Catarina Torres

Catarina Torres, A Dra. dos Contrabaixos

Começou por aprender a tocar o instrumento, mas as voltas do destino tornaram-na luthier de contrabaixos. Catarina Torres labora no Atelier Torres & Dase.

Frequentou até ao 5º Grau de Contrabaixo a Escola de Música do Conservatório Nacional. Aprendizagem à qual se juntam os três anos de aulas no mesmo instrumento na Escola de Jazz Luis Villas-Boas, do Hot Clube de Portugal. Deixou aí raízes profundas, tendo participado na Big Villas-Band e sido membro da direcção da escola durante oito anos, colaborando no inventário do espólio musical de Luis Villas-Boas.

«Sou a Catarina Torres, sou lisboeta e trabalho como luthier de contrabaixos na zona de Belém. O luthier de contrabaixos é uma pessoa que faz o restauro e manutenção de instrumentos para contrabaixistas de todos os estilos musicais, estudantes e músicos profissionais. Cresci nesta zona de Lisboa. Este era o prédio onde viviam os meus avós e, na altura em que eu mudei do Bairro Alto, procurei uma alternativa. Este atelier, onde estamos há já 11 anos, serviu, e felizmente sempre com muito trabalho. Parece que não há horas livres e se nós tivéssemos horas livres havia sempre coisas para fazer, porque há sempre mais um contrabaixo que precisa de ajuda».

Com estas palavras, Catarina Torres apresenta-se na rubrica #Lisboetas, das redes sociais da Câmara Municipal de Lisboa. Depois, a luthier passa a contar como abraçou esta profissão, graças a uma paixão e uma adversidade do destino ou não fosse Lisboa a capital mundial do Fado.

«Tudo começou pela paixão pelo contrabaixo. Fez-me ir estudar música já numa fase mais tardia. Fui estudar para o Conservatório de Lisboa e também para o Hot Clube de Portugal, para estudar jazz. Tive uma lesão e não consegui continuar esse sonho, mas estudava Conservação e Restauro, na antiga Escola Superior de Conservação e Restauro, nas Janelas Verdes. Os únicos objetos que eu gostava eram mesmo os instrumentos musicais. Uma coisa levou à outra e, hoje em dia, estou rodeada de contrabaixos».

«Não trabalho para os museus, trabalho para os músicos e para as pessoas que realmente usam o contrabaixo como objeto de trabalho, todos os dias. Os trabalhos são muito diferentes. Às vezes, lembro-me mais do contrabaixo do que da pessoa. Não me lembro bem da cara, mas lembro-me do que é que está mal no contrabaixo. Quando passamos muitos meses à volta de um instrumento, quando o resultado de uma coisa que parecia tão difícil com uma coisa simples, criam-se ligações. O tempo de um restauro desses grandes, num contrabaixo, pode ser entre 6 meses e dois anos», explica Catarina Torres.

Catarina Torres confessa ainda que este mundo dos instrumentos é um lugar misógino, mas sob os ventos da mudança. «Eu acho que consegui ter o meu lugar, mas não é fácil. Pelo instrumento, por ser mulher e ter que lidar num mundo de homens. Acho que as contrabaixistas estão a aumentar, assim como eu fui há muitos anos. Há 20 anos era a única aluna em contrabaixo e rapariga. Hoje as coisas mudaram um bocadinho. Às vezes penso que um bocadinho de nós está a fazer a música pelo país todo e isso traz algum orgulho, porque participamos nessa vida dos músicos que precisam de melhorar».

«Os contrabaixos para mim são um mundo de variantes porque podem ter muitas formas, muito diferentes de um violino. Os contrabaixos têm muitos mistérios. Todos os instrumentos contam uma história e quando nós olhámos para o instrumento conseguimos ler essa história», conclui Catarina Torres sobre a sua profissão e sobre a sua enorme paixão pelo nobre instrumento.

Em 2008, Catarina Torres abriu o seu primeiro atelier, na Rua da Bempostinha, em Lisboa. Depois de um ano a trabalhar sozinha, abriu a oficina Ateliers, em partilha com Thibaut Dumas, Tv. dos Inglesinhos, 52, e Rua Nova do Loureiro, também na capital. Uma aventura que durou até 2013. Foi em 2014 que surgiu o Atelier Torres & Dase, fruto de uma parceria com o luthier Kai Dase.

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