música latina, passando pela música clássica —, Al Di Meola tem vindo a explorar nos últimos anos uma abordagem mais introspectiva, quase cinematográfica. TWENTYFOUR é disso exemplo: gravado durante o confinamento pandémico, é um disco que resulta de horas solitárias no estúdio, mas que em palco ganha uma dimensão calorosa e partilhada. Não por acaso, o disco viria a figurar na nossa lista dos melhores álbuns internacionais de 2024, onde se destacou como obra madura, emocionalmente ressonante, de um músico que continua a reinventar-se em silêncio.
Se em estúdio o disco traduzia uma solidão meticulosa, feita de overdubs e camadas cuidadosamente esculpidas, em palco transforma-se noutra coisa: uma conversa em tempo real entre três músicos com escuta afiada, capazes de entrelaçar melodias como quem borda à mão — com risco, com espaço para o erro, com humanidade. Comandado por Al Di Meola, o trio constrói uma teia delicada de sons e silêncios, em que cada dedilhado se insinua como um sussurro cúmplice, e cada compasso ecoa a escuta mútua entre músicos que falam a mesma língua sem precisar de tradução. A música desenha paisagens sem palavras, fundindo o requinte técnico com uma delicadeza quase meditativa — um tipo de beleza que exige atenção demorada e sensibilidade afinada.
Ao vivo, TWENTYFOUR respira de outro modo. Há temas que se expandem como se estivessem a descobrir-se no momento, e outros que se encerram com a precisão milimétrica que ainda persiste no ADN do guitarrista de Elegant Gypsy e Casino. Mas o que mais sobressai é a liberdade: a maneira como Peo Alfonsi se movimenta dentro dos temas, sem nunca sair do pulso narrativo de Al Di Meola; a forma como Martinez insinua texturas rítmicas com pandeiros, cajón e pequenos acessórios de percussão, sem jamais se sobrepor.
Os temas de TWENTYFOUR — como “Fandango”, onde linhas alternadas de flamenco e progressões dedilhadas misturam-se com algumas das linhas de fusão mais tradicionais na linguagem de Al Di Meola — ouviram-se entrelaçados com clássicos como “Casino”, “One Night Last June” ou “Egyptian Danza”, que trouxeram ao palco ecos das várias fases da carreira do guitarrista. Não há necessidade de grandes discursos — a música, por si só, basta. Cada tema parece carregar consigo não apenas o rigor técnico de décadas de carreira, mas também uma sensibilidade amadurecida, como se Al Di Meola e os seus companheiros tocassem menos para deslumbrar e mais para escutar o que a própria música tem para dizer.
Al Di Meola sofreu um ataque cardíaco em palco durante uma actuação em Bucareste, na Roménia, a 27 de Setembro de 2023. Foi imediatamente hospitalizado e tratado por um STEMI (enfarte do miocárdio com elevação do segmento ST), um tipo grave de ataque cardíaco que afecta as câmaras inferiores do coração. Ter o privilégio de ouvir novo música sua e vê-lo ao vivo foi emocionante.
Não se tratou de um concerto para nos arrancar do mundo — mas para nos devolver a ele com outro ritmo, outra escuta, outra intimidade. Um concerto de solstício, com tudo o que isso implica: passagem, luz oblíqua, promessas de renovação.
