“This Is Not America”, o clássico colaborativo de David Bowie e Pat Metheny, lado a lado com a obra magna do nosso romancista e ensaísta Vergílio Ferreira, a “Aparição”.
“This Is Not America” é uma fusão cativante de rock, jazz e pop, trazida à vida através da colaboração de dois gigantes da música: David Bowie e Pat Metheny. Lançada em Fevereiro de 1985, a canção foi incluída na banda sonora do filme “The Falcon and the Snowman”, realizado por John Schlesinger. A sua letra pungente e a melodia espectralmente exótica ressoam ainda hoje, numa reflexão sobre temas de desilusão, identidade e a luta pela autenticidade num mundo de valores e percepções em mudança.
Os antecedentes de “This Is Not America” são tão intrigantes como o seu som. David Bowie, desde sempre reconhecido como uma figura visionária e pioneira na indústria musical, acolheu sempre os maiores louvores pela sua capacidade de se reinventar constantemente e de ultrapassar os limites da expressão artística. A sua colaboração com o Pat Metheny Group, liderado pelo prodigioso guitarrista de jazz, foi inesperada, mas frutuosa. A fusão das sensibilidades avant-garde de Bowie com as paisagens sonoras de jazz do Pat Metheny Group resultou numa experiência musical verdadeiramente única e memorável.
“This Is Not America” revela atenção meticulosa aos detalhes e compromisso com a excelência. Produzida por David Bowie e Pat Metheny, a canção apresenta uma rica tapeçaria de instrumentos, incluindo o trabalho de guitarra caraterístico de Metheny, as vozes distintas de Bowie e uma orquestração exuberante, concebida através de vários takes e experimentações. Aquando do seu lançamento, o single foi amplamente aclamado pela crítica e pelo público. A inclusão da canção no provocante filme de Schlesinger elevou ainda mais o seu perfil, expondo-a a um público mais vasto e cimentando o seu lugar na cultura popular.
Aparição
A letra de “This Is Not America” está aberta à interpretação, convidando a reflectir introspectivamente. O refrão repetido «This is not America / Sha la la la la» (por vezes, foneticamente próximo de «this is not a miracle») serve como um comentário pungente sobre o fosso entre a perceção e a realidade, desafiando as noções convencionais de identidade e pertença. A voz apaixonada de Bowie acrescenta profundidade e emoção à letra, captando a incerteza e a desilusão da época.
O romance “Aparição” de Vergílio Ferreira, publicado em 1959, destaca-se pela presença de um narrador autodiegético, que se revela gradualmente ao longo da história. O narrador enuncia a sua própria verdade à medida que se apropria linguisticamente das experiências que ocorrem no mundo ao seu redor, como evidenciado nos trechos iniciais e finais do romance. Esses trechos, situados num tempo de reflexão pós-trágica, funcionam como parênteses que sugerem uma libertação da visão do narrador relativamente à acção contida entre eles.
A narrativa começa com a chegada de Alberto Soares, um novo professor, a Évora, no início de mais um ano lectivo. Alberto, que também é o narrador, rapidamente estabelece relações com o Doutor Moura, antigo colega do seu pai, e sua família, incluindo Ana, esposa de Alfredo Cerqueira, Sofia, a quem ele dará aulas de Latim, e Cristina, a filha mais nova da família. Além disso, circulam no ambiente familiar figuras como Carolino, um dos alunos do Liceu, e o engenheiro Chico, amigo da família e militante neorrealista.
O ambiente urbano de Évora contrasta com o espaço rural da montanha onde Alberto passou a sua infância, revelado através de analepses ou flashbacks (para soar mais 80s) que mostram o seu crescimento e descobertas, como o confronto com a mortalidade e a percepção da ausência de sentido da morte – a niilista morte de Deus. O seu passado influencia o seu desenvolvimento no presente narrativo, especialmente na interacção com outras personagens, oscilando entre revelação e dissimulação, integração e desintegração.
A trama desenvolve-se em dicotomias, combinadas em triângulos trágicos: Alberto, Sofia e Carolino; Alberto, Sofia e Ana; Ana, Sofia e Cristina, entre outros. Alberto é aquele que introduz o questionamento no seio da comunidade de Évora, expressando a necessidade urgente de revolucionar o mundo e libertar os homens para viverem com lucidez e enxergarem além das aparências – uma nova alegoria da caverna platónica. Como professor, ele deve também fornecer respostas, mas apenas cumpre esse papel de modo ambíguo e incompleto. As suas perguntas desintegram Sofia (de quem se torna amante), que personifica toda a negatividade potencial dos questionamentos, e Carolino, que, corroído por eles, acaba por assassinar Sofia.
Ana, por sua vez, representa a integração e a dissimulação. Após ser abalada pelas incertezas trazidas por Alberto e, posteriormente, pela morte da sua irmã Cristina, parece quase atingir uma revelação fulgurante. No entanto, a adopção de duas crianças fá-la retornar a um estado conformado. Estes problemas estão observados, naturalmente de modo mais ligeiro, na canção de Bowie e no próprio filme de “The Falcon and the Snowman”, que demonstra a fragilidade do idealismo e como a ingenuidade e fraqueza do espírito humano pode falir rapidamente até à traição a si mesmo e aos que o rodeiam.
Milagre
Acima de tudo, Vergílio Ferreira reflecte sobre a falência do espírito humano e faz a problematização da vida diante da morte. Alberto expressa incessantemente o absurdo da mortalidade, especialmente após o “sacrifício” de Cristina, que tocava Chopin divinamente, sugerindo uma autonomia da realidade humana através da música.
No entanto, é justamente com a morte de Cristina que se torna possível exaltar plenamente a condição humana desde as suas raízes mortais – a sua aparição: «só há um problema para a vida, que é o de saber a minha condição e de restaurar a partir daí a plenitude de tudo (…). Ah, ter a evidência ácida do milagre do que sou, de como infinitamente é necessário que eu esteja vivo, e ver depois, em fulgor, que tenho de morrer».
Musicalmente, “This Is Not America” mostra os pontos fortes de David Bowie e de Pat Metheny, as possibilidades da autonomia da realidade humana “vergiliana”. O intrincado trabalho de guitarra de Metheny entrelaça-se perfeitamente com as vozes de Bowie, criando uma paisagem sonora hipnotizante que é simultaneamente atmosférica e envolvente. O arranjo da canção, com as suas mudanças dinâmicas e nuances subtis, resulta numa experiência auditiva verdadeiramente cativante.
Em suma, “This Is Not America” é um testemunho do poder da colaboração e da expressão criativa. A sua popularidade duradoura e ressonância contínua dão-lhe o seu estatuto de um clássico intemporal que, num universo paralelo, pode ser colocado lado a lado com a “Aparição”.
