No seu avassalador álbum de estreia, Ana Lua Caiano funde tradição e eletrónica para criar um híbrido musicalmente vanguardista e emocionalmente familiar. Lorde em esteróides.
«Experimentando a fusão do tradicional com o contemporâneo, a paleta sonora de Ana Lua Caiano faz uma referência melódica à história do seu país, mas é resolutamente visionária. Ela cria uma música desconcertantemente confrontadora e sonoramente expansiva» – The Line of Best Fit
O álbum de estreia de Ana Lua Caiano combina as tradições da música rural portuguesa com vozes sobrepostas, sintetizadores, batidas insistentes e gravações de campo. A sua música é visceral e meticulosamente focada, inspirando-se num mosaico rico de influências que inclui o canto colectivo tradicional (as work songs do folclore ou o coral pseudo-religioso), a musique concrète, os cantautores do período revolucionário português dos anos 70 e ícones da música electrónica como Björk e Laurie Anderson.
Oriunda do fértil submundo musical de Lisboa, a música de Caiano – e a sua recepção internacional – está a avançar rapidamente. As suas elogiadas actuações recentes no Eurosonic e no Transmusicales (onde gravou uma sessão para a KEXP) comprovam isso, tal como as emoções precisas e os elementos sonoros profundamente individuais do seu aguardado primeiro álbum: “Vou Ficar Neste Quadrado”, originalmente editado no dia 15 de Março de 2024.
O silêncio pode ser o caminho perfeito para aguçar os sentidos. Para deixar o mundo entrar, para permitir que os pensamentos venham à superfície. Para Ana Lua Caiano, de Lisboa, esses espaços vazios – enquanto caminha ou não consegue dormir – são momentos de criação. São nessas ocasiões que surgem as ideias que ela molda em canções. Ao longo dos últimos dois anos, essas ideias resultaram em dois EPs (Se Dançar É Só Depois, 2023, e Cheguei Tarde A Ontem, 2022) que a tornaram conhecida pela Europa e pelo mundo, culminando no seu álbum de estreia pela Glitterbeat.
Anti-Molde
É música electrónica. Totalmente contemporânea. Pulsante, glitchy, atmosférica e movida por batidas, mas com raízes profundas na música tradicional portuguesa que os seus pais ouviam na sua infância. «Eles tinham muitas cassetes que colocavam a tocar. Adorava imitar os cantores. Acho que absorvi isso por osmose, e esses elementos continuam presentes no que faço», recorda Ana Lua Caianio.
Essa é a fundação; tudo o resto cresceu e floresceu a partir daí. Mas a música sempre foi parte integrante da sua vida. Houve as aulas de piano clássico até aos 13 anos, seguidas por quatro anos de estudo numa escola de música jazz. Tudo foi uma descoberta, mas apenas um ponto de partida. «O jazz deu-me mais liberdade, mas ainda assim tinha regras. Nessa altura já ouvia artistas como Björk e Portishead, que ofereciam uma tonalidade diferente. Comecei a frequentar workshops, a aprender sobre musique concrète, canto colectivo, tudo o que pudesse aprender fora do jazz», revela Ana Lua Caiano.
Tudo isso alimentou as composições que começou a criar aos 15 anos, escrevendo e cantando para algumas bandas e tocando sintetizador. Mas foi durante a pandemia e os confinamentos que realmente assumiu o controlo da sua música.
Impedida de tocar com outros músicos, Ana Lua Caiano começou a experimentar em casa com texturas electrónicas e batidas dançantes, ampliando os seus horizontes e fundindo por completo o amor pela música electrónica com as tradições musicais portuguesas. Ela destaca que quando fala «sobre música tradicional portuguesa, não estou a referir-me ao Fado, mas sim a um tipo de sonoridade cantada no campo com cânones, harmonias e coros, transmitida principalmente de forma oral».
Em 2022, Ana Lua Caiano já tinha gravado um single, uma sessão ao vivo online e submetido material ao WOMEX, o evento global de música que nesse ano decorreu na sua cidade natal, Lisboa. Foi seleccionada para uma vitrina que a apresentou a um público internacional, e então as coisas realmente começaram a descolar. Dois EPs que destacaram a sua visão única e actuações em festivais sucederam-se, sempre como uma banda de uma mulher só, com um teclado midi, sampler, looper e um pequeno arsenal de instrumentos de percussão.
PhysioEureka
Tudo caminhando rapidamente para “Vou Ficar Neste Quadrado”. «As músicas que escrevo começam com uma melodia. Gravo-a e depois coloco no computador. Mais tarde, às vezes até um ano depois, volto a ouvir e selecciono o que funciona. Às vezes canto palavras sem sentido. Mas tudo começa com uma pequena ideia melódica», explica Anna Lua Caiano.
O ritmo também é uma parte vital da sua música. Está presente na sua performance física, sempre em movimento enquanto toca, impulsionando a canção, sentindo cada batida enquanto usa o bombo ou o colorido brinquinho de madeira, um instrumento tradicional de percussão da Madeira, misturando os instrumentos mais naturais com a electrónica. Algo que se pressente mesmo ouvindo sem ver, que se entranha nos sentidos e nos impulsos físicos.
Tudo é em camadas, construído uma coisa sobre a outra, tanto na música quanto nas vozes, com as palavras de Ana Lua Caiano frequentemente oblíquas, como em “Cansada,” onde o refrão evolutivo que forma a coluna cervical da canção soa mais como um cântico reflexivo: «Sabes / sabes, sabes / Já nem gosto de sair / Já nem gosto de cantar / Já nem sei como te amar».
Embora possam parecer pessoais, Ana Lua Caiano explica: «A maioria das letras são histórias que invento. Surgem de ouvir conversas das pessoas». Algumas são observações sobre a vida, como no tema-título, com uma visão sarcástica sobre a forma como as pessoas passam os dias, presas num “quadrado”, um lugar confortável que têm medo de deixar. «Sentem-se e olhem para o sol, o sol que está longe, olhem para o sol que está tão longe / Vamos continuar sentados até que a noite chegue a casa, até que a noite chegue a casa».
Desde que iniciou as suas experiências sónicas durante o confinamento, Ana Lua Caiano tem empurrado implacavelmente os limites da sua música. Trata-se, claro, de um processo que já havia começado quando imitou os cantares tradicionais pela primeira vez ou teve a sua primeira aula de piano. É um processo que a conduziu ao caminho em que está agora, onde tradição e electrónica caminham lado a lado.
«Acredito que a música tradicional evolui com o mundo – hoje em dia pode-se fazer música tradicional com um computador ou abordar temas que não eram relevantes ou não existiam no passado. A música tradicional está sempre a evoluir». A avançar rápida e seguramente, Ana Lua Caiano definitivamente não está presa num quadrado.
Artigo traduzido e adaptado do press release integral de “Vou Ficar Neste Quadrado”, publicado no Bandcamp oficial de Ana Lua Caiano.

Um pensamento sobre “Ana Lua Caiano, Vou Ficar Neste Quadrado”