Para todos os efeitos, não é coisa muito comum em Portugal, isto dos “supergrupos”. E daí resultarem bons discos será coisa ainda mais rara. Na sua estreia homónima, os Keep Razors Sharp optaram por unidade em vez de egos.
Em 2014 imperava ainda uma epidemia. Bastava ouvir-se um pedal phaser para fazer subir a febre do psicadelismo. Então, em Outubro desse ano, os Keep Razors Sharp surgiram como um trovão. A associação do grupo que junta Afonso Rodrigues e Luís Raimundo, nas guitarras, Bráulio Alexandre, no baixo, e “BB”, na bateria, com os fumos deste ressurgimento do género é quase imediata, mas para a própria banda essa era uma falsa questão.
«Não há uma aproximação assim tão grande ao que, de facto, está em voga, neste momento, quando as pessoas usam a palavra psicadelismo», afirmava Afonso Rodrigues numa conversa que mantivemos, na altura, para outra publicação.
Admitam ou não, no seu álbum de estreia, os Keep Razors Sharp assumiram algo do psicadelismo texano, mas deram-lhe o músculo tradicional das gravações dos estúdios Black Sheep, de facto. Não vive só do consumo dos fumos de The Black Angels, nota-se a devoção Dylanesca herdada de um projecto como os Slowriders e a comunhão geracional em torno do “Oásis” de Manchester. O frontman, digamos assim, admite laivos genéricos, mas acrescenta que o foco esteve numa abordagem situada no final dos anos 80 e nos anos 90. Longe, portanto, de uma “Renascença Phaser Californiana”.
«Não houve grande preocupação estética para chegar a um determinado sítio», Afonso Rodrigues reforçava a espontaneidade e improviso das sessões de ensaios e composição e admitia que «saiu com uns “toques” psicadélicos, como com alguns de post-rock ou shoegaze, como poderia ter sido outra direcção completamente diferente». Inevitavelmente, as pessoas ouvem música e fazem associações, mas para a banda era claro que o seu álbum de estreia não está particularmente ligado ao suposto género.
Um dos aspectos que mais diferencia o disco (para rematar o assunto) desse ambiente é o seu tamanhão sonoro. A riqueza harmónica deste álbum será o seu maior triunfo. O som cheio e vivo impregna os temas de uma solidez material que tantas vezes está ausente neste revivalismo psicadélico, mesmo nos momentos mais trippy, como “Africa On Ice” e “Scars & Bones”.
Uma sonoridade robusta, grande e com enorme definição, em contraponto com correntes lo-fi. A banda foi peremptória nessa questão. Queria jarda! A alta fidelidade permite ao álbum transcender um certo hermetismo e um “je ne sais quoi” que, tantas vezes, acaba por redundar em vazio musical. Para “BB” o som tinha que «reflectir aquilo que a banda é, tanto nos ensaios como nos concertos. Ensaiamos alto, tocamos alto ao vivo, não fazia sentido nenhum ter um disco que não soasse alto e que não tivesse bom som».
O disco foi composto e gravado em três sessões de estúdio espalhadas no tempo e de espírito tão livre quanto a composição. Após o registo dos singles “I See Your Face” e “9th”, com Nuno Roque, as gravações do restante material prosseguiram de forma tranquila, no Blacksheep Studios, com a colaboração dos produtores Makoto Yagyu (Paus, Riding Pânico, If Lucy Fell) e Guilherme Gonçalves (Coclea, Ex- Gala Drop).

No final, isso resulta num álbum que, acima de discussão de influências, conquistou o enigma da audição ininterrupta. “Keep Razors Sharp” é dotado de outra raridade na indústria musical nacional. Não tem a ver com som, mas tem a ver com o culto pelo álbum. A capa deslumbrante e a componente visual foi desenvolvida pela ilustradora Sara Feio, que criou de raiz uma imagem com enfoque na dicotomia presa/predador, temática amplamente explorada na componente lírica das canções.
A Rastilho colocou cá fora uma edição limitada a 250 exemplares em vinil do álbum de estreia dos Keep Razors Sharp. Exemplares esse que voaram num ápice…
