Shrapnel Records

Shrapnel Records: Ascensão, Glória & Queda

Yngwie. Friedman. Jason Becker. Paul Gilbert. A história da Shrapnel Records e o seu papel axiomático na ascensão dos shredders. Mike Varney, o homem por detrás da mais excitante label independente da década de 80, nunca aceitou a consagração do grunge: «Não sei de muitas coisas em que as pessoas são aclamadas por terem menos habilidade».

O músico e produtor Mike Varney fundou a Shrapnel Records, com o lançamento da compilação U.S. Metal Guitar Heroes, onde uma selecção de músicos norte-americanos desconhecidos despontava, com destaque para bandas como The Rods. A capa, exagerada e quase caricata, retratava soldados guedelhudos em batalha, usando guitarras como armas, e prenunciava o que se tornaria a marca registrada da gravadora: artistas dedicados ao virtuosismo na guitarra, que exploravam os limites da técnica – os shredders.

Mike Varney, que na juventude tocou em bandas punk e rock, tinha uma visão clara: queria elevar ao estrelato guitarristas que personificavam a habilidade técnica extrema. Para isso, recorreu a seu papel como colaborador na revista Guitar Player, onde tinha uma coluna intitulada “Spotlight”, na qual escrevia reviews a músicos desconhecidos. Esse espaço deu-lhe um fluxo de novos talentos para a Shrapnel Records, além de uma ligação com editores de revistas locais, que o ajudavam a divulgar o seu apelo por guitarristas notáveis.

Dessa forma, a Shrapnel Records descobriu alguns dos maiores talentos do “shred” (rasgar, esgalhar), incluindo Marty Friedman, Paul Gilbert e o sueco Yngwie Malmsteen. O estilo de tocar desses músicos, de altíssima velocidade e precisão, redefiniu a sonoridade do rock dos anos 80…

A Filosofia de Varney: Virtuosismo e Velocidade

Numa entrevista conduzida por Jon Widerhorn, na Classic Rock, com Mike Varney (e outros intervenientes destacados na história da label), é-nos oferecida uma valiosa exploração da trajectória da Shrapnel Records e do papel fundamental que desempenhou na popularização do shred nos anos 1980 e revelou inúmeros guitarristas virtuosos.

Fundada por Varney em 1981, a Shrapnel Records tornou-se a casa de músicos obcecados pela técnica e pela velocidade, como os já referidos Yngwie Malmsteen, Paul Gilbert e Marty Friedman, Richie Kotzen, Tony MacAlpine e feroz Nicole Couch. O shred, ao colocar o virtuosismo técnico no centro das atenções, desafiava as tendências musicais da época, focadas na simplicidade e na melodia. O pioneirismo de Varney em promover guitarristas com habilidades excepcionais influenciou o rock e o heavy metal, mudando o cenário da guitarra de maneira significativa.

O interesse de Varney pelo virtuosismo na guitarra começou ainda jovem, inspirado por músicos que exploravam a técnica com profundidade. Varney observava que, enquanto o jazz e a música clássica valorizavam a mestria instrumental, o rock da época raramente reconhecia músicos extremamente técnicos. Por isso, procurou maneiras de divulgar esses talentos no quase anonimato e encontrou uma oportunidade quando começou a escrever para a coluna “Spotlight” da revista Guitar Player. Na sua coluna, Varney convidava guitarristas a enviarem-lhe demos, o que resultou numa avalanche de material para a Shrapnel Records.

Yngwie Malmsteen foi um dos primeiros grandes nomes descobertos por Varney e causou uma verdadeira revolução no rock. Malmsteen, com o seu estilo inspirado na música clássica e técnica impecável, trouxe para a guitarra eléctrica um nível de sofisticação apenas associado ao violino e ao piano até então. Quando Varney ouviu a fita de Malmsteen pela primeira vez, ficou impressionado: «Era como ouvir música clássica, só que na guitarra eléctrica. Ele tocava rápido, mas havia um senso de melodia e controlo».

O sucesso de Malmsteen estabeleceu a Shrapnel Records como uma plataforma única para guitarristas virtuosos e outros músicos com alto nível técnico não tardaram a seguir-lhe os passos. A filosofia da Shrapnel Records era bastante simples: dar total liberdade aos músicos para explorarem o virtuosismo na sua forma mais pura.

Paul Gilbert, um dos guitarristas mais respeitados da sua geração, recorda que Varney incentivava os artistas a tocarem com intensidade e sem restrições: «Ele dizia: ‘Mais guitarra. Enche todos os espaços com solos e fá-lo de modo impactante’». Esse estilo de gravação resultava em músicas densas, onde a guitarra se tornava a protagonista absoluta. Gilbert acrescenta que, para muitos guitarristas da época, trabalhar com a Shrapnel Records era uma oportunidade de levar as suas habilidades ao limite, algo que outros selos discográficos não permitiam.

Marty Friedman, outro ás de reputação imaculada, lembra que o processo de gravação era “espartano” e focado: «Não havia luxo no estúdio, apenas gravação rápida e lançamento». Esse método contrastava com as práticas da indústria musical, onde o foco estava em produzir hits de fácil assimilação.

O estilo shred e a abordagem da Shrapnel Records não era nem nunca foi consensual. A ênfase na técnica e na velocidade gerou críticas de que a música produzida pela Shrapnel carecia de alma e emoção. Varney enfrentava essas críticas com uma perspectiva própria sobre a música: «Muitas pessoas perguntavam onde estava a musicalidade. Mas não era só velocidade aquilo de que se tratava. Era sobre habilidade, controlo e expressão».

