Bobbie Brown

Video Vixens: Bobbie Brown

A imagem de Bobbie Brown no vídeo de Cherry Pie, dos Warrant, está tatuada na memória colectiva dos anos 90. Loira, escultural, com um sorriso que parecia desafiar o próprio tempo, ela era mais do que uma musa – era o arquétipo all-American, uma Marilyn Monroe versão MTV. Por trás de tudo isto, havia uma mulher que viveu todos os excessos e contradições do hair metal, testemunhou o auge e a queda do estilo e sobreviveu para contar a história.

A minha história com Bobbie Brown começa como a de qualquer miúda que cresceu entre os ecos de riffs de guitarra e a promessa de um mundo maior do que o quarto onde passava horas a ver a MTV. Bobbie Brown era a face do sonho rock ‘n’ roll, um furacão de beleza e carisma que entrou nos anos 90 com a força de um hino. Mas a sua história não é apenas a de uma Video Vixen que incendiou a tela em “Cherry Pie” dos Warrant.

Apenas por curiosidade, Jani Lane escreveu Cherry Pie praticamente à força para agradar à editora, a Columbia Records, que considerava faltar um banger para as rádios e MTV, e o músico nunca escondeu o desprezo pela canção que ironicamente o imortalizou.

De Miss Louisiana a Ícone do Hard Rock

Bobbie Jean Brown não nasceu para ser apenas musa; nasceu para ser uma tempestade. Cresceu na Louisiana, com ambição suficiente para vencer concursos de beleza – em 1987, foi coroada Miss Louisiana Teen USA e chegou à final do Miss Teen USA – e um magnetismo que a levou a Hollywood.

Bobbie Brown trabalhou como modelo para a Budweiser e outras marcas, em anúncios televisivos. Fez alguns ensaios para a Penthouse (excerto na galeria em baixo). Surgiu em videoclips de malhas como “Once Bitten, Twice Shy” e “House of Broken Love” dos Great White, “I’m On to You” dos Hurricane e “Sittin’ in the Lap of Luxury” dos Louie Louie.

Quando pisou o set de “Cherry Pie”, não era apenas mais uma loira a desfilar para os olhos masculinos. Era uma mulher a comandar a câmara, uma presença que elevava um videoclip a algo icónico, um fenómeno cultural. O vídeo, lançado em 1990, transformou-a instantaneamente numa sensação. A sua performance não se limitou a elevar o sucesso da música, mas também a colocou no radar de uma geração inteira. O impacto foi tão grande que, durante anos, Bobbie Brown era chamada como “a Cherry Pie girl” em vez de pelo próprio nome. E Bobbie tornou-se instantaneamente o rosto e o corpo dessa era decadente, sexy e irremediavelmente exagerada.

O que o vídeo nunca mostrou, e tantos de nós nunca soubemos, foi a espiral de altos e baixos que veio depois. Ser um ícone tem o seu peso. Tornou-se sinónimo de uma era e de uma banda, mas Bobbie Brown tornou-se mais do que a namorada de Jani Lane. Viveu o auge e a queda do hair metal, viu de perto o impacto do grunge, e sentiu na pele como Hollywood pode ser cruel com quem brilha demasiado cedo.

O casamento com Jani Lane, vocalista dos Warrant, em 1991, foi uma montanha-russa de paixão e autodestruição, num cenário onde vícios eram regra e não excepção. Toda essa turbulência, excessos e instabilidade emocional, culminou em divórcio em 1993. Ainda assim, a relação deles terminou, mas a conexão nunca desapareceu — e a morte de Lane, em 2011, marcou Bobbie profundamente.

Mais tarde, os bastidores do mundo do hair metal revelaram-se ainda mais sombrios. Bobbie Brown esteve numa relação com Tommy Lee, ambos terminaram o relacionamento dias antes do baterista casar com Pamela Anderson, e esse triângulo amoroso foi amplamente explorado pelos tablóides. Mas o que poucos falam é sobre os momentos em que ela foi reduzida apenas ao seu corpo, descartada pela indústria que a idolatrava quando a juventude começou a esvair-se.

Dirty Rocker Boys

Ao contrário de muitas “video vixens” que desapareceram quando o grunge derrubou o reinado do glam metal, Bobbie Brown soube reinventar-se. Nos anos seguintes, trabalhou como atriz e apresentadora, aparecendo em programas de TV e até mesmo no reality show “Ex-Wives of Rock”, que acompanhava a vida de mulheres que tiveram relacionamentos com estrelas do rock.

Além disso, escreveu a sua autobiografia, “Dirty Rocker Boys: Love and Lust on the Sunset Strip”, lançada em 2013. O livro não se esconde atrás de eufemismos e oferece um olhar cru e sem filtros sobre a sua vida nos bastidores do rock, sem medo de expor as ilusões e desafios que surgiram com a fama e o glamour. O que significava ser desejada por milhões, mas também descartável aos olhos da indústria. A sua história é sobre os perigos da fama instantânea, sobre a objetificação feminina no rock e sobre a luta de uma mulher para reescrever a própria narrativa.

A sua história tem sombras e cicatrizes. Bobbie não é apenas a miúda do “Cherry Pie”; é a mulher que sobreviveu ao sonho e ousou contá-lo sem filtros. Se hoje a estética dos anos 80 e 90 é celebrada e romantizada, é preciso lembrar que por trás de cada musa havia uma mulher real. Bobbie Brown foi uma delas. E, apesar de todas as cicatrizes, continua a ser uma das figuras mais fascinantes que o rock já produziu.

Se a MTV criou deusas intocáveis, Bobbie Brown desmontou esse mito. E, talvez por isso, mereça ser lembrada para além do enquadramento perfeito, do cabelo perfeito e do sorriso que fez sonhar uma geração. A sua verdadeira história está nos bastidores, nos altos e baixos, e na coragem de ainda estar de pé.

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