Em “Absolute Elsewhere”, os Blood Incantation estão a deixar a noção de género para trás e a escrever uma nova linguagem para a própria música extrema.
“Absolute Elsewhere”, o 4.º álbum dos Blood Incantation, é diferente de tudo o que já se ouviu antes. O disco pede emprestado o seu título ao projecto prog de meados dos anos 70 (mais conhecido como uma das fantasias do baterista dos King Crimson, Bill Bruford).
Com cerca de 45 minutos, as duas composições que compõem este álbum induzem tanta confusão e desorientação como envolvência, fundindo as tendências prog dos anos 70 dos Tangerine Dream (cujo Thorsten Quaesching aparece em “The Stargate [Tablet II]”) com a raiva mortífera dos Morbid Angel.
Significa isto que “Absolute Elsewhere” é um divisor de águas e, mais que consensos, irá semear discórdia. É um daqueles discos que se ama ou se odeia. A ROMA INVERSA está entre os que adoram o disco. Principalmente porque, para lá das fusões e do hype gerado no mainstream, há aqui muitas coisas para um devoto do old school death metal que não são assim tão inovadoras.
Começando pelo final de “Stargate” (a terceira parte), este progressismo todo continua a ter que pedir meças ao que Chuck Schuldiner, Paul Masvidal, Steve Di Giorgio e Sean Reinert fizeram em “Human”.
Claro que é impossível negar o apelo das amplas passagens extraídas ao kraut rock, em que os Blood Incantation deixam de estar ao lado dos titãs do passado do death metal e dão as mãos My Morning Jacket e assumem-se como Deadheads.
Os contrastes entre essa leveza sónica e os arrastões de riffs de progressão descendente à Trey Azagthoth (ouça-se o primeiro movimento de “The Message”) raiam o fascinante e percebe-se o impacto do disco junto de pessoal tão ilustre como Mike Portnoy. Da mesma forma, percebe-se que para muito boa gente, “Abolute Elsewhere” seja demasiado derivativo.
A questão é que muitos dos momentos mais exóticos não parecem essenciais à estrutura das canções – estas existiriam com os gumes igualmente afiados se fossem executados religiosamente dentro do cânone death metal.
Todavia, é gratificante ouvir as transições serem executadas perfeitamente e esperar os momentos em que os Blood Incantation nos vão surpreender como na magistral segunda parte de “The Message” onde a fusão entre Morbid Angel, Death, Gorguts, Immolation, Dream Theater, Yes e Pink Floyd parece existir em perfeição alquímica desde o início dos tempos.
É nesse momento particular, “The Message [Tablet II]”, que reside umas das maiores surpresas dos Blood Incantation: a capacidade do convidado Malte Gericke (ex-Necros Christos, actualmente nos Sijjin) nas vozes limpas, que parecem uma samplagem de David Gilmour em “The Dark Side Of The Moon”.
E quando derem por vós imersos nessa beatitude astronómica, são demolidos por uma rajada de pedal duplo e twin guitars ao melhor jeito do NWOBHM, na terceira parte de “The Message”, que logo nos remete para outros mundos com o seu psicadélico interlúdio acústico, animado pelas flautas transversais e o épico sentido melódico final.
Há muito, muito mesmo para assimilar neste álbum dos Blood Incantation, mas a banda faz parecer tudo fácil, para si própria e para quem a está a ouvir.

Um pensamento sobre “Blood Incantation, Absolute Elsewhere”