Antes de se tornarem símbolo e dogma do black metal norueguês, os Darkthrone foram uma banda de death metal atmosférica de alto calibre. Soulside Journey é o retrato desse momento: técnico sem exibicionismo, denso sem brutalidade gratuita, um disco suspenso entre mundos que continua a resistir ao tempo e às leituras fáceis.
Antes de serem nativos da Noruega — no sentido estético, ideológico e quase xamânico que o black metal viria a impor — os Darkthrone eram, acima de tudo, uma banda de death metal extremamente séria. Soulside Journey é o documento disso mesmo: um álbum que nasce fora da narrativa que hoje lhes é colada à força e que, por isso, continua a resistir ao tempo.
Mea culpa, quando se fala de Soulside Journey, há sempre um vício interpretativo: lê-lo como “O Disco Antes do Black Metal”. Essa leitura é cómoda, mas empobrecedora. Reduz o álbum a prólogo, a nota de rodapé glorificada. O que Soulside Journey é, na verdade, é um disco completo, autónomo, ambicioso, feito por uma banda jovem que, naquele momento, acreditava profundamente no death metal — mas não no death metal como fórmula.
Gravado em 1990 no Sunlight Studio, sob a batuta de Tomas Skogsberg. As circunstâncias da gravação são frequentemente citadas como determinantes do som — e são — mas convém dizer isto claramente: Soulside Journey não é grande por causa do Sunlight, é grande apesar de poder ter sido apenas mais um disco Sunlight.
Ao contrário de muitos discos associados ao “som Sunlight”, Soulside Journey não vive da brutalidade directa. Vive da atmosfera, da construção lenta, da tensão. Musicalmente, este é um álbum mais técnico do que muitas vezes se admite. Onde muitas bandas se deixaram engolir pela espessura do som, os Darkthrone usam-no como matéria atmosférica. As guitarras são densas, sim, mas não esmagam; criam camadas. A bateria de Fenriz é orgânica, respirável, com um sentido rítmico que privilegia fluidez em vez de impacto constante. Nada aqui é gratuito. Há riffs intrincados, mudanças de tempo subtis, estruturas que fogem ao verso–refrão, e uma clara obsessão com dinâmica.
Malhas como Cromlech ou Grave With A View respiram uma influência óbvia de Death na fase Spiritual Healing, mas filtrada por uma melancolia mais europeia, menos clínica. Os Autopsy surgem não tanto na violência, mas na sensação de decomposição, de tempo suspenso. O que distingue Soulside Journey desde o primeiro tema é a sensação de distância emocional. Mesmo quando o riffing é agressivo, há uma frieza, uma reserva, quase uma contenção intelectual que o afasta do gore, do choque, do corpo em decomposição como espectáculo. E depois há algo fundamental: Soulside Journey é um disco atmosférico sem recorrer à lentidão excessiva. Não é doom, mas sabe parar. Não é técnico por exibicionismo.
Existe uma consciência espacial rara para um álbum de estreia — cada instrumento sabe quando avançar e quando recuar. Mas se a dimensão musical é sólida, quase irrepreensível, é na camada espiritual que o disco ganha peso histórico. Aqui, os Darkthrone ainda não se assumem como entidade norueguesa no sentido simbólico. Não há paganismo explícito, não há misantropia ideológica, não há nacional socialismo como arma de arremesso político, não há ruptura estética com o metal extremo global. O imaginário é ainda universal, abstracto, quase cósmico. No entanto, sente-se já um desconforto com as convenções. Um desejo de afastamento. Uma frieza que não vem do satanismo performativo, mas de uma certa rejeição do excesso técnico que dominava o death metal da época.
Esse vazio identitário é crucial. É nele que germina a necessidade de ruptura que viria depois. Soulside Journey soa a banda que chegou ao limite do que o death metal podia oferecer-lhes emocionalmente. Não há frustração, mas há saturação. O álbum é quase demasiado controlado, demasiado consciente de si próprio — e isso, paradoxalmente, empurra-os para a rejeição total da técnica e da sofisticação nos discos seguintes. Quando Fenriz fala, anos depois, deste período, percebe-se que a viragem para o black metal primitivo não foi uma negação do disco, mas uma resposta espiritual ao que ele já continha em embrião: a necessidade de isolamento, de pureza, de redução.
É um disco que soa a procura, não a afirmação. E isso é crucial. Enquanto outros álbuns de estreia tentam provar competência, Soulside Journey parece perguntar: “até onde podemos ir antes de deixar isto tudo para trás?” Não é por acaso que este tenha sido o único álbum de death metal da banda. Tudo aqui aponta para um esgotamento consciente do formato. Fenriz deixou sempre claro que a viragem não foi uma traição ao disco — foi uma consequência lógica dele.







Hoje, ouvido à distância, Soulside Journey não precisa de ser defendido como curiosidade pré-black metal. Ele sustenta-se por si. É uma obra-prima do death metal atmosférico, mas também um retrato raro de uma banda antes de se tornar símbolo, quando ainda estava mais interessada em som do que em dogma. Talvez por isso continue a inquietar: porque é um disco feito antes das fronteiras — geográficas, estéticas e ideológicas — serem erguidas. Não é suficientemente selvagem para o death metal mais extremado, nem suficientemente ideológico para o black metal. Está suspenso entre mundos — e essa suspensão dá-lhe longevidade.
Soulside Journey foi editado no dia 14 de Janeiro 1991 pela Peaceville Records, na sequência da demo de culto dos Darkthrone, Cromlech. A edição de 25.º aniversário inclui um comentário bónus com as reflexões de Fenriz sobre as músicas e influências, com insights sobre a própria sessão de gravação. O livreto expandido contém fotografias inéditas da banda e é apresentado em formato de luxo.
