Concebido em torno de superstição e do contacto com uma entidade através do uso de um tabuleiro ouija, “The Bedlam In Goliath” é a demente e frenética obra-prima de voodoo jazz-metal dos The Mars Volta.
“The Bedlam in Goliath” é o inovador quarto álbum dos The Mars Volta, verdadeiramente emancipador do estatuto da banda no panteão do rock progressivo contemporâneo, dono de uma vertiginosa abordagem experimental e a musicalidade intrincada. Lançado originalmente no dia 29 de Janeiro de 2008, “The Bedlam In Goliath” é uma viagem sónica que desafia as fronteiras convencionais dos géneros, fundindo elementos de rock, psicadelismo e música latina numa experiência auditiva complexa e envolvente.
Durante a década (mais ou menos) em que estiveram activos (até ao seu regresso em 2022), os Mars Volta compuseram, gravaram e lançaram seis sublimes álbuns de estúdio, trabalhos conceptuais que desconstruíram radicalmente cada regra contra a qual se viram confrontados. Não havia qualquer estagnação neste grupo. O seu álbum de estreia, “Deloused In The Comatorium” (2003), serviu os seus pressupostos iniciais, reimaginando a vida notável do seu falecido amigo, o artista Julio Venegas.
Isso fez-se através da música que se desviou das estruturas pós-hardcore da sua banda anterior, inspirando-se brilhantemente na música latina em que Rodríguez-López tinha sido criado, na música experimental e psicadélica em que ele e Bixler-Zavala estavam mergulhados, na música ambiente e no drum’n’bass que os seduziam na altura. Este álbum radical, complexo e corajoso fê-los perder alguns dos seguidores mais conservadores de At The Drive-In, mas rapidamente lhes conquistou uma nova legião de fãs, cujos apetites e atenções estavam em sintonia com as visões ousadas dos Mars Volta.
E então, o grupo remodelou novamente os seus próprios paradigmas com os sons épicos do seu segundo trabalho conceptual, “Frances The Mute” (2005) – o álbum onde Rodríguez-López conseguiu colaborar com o seu herói, a lenda da salsa Larry Harlow. Foi a confirmação de que a sua música estaria a evoluir constantemente, que as suas ambições seriam sempre grandiosas, que os resultados valeriam sempre os riscos criativos que corriam.
Os Mars Volta transfiguraram-se em cada um dos registos que se seguiram, do insurgente prog tribal de “Amputechture”, para a fantologia voodoo jazz-metal de “The Bedlam In Goliath”, para a melancolia encantadoraa de “Octahedron”, para os movimentos sombrios e imprevisíveis de “Noctourniquet”. E teriam continuado a evoluir e a transmutar-se se, após o lançamento do sexto disco, em 2012, Rodríguez-López e Bixler-Zavala não tivessem tido um percalço na sua amizade.
Shedim & Loucura
Coloquemos então o foco em “The Bedlam in Goliath”, o quarto álbum de estúdio da banda que, para muitos, representa o culminar da sua evolução artística. O título do álbum deriva de um incidente culminado na vida real dos Mars Volta, envolvendo um tabuleiro Ouija vintage que a banda adquiriu em Jerusalém durante a sua digressão de 2006. O tabuleiro, chamado “The Soothsayer”, supostamente trouxe uma série de eventos misteriosos e inexplicáveis, influenciando o conteúdo temático e lírico do álbum. A narrativa gira em torno de uma entidade misteriosa chamada Goliath e o álbum é uma exploração sónica do caos e da loucura que se seguem.
Através do tabuleiro, o ominoso shedim (espírito demoníaco hebraico) – três pessoas diferentes que apareceram sob a forma de uma entidade, que passou a ser referida como “Golias” – revelou histórias, apontou nomes e fez exigências. Quanto mais a banda interagia com “The Soothsayer”, coincidências azarentas começaram a atormentar a experiência da banda ao escrever e gravar “The Bedlam in Goliath”.
