Após um quarto de século, os Opeth regressam aos álbuns puramente conceptuais. Todavia, em “The Last Will & Testament” a banda liderada por Mikael Åkerfeldt refunda a sua sonoridade e, por mais pesados que sejam uma vez mais, aproximam-se do assombroso sentido teatral do West End londrino.
Há muito antecipado, os Opeth editaram “The Last Will & Testament” no dia 22 de Novembro de 2014, com o selo da Reigning Phoenix Music. No geral, é um trabalho muito mais pesado do que o seu antecessor, “In Cauda Venenum” de 2019, nem que fosse pelo tão badalado regresso dos vocalizos death metal de Mikael Åkerfeldt, um elemento ausente dos discos dos suecos desde “Watershed” (2008). Trata-se também do primeiro disco gravado pelo baterista Waltteri Väyrynen, que ocupou o lugar deixado vago por Martin Axenrot (saiu da banda no período pandémico).
Há outro aspecto bastante significativo. É o primeiro álbum verdadeiramente conceptual dos Opeth desde o magnífico “Still Life” (1999). Depois da trágica história amorosa de Melinda, este novo conto gótico de romances proibidos passa-se imediatamente após o fim da Primeira Guerra Mundial. Em entrevista com a Kerrang, o frontman dos Opeth Mikael Åkerfeldt ofereceu-nos o enredo do álbum “The Last Will & Testament”.
A Story Never Told
Começa com três irmãos a chegar à mansão da família. O pai, um velho nobre severo, conservador, paranóico e malvado, faleceu e eles vão dividir o seu testamento pelos três filhos, certo? Há dois gémeos, um homem e uma mulher na casa dos 20 anos, e uma rapariga que tem poliomielite. As letras são como a leitura do testamento. É por isso que as canções não têm títulos, apenas o parágrafo.
Ao longo da leitura do testamento, estes miúdos descobrem muito sobre eles próprios, muito sobre os segredos do pai e a sua ligação à família. Os irmãos gémeos são o resultado de uma procriação por dador. O patriarca e a sua mulher tentaram ter filhos, não resultou, o patriarca culpou a mulher por ser estéril, mas queriam tanto ter filhos que tentaram com um dador – um homem real que tinha relações sexuais com a mulher. Ela engravidou dos gémeos, todavia, o personagem principal lamentou que a sua mulher tivesse sido possuída por outro homem. Por isso, basicamente, ele lamenta-se pelo nascimento dos dois gémeos, que também não são do seu sangue.
Ao longo da leitura do testamento, os gémeos descobrem que ele não era o seu pai e acabam por ser deixados de fora do testamento. O seu único e verdadeiro filho de sangue é a mulher doente. Ela herda tudo. Mas ela é o resultado de um caso amoroso que ele manteve com a empregada da mansão. Ele mentiu à mulher, dizendo que a empregada tinha um caso e que deviam cuidar da pobre criança como se fosse da sua família.
Agora, a mulher dele também já faleceu. Mas ela sabia que o marido era infiel, e a criança continua a ser criada em casa. Ela é uma herdeira de sangue. Herda tudo. Depois o testamento termina e entra a última canção, “The Story Never Told”. Então, ela agora está a viver na mansão. Ela tem tudo. Mas depois chega uma carta. É da mãe dela, a empregada, a dizer: «Eu menti ao teu pai. Tu és o fruto de outro caso amoroso. Ele nunca foi teu pai». Então é essa a reviravolta da história: o patriarca era estéril.
Artigo §4
O artigo 4 não só surge a meio da narrativa, sendo axiomática na trama, como também na sequência auditiva do álbum e na estética musical dos Opeth, unindo vários pontos instrumentais e motivos melódicos, para servir também a história e a forma como os suecos aqui chegaram, ao fim destes anos. Uma vez mais, é Mikael Åkerfeldt quem explica §4.
«É uma canção um pouco estranha – mais uma vez, escrita por instinto. Não sou um gajo inteligente quando se trata de escrever música. As pessoas chamam-nos ‘metal do homem que pensa’, acho que isso é ridículo. Estou apenas muito interessado em música e ouço música de tantos géneros diferentes que é impossível manter-me num só género. Acho a ideia aborrecida de tentar pertencer a algum lado, estamos um pouco por todo o lado e acho que esta canção mostra a nossa diversidade. Começa quase tradicional…
Na verdade, para o início da canção inspirei-me numa coisa chamada ‘música de doze notas’, que penso ser um termo clássico, em que é suposto tocarmos doze notas e não podemos repetir uma nota duas vezes, temos de fazer uma nota separada. É também uma forma muito artística e pretensiosa de pensar. Ouvi algumas dessas músicas tocadas por pianistas clássicos e soa mal, soa mal, soa muito estranho – e isso inspirou o tema inicial da guitarra.
