Chelsea Wolfe

Chelsea Wolfe: Bruxaria, Horror, Sexo & Sobriedade

“She Reaches Out To She Reaches Out To She”, é um processo de renascimento. É uma declaração poderosamente catártica sobre o corte de amarras e uma reflexão de que a cura é cíclica e circular, e não um simples processo linear. Chelsea Wolfe remete a criação do disco para o desafio da sobriedade e para a crescente relação com a bruxaria.

“She Reaches Out To She Reaches Out To She” é o primeiro álbum a solo de Chelsea Wolfe em quatro anos. Em 2022, a ‘cantautora’ trabalhou extensivamente com Tyler Bates na banda-sonora para o sangrento filme “X” da A24 e juntou-se aos CONVERGE na colaboração “Bloodmoon: I”, mas desde o lançamento de “Birth Of Violence”, em 2019, que não lançava um álbum em nome próprio. Na Europa, os formatos físicos do disco lançado no dia 9 de Fevereiro de 2024 estão disponíveis através da Evil Greed.

Muitas vezes, na cultura popular, a bruxaria é associada a uma espécie de recuperação feminista do poder e a um sentido de vingança ou restituição alimentado pelo rancor. E embora “She Reaches Out To She Reaches Out To She” seja, sem grandes dúvidas, o seu trabalho mais espiritual de sempre, repleto de lirismo poético sobre tarot, mundos subterrâneos e banhos de sangue, o processo de produção foi marcado por um período de cura, alegria e renúncia ao controlo.

«Ao longo dos anos, à medida que vim a abraçar um percurso na bruxaria e seguindo os ciclos das estações e os ciclos da lua, coloquei muito isso no meu processo de escrita e comecei a partilhá-lo mais, porque tem sido uma coisa muito positiva e maravilhosa na minha vida», explica Chelsea Wolfe. A influência da bruxaria significou uma maior atenção em deixar cada disco «ser o que quer ser», diz a cantora, compositora e multi-instrumentista – o que por vezes pode ser abertamente místico, como tirar uma carta de tarot para “clareza e orientação” sobre o que está prestes a escrever, ou mais ostensivamente mundano.

Olhemos, como exemplo, ao seu processo de composição para “She Reaches Out To She Reaches Out To She”. Embora Chelsea Wolfe carregue consigo, frequentemente, demos quase acabadas para o estúdio, para serem afinadas e gravadas para a versão final do álbum, desta vez decidiu trabalhar com o produtor Dave Sitek, que transformou significativamente o som das suas canções. «Este [álbum] parecia querer ser mais electrónico, um pouco mais da influência do trip-hop com que me tenho envolvido ao longo dos anos», diz ela sobre a sua adopção do género de Bristol, que mistura hip-hop e electrónica.

E ainda que Chelsea Wolfe esteja satisfeita com o rumo que permitiu que essas canções tomassem, foi difícil deixá-lo acontecer, depois de anos a guardá-las durante a pandemia. «Quando temos muito tempo para nos sentarmos com as demos, às vezes pode ser difícil entregá-las a alguém e ouvir todas as mudanças. Mas algo sobre este lugar na minha vida e sobre o que é este disco, tematicamente, pareceu-me certo», diz.

Parte do que informou esta ideia de deixar-se ir e de largar os seus exoesqueletos estéticos – «uma lembrança espetral de tudo aquilo em que nos tornámos», como canta numa canção – foi o início de uma viagem de sobriedade. «Fiquei sóbria de álcool no início de 2021 e já tinha começado este disco. É interessante ouvir as músicas que comecei antes disso e a maneira como elas mudaram. Isso criou muita abertura e clareza na minha vida e na minha criatividade, que canalizava naturalmente para estas músicas. Tornou-se uma questão de renascimento», recorda.

A música de Chelsea Wolfe é difícil de categorizar, mas é conhecida pela sua tendência para misturar música folk com subgéneros mais pesados como o rock gótico e o doom metal. Ela está ciente do gosto específico necessário para que as pessoas a apreciem – «Não é música para festas», ri-se – mas nunca teve medo de manter a sua posição criativa.

«Houve colaborações que me pediram para fazer e que senti que não eram adequadas para mim. E talvez isso me tivesse dado muita exposição ou mais gratioficação financeira no futuro. Tento viver de forma simples e não ter de fazer coisas com as quais não me sinto alinhada só por dinheiro. Sei que isso é um privilégio», refere. Ainda assim, Chelsea Wolfe encontrou formas engenhosas, para além das digressões, de ganhar a vida com as quais se sente artisticamente confortável, como a colaboração com o compositor Tyler Bates, na banda-sonora do filme de horror de 2022, “X”, que tem como protagonista Mia Goth.

O realizador Ti West lembra-se de querer experimentar um som mais vanguardista e de ter falado com Bates sobre a melhor forma de o conseguir. «Dei a ideia ao Tyler de que seria óptimo ter uma partitura vocal. Pareceu-me uma ideia muito estranha e interessante conceptualmente, para não ter apenas a mesma banda-sonora de terror que se ouve vezes sem conta», afirmou West.

Bates, que admira a música de Chelsea Wolfe há anos e já tinha trabalhado com ela anteriormente, sabia que a artista seria uma escolha perfeita. Ele teve a ideia de usar a voz dela para fazer sons percussivos durante todo o filme, incluindo risos, rosnados e até ruídos sexuais – particularmente adequados, dado que o filme segue uma equipa de filmagem pornográfica nos anos 70. «Ela olhou para mim e disse: “O que é que queres que eu faça!?”». Bates ri-se quando se lembra de explicar a sua proposta.

Por seu lado, West, ciente do seu pedido pouco convencional, diz que Chelsea Wolfe rapidamente se mostrou à altura da ocasião, fazendo uma grande diferença na versão final do filme. «É extremamente importante. A música, principalmente num filme de terror, é algo que vai estabelecer o tom. Pelo menos para mim, é algo em que estou a pensar antes mesmo de fazer o filme», confessa West. Bates diz que ele e Chelsea Wolfe repetiram este método na banda-sonora de “MaXXXine”, o aguardado último filme da trilogia, que conta com Elizabeth Debicki e a cantora Halsey ao lado de Goth.

Entre o trabalho na partitura de “MaXXXine”, o lançamento do recente álbum e a preparação para a digressão que se avizinha, Chelsea Wolfe tem sido particularmente irredutível no que diz respeito a reservar tempo para a autorreflexão e para estar comprometida com uma agenda preenchida.

É claro que isso envolveu bruxaria, embora, tal como a sua música, ela resista às tentativas de colocar barreiras à volta do que isso significa. «A bruxaria em si não é uma religião. Não é como se nos reuníssemos todos num sítio qualquer. Só porque alguém pratica bruxaria, não significa que vá ter ressonância com toda a gente que o faz», explica Chelsea Wolfe, neste artigo original da Associated Press, cujo vídeo podem disparar no player seguinte.

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