Troll's Toy

Troll’s Toy & João Salcedo, Synesthesia

“Synesthesia” mostra-nos o power trio de fusão Troll’s Toy a medir forças com o pianista João Salcedo. É um exercício brutal de resiliência musical, no qual, em diferentes movimentos, os músicos partem do vazio em busca da centelha criativa.

«Synesthesia: corpo escultórico musical que se verte num copo de transposições sensoriais: música que se degusta no rigoroso silêncio entre dois goles. O piano persiste na boca teclada de vermelho sobre o rosa inciso do rosto desenhado por Ricardo Miranda». O press release parece referir-se a cerveja porque, de facto, pretende referir-se a cerveja. A um disco em forma de cerveja

«Fluxo de transposições entre o som e o sabor, a 7a edição da VIC NIC verte-se numa cerveja assinada pela Lovecraft, onde se degusta em profundidade cada um dos 40 minutos da colaboração improvisada entre os Troll’s Toy e o pianista João Salcedo. E se um vinho pode conter notas de madeira, não há dúvida que esta ‘weat wine’ encomendada pela Lovecraft à Burguesa exala as notas musicais mais inesperadas. Deslimitado a 192 exemplares e inaugural de uma série de experiências da VIC NIC com formatos insólitos, não é segredo que a inspiração para um disco-cerveja chegou à VIC NIC sob a forma do incrível “Forest”, lançado ao mar pelos portugueses Zuma numa garrafa de vinho, em 2019».

«A música artesanal não tem conservantes nem outros aditivos: saboreia-se sempre uma única vez. O sax insiste que é avesso a luvas para tocar a pele líquida da boca. A bateria de sabores explode no palato, nos lábios carnudos da guitarra. Dizer como o corpo sonoro e gustativo é uma rede de vibrações em notas de cereja que nos faz jurar que a alma existe, enquanto a Synesthesia improvisa o rasto que há-de ficar em nós».

Atemorizado pela prosa da Rosa Alice Branco, que assina as palavras entre aspas, pelo conceito singular, pela ausência de pontos de referência e pelos 40 minutos de exploração sónica dos Troll’s Toy e de João Salcedo, aparentemente, sem regras delimitadoras, demorei a debruçar-me sobre este épico de improviso que é “Synesthesia”. Disco da VIC NIC, editado a 14 de Abril de 2013.

É uma gravação e mistura excepcional (no seu equilíbrio, articulação e amplo espaço entre os instrumentos) de Tomás Pedroso, com masterização de Andrés Malta, do esforço colaborativo que reuniu as baterias e sintetização de João Martins, o saxofone de Gabriel Neves e a guitarra de Jorge Louca, dos Troll’s Toy, aos pianos de João Salcedo.

Bizâncio

Aquando do primeiro álbum, o texto de apresentação dos Troll’s Toy era e é, no mínimo, arrojado. Diz-nos: «Estrutura e caos, silêncio e ruído, guerra e paz. Gabriel Neves (Saxofone Tenor), João Martins (Bateria e Percussão) e Jorge Loura (Guitarra Barítono) imaginaram como seria se Frank Zappa, Wayne Shorter, Richard Wagner e Egberto Gismonti se encontrassem num concerto dos Tool e formassem um trio. Desta impossibilidade matemática nasceu Troll’s Toy». A esta pretendida aporia, Jorge Salcedo veio trazer uma certa entropia, um teor espiritual.

Essa sensação deriva do lânguido arranque do tema, sob a sombra dos duplos harmónicos da escala bizantina (ou árabe). Os músicos criam um crescendo cauteloso, temperado, nos primeiros 10 minutos, até a intempestividade da guitarra eléctrica começar a manifestar-se e forçar a primeira explosão dinâmica. Entra-se numa progressão e nos vertiginosos legatos de Jorge Loura que, particularmente, remetem para uma das malhas e respectivos solos mais underrated dos Guns N’ Roses: “Breakdown”. Um pico de energia que termina constrito numa tensão de cortar à faca nos arpeggios sobrepostos do saxofone e do piano.

Raios de Luz

“Synesthesia” prossegue a sua cronometria, como um bloco unitário, mas sendo honesto, na viragem do minuto 17 estamos diante de um exercício completamente diferente. Uma vez mais, o quarteto de músicos procura partir do nada. A exploração de efeitos, de modelação dos sinais das cordas e do metal, é esparsa. É Gabriel Neves que se arroja às primeiras notas, permitindo então a Salcedo a tecelagem de uma teia harmónica, cujo vector é lenta e muito laboriosamente ampliado. Então, pela marca dos 25 minutos, percebemos que os músicos se libertaram do labirinto e a resiliência férrea dá lugar a pinceladas mais arrojadas, mais coloridas.

A suavidade melódica do saxofone sente-se como clarões de luz a rasgar o cinzentismo prévio – é uma experiência auditiva verdadeiramente gratificante. Ou, para usar uma metáfora mais aproximada ao conceito do disco, como quando, se insiste beber cerveja através da ressaca, até que o estado ébrio surge uma vez mais.

Daqui emerge o último movimento, de maior fusão, mais rocker. Até porque João Martins torna as baterias mais corpóreas e, desta vez, o staccato instrumental torna tudo mais rítmico. No final, a mais-valia deste trabalho é a intimidade que os músicos nos oferecem, expondo a sua nudez criativa.

Um pensamento sobre “Troll’s Toy & João Salcedo, Synesthesia

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