Tomas Skogsberg, fundador do Sunlight Studio, e Uffe Cederlund, dos Entombed, reflectem sobre o gear e produção do lendário álbum “Left Hand Path” e do seu fabulado som, além do HM-2, e tudo aquilo que veio a despoletar.
Antes da explosão do death metal sueco na cena internacional no início dos anos 90, a Suécia tinha imprimido a sua herança musical no mundo através da sua exportação mais famosa, os doces sons pop dos ABBA. À medida que os anos 70 davam lugar aos anos 80, novos artistas suecos, como os Europe e Yngwie Malmsteen, conduziriam o legado sonoro da pequena nação numa direcção muito mais agressiva e pesada.
E com as dores de parto de um som mais sombrio e extremo do metal encontrando lentamente o favor da juventude com o passar da referida década de 80, a Suécia estava pronta para o nascimento de um som que seria conhecido como o “Sunlight Sound”. A semente que levou ao desenvolvimento do Sunlight Sound foi plantada em Estocolmo, em 1988, quando uma adolescente banda local, os Nihilist, contratou um jovem engenheiro e produtor em ascensão chamado Tomas Skogsberg para gravar a sua segunda cassete demo, “Only Shreds Remain”.
Skogsberg tinha montado o seu Sunlight Studio como uma instalação improvisada em 1982 e, durante os anos seguintes, enquanto mantinha um emprego diurno, passava as noites a aprender o seu ofício gravando bandas punk e pop locais. Quando os Nihilist recorreram aos serviços de Skogsberg, o Sunlight tinha-se transformado num estúdio de gravação completo com uma clientela crescente, e Skogsberg tinha deixado o seu emprego para se concentrar exclusivamente no seu trabalho de estúdio.
Durante as sessões de gravação para a demo, o guitarrista dos Nihilist, Leif Cuzner [faleceu em 2006], experimentou aumentar todos os botões do seu pedal BOSS HM-2 para o máximo e, por sua vez, os primeiros vestígios do som buzzsaw tomaram forma.
Os Nihilist implodiram logo após a conclusão da demo. Johnny Hedlund criou os Unleashed, com os membros restantes a formarem uma outra banda, os Entombed. Estes regressaram ao Sunlight Studio em Dezembro de 1989, com Skogsberg novamente a comandar as tarefas de produção, e gravaram o seu álbum de estreia, “Left Hand Path”. Este álbum cristalizaria o som de guitarra fortemente distorcido e áspero que, com o tempo, viria a ser rotulado como o som buzzsaw – porque soava como um serrote ou um enxame de abelhas.
«Tinha trabalhado com algumas bandas antes dos Entombed que tinham um tipo de música semelhante, mas só encontrei o verdadeiro som quando trabalhei com os Entombed. O Uffe Cederlund, dos Entombed, era um guitarrista muito bom, por isso foi fácil trabalhar com ele. Podíamos experimentar coisas diferentes juntos, por isso, usando um BOSS HM-2, experimentávamos isto e aquilo. Em algumas horas, tínhamos encontrado o som. Mas não era do tipo: ‘Oh, uau, o que criamos aqui?’ Era mais do tipo: ‘Este é o som!’», diz Skogsberg.
Embora Cederlund concorde que o pedal BOSS HM-2 foi essencial para o desenvolvimento geral do som buzzsaw, uma combinação de afinações baixas e um amplificador combo da Peavey também tiveram um papel fundamental. «No Left Hand Path afinámos para B», diz Cederlund. «Usámos cordas de .10 a .46, por isso soava um pouco desleixado, mas tenho a certeza que isso também teve algo a ver com o som. Eu toquei todas as guitarras rítmicas numa Ibanez X-series, enquanto o Alex [Hellid, guitarrista principal dos Entombed] tocou as guitarras principais numa B.C. Rich», refere o guitarrista dos Entombed.
«Usámos um pequeno amplificador combinado Peavey Studio Pro 40 para o som de guitarra “buzzsaw”, em conjunto com um pedal Boss HM-2 e um combo Marshall de 50 watts para o som não “buzzsaw”, com um pedal Boss DS-1. Os amplificadores foram micados com um Shure 58. O pedal HM-2 foi muito importante, claro, pois estávamos sempre à procura do ‘som’, mas o Leif sacou algo na demo ‘Only Shreds Remain’, que o Nicke [Andersson, baterista dos Entombed] queria explorar», acrescenta Cerderlund.
«Demorámos algum tempo a saber o que estávamos a fazer, mas era basicamente ‘quebrar regras’! Tenho a certeza que o Tomas também fez muitas coisas na sua consola para criar o som, mas nós não sabíamos o que estávamos a fazer. Sabíamos quando soava bem, mas não sabíamos como conseguir o som. O Tomas estava como nós, porque ele também não sabia. Foi algo mais do género: ‘Sim, parece brutal, vamos a isso’!», admite o guitarrista dos Entombed.