Há uma coisa de Mellotron no início, soa estranho, como se não se encaixasse, quase como um solo de jazz de forma livre ou algo do género. Mas rapidamente aterra numa coisa quase tradicional de metal com uma resposta comum do tipo death metal vocal, que tem uma resposta vocal normal duplicada em stereo. Bastante eficaz, penso eu! Não me lembro o que aconteceu durante o processo de escrita, mas cheguei a um ponto em que parei e senti: ‘ok, está na altura de fazer algo estranho!’.
Acabámos por ter um solo de flauta do Ian Anderson dos Jethro Tull, o que, de certa forma, foi um acidente, porque lhe pedi para fazer uma narração, não uma flauta. Quando ele fazia as partes faladas, perguntou-me: ‘Precisas de um solo de flauta?’ Eu disse: ‘Sim, por favor!’, embora não tivesse uma parte para um solo de flauta! Tive de baralhar as canções rapidamente na minha cabeça antes que ele mudasse de ideias.
Eu tinha-o fisgado, claro que ia encontrar uma parte! Então, ele tocou quase como um solo de flauta do tipo resposta comum em §4. É uma grande canção, com o final a ser uma das peças musicais mais maléficas que escrevi para os Opeth desde há muito tempo: soa mesmo ameaçadora, quase doentia!»
Mais Uma Obra-Prima
Não somos tendencialmente negativos na nossa forma de olhar a música, portanto procuramos sempre descobrir o ângulo mais favorável de cada trabalho e, no caso dos Opeth, mesmo na fase em que muitos insistem na sua descaracterização sónica, somos imensamente apreciadores de álbuns como “Heritage” ou “Sorceress”. Ainda assim, diante de “The Last Will & Testament” é impossível não emergir imediatamente a sensação que estamos diante de uma obra-prima para colar ao lado do fulgurante período de “Still Life” a “Ghost Reveries”.
Em “The Last Will & Testament”, os Opeth abdicaram de melhorar a há tanto tempo desejada convergência entre o death metal e o mais assumidamente declarado prog rock dos anos 70 e fizeram algo completamente diferente. No §1 isso faz-se com maior subtileza, com contrastes dinâmicos menos abruptos e, acima de tudo, pela harmonização do alargado espectro vocal de Mikael Åkerfeldt.
Apesar do melodicamente deslumbrante final do tema, a tensão narrativa é brilhantemente transposta para a instrumentação e progressões musicais, instalando-se uma sensação enervante, de inesperado desconforto, que não é fácil de sacudir após a finalização do álbum. A entrada dos Opeth no disco foi sublime, mas as coisas vão tornar-se maiores em §2.
Aí somos envolvidos pelas surpreendentes soluções criativas dos Opeth, pelas flautas de Ian Anderson, pelos pianos, Hammonds, Mellotrons, Fender Rhodes e Moogs de Joakim Svalberg, Os coros de Joey Tempest aumentam a palete de cores já alargada por Åkerfeldt. Dessa forma, as estruturas mais contrastantes do tema (que introduzem mais personagens e elementos narrativos) são toleradas com uma inesperada facilidade.
§3 talvez seja o tema mais tradicionalmente Opeth ou aquilo que mais habitualmente se espera dos suecos, mesmo que mantendo os abruptos contrastes narrativos e dando continuidade teatral ao álbum. Quando usamos termos como ‘tradicional’ ou ‘habitual’, queremos apontar os momentos em que os Opeth nos surpreendem menos (aos que os ouvem desde “Orchid”), porque no geral, Mikael Åkerfeldt mandou fora a maioria das coisas padronizadas na sua composição.
Esse salto em diante é progressivamente recompensador. Quando chegamos a §4 e a história já se entranhou, começamos a notar que estas malhas, de forma magistral e mantendo o seu núcleo de banda de rock, aproximam os Opeth dos trabalhos de um compositor como Danny Elfman ou ao majestoso sentido teatral de Andrew Lloyd Webber. “Nightmare Before Christmas”, “Jesus Christ Superstar” ou “Phantom Of The Opera” vs. Heavy Metal? Talvez. Resulta? Magnificamente!
Em §5 os Opeth soam pesados de modo avassalador, até pelos arabescos de cordas que são reais. Nada de samples. Trata-se da The London Session Orchestra, retirada da reforma pelos arranjos de Dave Stewart. É também a malha onde Åkerfeldt e Fredrik Åkesson mais declaradamente conseguem shreddar. É aqui que se dá a apoteótica revelação de que os gémeos são bastardos e a filha doente (assim pensa a vê o testamento) a herdeira legítima.
Então, em §6 e §7 (com maravilhosos momentos evocativos dos Queen), decorrem as lutas de poder entre os três principais herdeiros, ao melhor estilo de “Succession”, da HBO, até ao final já referido de “A Story Never Told”. Um tema lindíssimo e “normal”, por assim dizer, uma balada tremendamente emotiva
Partindo de um romance de cordel, quase, “The Last Will & Testament” é um colosso de álbum, para ouvir uma e outra vez. Um trabalho que vem redefinir os Opeth e figurará certamente em vários listas AOTY em 2024.

Um pensamento sobre “Opeth, The Last Will & Testament”