Varney sempre argumentou que o virtuosismo não excluía a musicalidade; ao contrário, ele acreditava que o domínio técnico permitia aos músicos explorar novas formas de expressão. Marty Friedman explica que a Shrapnel Records oferecia aos guitarristas a liberdade para «explorar a música ao máximo, sem as limitações impostas pela indústria».

Anti-Estereótipo

De modo diferente do estereótipo de bandas de rock sempre em festas e vícios, muitos dos artistas da Shrapnel mantinham um estilo de vida disciplinado, focado na música e na técnica. Embora houvesse exceções, como Lori Couch, que vivia de maneira mais exuberante, a maioria dos músicos era tão “comportada” quanto o próprio fundador da gravadora, Mike Varney.

Richie Kotzen revela que quase nenhum dos músicos da Shrapnel participava de festas ou bebedeiras. Estavam mais interessados em aprimorar as suas habilidades e, como vinham de cidades diferentes, também não se reuniam com frequência para socializar. Paul Gilbert reforça essa ideia ao compartilhar que as actividades de lazer deles eram bem tranquilas, como jogar bowling e Scrabble. Ele descreve a experiência como “meio nerd”, mas relembra com orgulho que, apesar disso, eles arrasavam em palco com sua música.

Varney acrescenta que, quando conheceu muitos desses músicos, eles ainda estavam nos seus primeiros relacionamentos sérios e, para a maioria deles, o foco nunca foi conquistar mulheres. Marty Friedman, por outro lado, lembra que, embora não usassem drogas, eles tinham uma presença forte com o público feminino, que a plateia era composta, em grande parte, por mulheres, então os músicos adoptavam um visual glam, ao melhor estilo dos Poison. Após os concertos, Friedman recorda que, muitas vezes, os músicos envolviam-se com alguém da plateia e, assim, evitavam gastar dinheiro com hotéis.

Apesar do comportamento mais moderado de alguns músicos, Paul Gilbert revela que gostaria de ter tido uma experiência mais típica do rock’n’roll, mas era demasiado focado no seu instrumento e, após os concertos, preferia praticar guitarra para corrigir possíveis falhas.

O Grunge

A Shrapnel Records teve um impacto significativo na formação de uma nova geração de guitarristas que admiravam a técnica e a velocidade. Nos anos 1980, os músicos assinados pela label tornaram-se verdadeiros ícones entre os jovens guitarristas, inspirando-os a praticar intensamente e a explorar a técnica ao máximo. O fenómeno também fomentou o surgimento de escolas e métodos de guitarra voltados para o shred e a guitarra eléctrica começou a ser vista não apenas como um instrumento de apoio à voz, mas como protagonista na música.

O aproximar dos anos 1990, no entanto, trouxe uma nova realidade para a Shrapnel Records. O grunge, movimento musical que emergiu de Seattle, impôs-se nas rádios e trouxe uma estética completamente oposta ao shred. Bandas como Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam promoviam uma abordagem musical mais crua e emocional, onde a técnica não era o foco. O grunge enfatizava a simplicidade e a autenticidade, colocando o virtuosismo em segundo plano.

Para Varney, que via este novo género como um retrocesso relativamente ao valor que sempre deu ao domínio do instrumento, o impacto do grunge na indústria foi devastador: «O grunge arruinou muitos dos meus artistas porque ninguém queria gajos que soubessem tocar muito bem ou que fossem bonitos com cabelo comprido. Era preciso parecer que se tinha acordado, saído da cama e decidido começar a tocar guitarra, e não que se tinha passado algum tempo em frente a um espelho. Não sei de muitas coisas em que as pessoas são aclamadas por terem menos habilidade».

A queda de popularidade do shred, no final da década de 80, forçou muitos músicos da Shrapnel Records a buscarem novas direcções. Paul Gilbert, por exemplo, juntou-se aos Mr. Big, uma banda de hard rock mais acessível ao grande público. Marty Friedman encontrou sucesso nos Megadeth, onde continuou a explorar asua técnica num contexto de heavy metal mais tradicional. Varney, por outro lado, manteve-se fiel ao seu compromisso com o virtuosismo e continuou a produzir álbuns com novos guitarristas talentosos, mesmo que o mercado já não fosse tão receptivo ao shred como antes.

Legado

Apesar das dificuldades enfrentadas com a mudança dos anos 1990, a Shrapnel Records criou um legado na cena musical. O selo é lembrado como um marco para o virtuosismo e como um verdadeiro laboratório para guitarristas que buscavam desenvolver a sua técnica ao máximo.

Marty Friedman destaca que a contribuição de Varney para a música vai muito além do catálogo de álbuns: «Ele era um obcecado por descobrir talentos. Ligava-me a meio da noite para me mostrar uma nova demo». Paul Gilbert também reconhece a influência de Varney na sua carreira e na de muitos outros músicos: «Sem Varney, eu e muitos outros não teríamos a mesma trajectória».

Além dos músicos que lançaram as suas carreiras com a Shrapnel Records, a influência da label pode ser sentida até hoje em estilos que celebram o virtuosismo e a técnica. A gravadora ajudou a estabelecer o shred como um género venerável dentro do rock e do metal, abrindo portas para músicos que viam a técnica como uma forma legítima de expressão.

Mike Varney, ao longo dos anos, manteve sua visão sobre o que torna um músico excepcional: a habilidade, a dedicação e o compromisso com a excelência. Apesar de mudanças no mercado e da rejeição ao virtuosismo em vários momentos das últimas décadas, ele sempre acreditou que o talento verdadeiro deveria ser celebrado e incentivado. A Shrapnel Records permanece como um exemplo do poder da música como uma forma de arte exigente, complexa e altamente gratificante.

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