A consola que Cederlund menciona é uma mesa personalizada dos anos 80, que ainda hoje se encontra no centro de controlo do Sunlight Studio. Skogsberg diz: «Houve uma vez em que um amigo me ajudou a acrescentar um pouco mais de corrente eléctrica na mesa. Disse-lhe: ‘Vai soar como quero que soe’. Mas ele verificou e disse: ‘Oh não, há demasiada electricidade a entrar na mesa agora, tenho de a mudar’. E fê-lo. Mas eu pensei: ‘Não, já não é a mesma secretária’. Então obriguei-o a mudá-la de novo».
Esta decisão foi determinante para o som dos Entombed e para a reputação do Sunlight. «Ele disse-me que, como havia demasiada electricidade a entrar, não podia prometer que um dia não explodiria! Por isso, trato-a como um carro velho – não lhe mudo nada. Sinto que é algo que é bom para o som».
Após cinco dias de gravação e mais dois dias de mistura, “Left Hand Path”, o álbum de estreia dos Entombed, estava pronto. Mal sabiam o produtor e a banda o efeito devastador que o disco e o seu som único viriam a ter quando fosse lançado no Verão de 1990.
Identificando-se totalmente com o death metal sueco e com toda a cena baseada em Estocolmo durante o início dos anos 90, o Sunlight Studio diferenciou-se do som death metal que começava a sair dos pioneiros Morrisound Studios em Tampa, Florida.
«Comparado com a cena death da Flórida, as bandas da Suécia tinham algo especial. Eram muito mais desleixadas, mas com boa energia, algo que as pessoas de todo o mundo apreciavam. Havia bandas de todas as partes do mundo, mas de alguma forma os suecos destacavam-se. Acho que parte disso se deveu ao facto de o Tomas e a Sunlight serem uma autêntica máquina, capazes de ajudar as bandas a gravar e a soar bem», diz Cederlund.
No rescaldo do lançamento de “Left Hand Path” e do game changer que foi o som dos Entombed, o estúdio viu uma série de bandas de metal passar por lá. Nomes como os Grave, At the Gates, Necrophobic, Dismember, Katatonia e os Amorphis recorreram aos serviços de Skogsberg e do seu Sunlight Studio.
Depois de “Clandestine”, no final de 1991, que reforçou todas as conquistas de “Left Hand Path”, Skogsberg gravou o terceiro álbum do Entombed, “Wolverine Blues” (1993). Embora não se afastasse muito do Sunlight Sound, este trabalho expandiu o seu modelo, adicionando elementos hardcore punk e hard rock. Para Skogsberg, este foi uma fusão dos seus dois estilos favoritos, que também foi garimpado pelos Entombed: rock ‘n’ roll e punk, criando assim um subgénero a que chama “death ‘n’ roll”.
O número crescente de bandas que procuravam “o som” manteve Skogsberg numa agenda de alta pressão sem fim de sessões de gravação, engenharia e produção ao longo da década. Na viragem do milénio, uma mudança de ritmo, muito necessária, era há muito esperada. Em 2002, mudou o seu estúdio dos arredores movimentados de Estocolmo para o campo perto de Norrtälje, a cerca de uma hora de carro a norte de Estocolmo. Rodeado de densas áreas florestais e de estruturas rodoviárias antiquadas, Skogsberg encontrou um estilo de vida descontraído e uma forma de trabalhar menos pressionada.
E embora o Sunlight Sound tenha atingido o seu apogeu no início dos anos 90, continua a ser procurado actualmente, com muitas bandas a viajarem bem longe à procura do som do “Santo Graal do Death Metal” e para trabalhar com Skogsberg.
Legado
Hoje, olhando para trás, Cederlund está muito orgulhoso do legado de “Left Hand Path” e do Sunlight. «Era feliz, jovem e achava que a vida era muito boa. Estávamos a gravar um álbum para a Earache Records e essa era a editora com que queríamos trabalhar. Cometemos muitos erros que, provavelmente, não teríamos cometido hoje, afinal quando ouço o álbum agora, é apenas isso que ouço. Acho que é um álbum muito bom, mas honestamente as guitarras estão muito baixas. O Digby [Pearson], da Earache, recebeu uma fita antecipada só com guitarras e bateria, e disse várias vezes que é uma das gravações mais brutais de todos os tempos!»
Uffe Cederlund acredita que, se não fossem os Entombed e Skogsberg, o death metal sueco poderia não ter acontecido ou, no mínimo, teria tomado uma trajectória diferente? «É difícil dizer se teria acontecido sem o Sunlight ou o ‘Left Hand Path’», reflecte.
«Tenho a certeza de que algo teria acontecido. Tal como aconteceu mais tarde, e com muito mais sucesso, como sucedeu com os In Flames, Opeth ou At the Gates, embora o mundo tenha demorado muito tempo a perceber. Mas, ao mesmo tempo, sem o antecedente, talvez isso também não tivesse acontecido – não sei. Tudo o que sei de certeza é que o som teria sido diferente». É difícil imaginar a música extrema sem o contributo dos Entombed…
Artigo traduzido e adaptado de “How Entombed and Sunlight Studios gave birth to death-metal guitar tone”, de Joe Matera, originalmente publicado em Guitar World a 12 de Junho de 2020.

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