Blake Fleming, o baterista da banda na altura, desistiu a meio da digressão e deixou a banda com problemas financeiros; Bixler-Zavala acabou por precisar de ser operado ao pé devido aos sapatos que usava, obrigando-o a reaprender a andar após a cirurgia; as faixas de áudio desapareciam esporadicamente dos discos rígidos do estúdio; o estúdio caseiro de Rodriguez-Lopez inundou-se e foi sujeito a vários cortes de electricidade; e o engenheiro original do álbum teve um esgotamento nervoso, deixando para trás todo o trabalho anterior sem notas sobre onde estava nada.
O engenheiro que se demitiu declarou a Rodriguez-Lopez: «Não te vou ajudar a fazer este disco. Estás a tentar fazer algo muito mau com este disco, estás a tentar deixar-me louco e estás a tentar deixar as pessoas loucas».
O processo de gravação de “The Bedlam in Goliath” foi tão pouco convencional quanto o tema conceptual do próprio álbum. Os Mars Volta acabaram por recrutar como produtor o irmão de Omar Rodríguez-López, Marcel Rodríguez-López, para supervisionar as sessões definitivas. A gravação teve lugar numa alegada casa assombrada em Los Angeles, acrescentando uma camada extra de mística à criação do disco. Liricamente, o álbum mergulha em temas de misticismo, paranoia e a luta pela sanidade.
As letras crípticas e poéticas de Cedric Bixler-Zavala convidam os ouvintes a decifrar a narrativa, acrescentando um elemento de intriga à experiência geral. O conceito do tabuleiro Ouija e a sua suposta influência no processo criativo da banda acrescenta uma camada de misticismo aos elementos temáticos de “The Bedlam in Goliath”.
Voodoo Jazz-Metal
Para lá dos confabulares relatos de superstição em seu redor, musicalmente, “The Bedlam in Goliath” é um tour de force. A mistura caraterística da banda de rock progressivo, punk e influências latinas é proeminente em todo o álbum. Os vocais enigmáticos e dinâmicos de Cedric Bixler-Zavala, juntamente com o intrincado trabalho de guitarra de Omar Rodríguez-López, criam uma rica tapeçaria de som. A secção rítmica, composta pelo baixista Juan Alderete e pelo baterista Thomas Pridgen, acrescenta uma energia frenética que impulsiona o álbum em todos os momentos.
O compromisso dos Mars Volta com a experimentação estendeu-se ao uso de instrumentos vintage e não convencionais, contribuindo ainda mais para o som único do álbum, caso do quinteto de cordas que se destaca em “Soothsayer” (neste caso, gravado em São Francisco, nos Hyde Street Studios). Ao longo de todo o disco também são preponderantes os apontamentos do multi-instrumentista Adrián Terrazas-González, seja na flauta, nos saxofones ou clarinete. “The Bedlam in Goliath” foi o seu último registo de estúdio com a banda e é imensamente vibrante.
A canção “Wax Simulacra” ganhou mesmo o GRAMMY para Melhor Performance de Hard Rock em 2009. A malha mostra a proficiência técnica da banda e a sua capacidade de misturar na perfeição riffs de guitarra agressivos com assinaturas de tempo complexas. Outro destaque é o épico “Goliath”, uma viagem sónica de quase dez minutos que encapsula os temas de caos e transcendência do álbum.
“The Bedlam in Goliath” foi amplamente aclamado pela crítica aquando do seu lançamento, com muitos a elogiarem a sua ousada experimentação e complexidade sónica. O sucesso do álbum também cimentou o estatuto dos The Mars Volta como uma das bandas mais inovadoras e ousadas do género de rock progressivo (seja qual for a era). E, o melhor de tudo, apesar do sucesso comercial, a banda permaneceu comprometida com a sua visão artística, evitando as tendências do mainstream em favor de ultrapassar os limites musicais.
Em jeito de conclusão, “The Bedlam in Goliath” é um testemunho da visão artística e da proeza musical dos The Mars Volta. A apreciação do álbum requer uma mente aberta e uma vontade de explorar as profundezas das suas composições intrincadas e temas enigmáticos. Continua a ser um marco no género do rock progressivo, mostrando a capacidade da banda para transcender as convenções musicais e criar uma experiência de audição envolvente e inesquecível.

Um pensamento sobre “The Mars Volta, The Bedlam In Goliath”