O terceiro álbum dos Ptolemea, liderado pela voz de Priscila da Costa, é um exercício de constantes contrastes entre luz e sombras. Um disco que nenhum admirador da música dos The Gathering, principalmente na segunda metade dos anos 90, deve deixar de ouvir.
Priscila Da Costa é a nova vocalista de Sinistro, a Luso-Luxemburguesa tem um percurso musical exploratório, estando activa no seu próprio projecto Ptolemea e ainda no colectivo Judasz & Nahimana. Foi já ela a gravar o novo álbum dos doomsters portugues, que tem previsto o seu lançamento ainda este ano. Enquanto o disco não chega, todavia, a estreia ao vivo desta nova formação dos Sinistro decorre no próximo dia 16 de Março em Differdange, Luxemburgo, no prestigioso Aalt Stadhau. Esta é uma oportuna ocasião para mergulhar no universo musical de Priscila…
PTOLEMEA é uma banda de rock alternativo, cujo nome é inspirado por Cláudio Ptolomeu, o matemático, astrónomo, astrólogo, geógrafo e teórico da música romano, cujos ensinamentos Priscila da Costa estudou. Aqui, a cantora e guitarrista é apoiada Remo Cavallini, também na guitarra, por Niels Engel e Martin Schommer na bateria e outros instrumentos de percussão, Sebastian Schlapbe e Yves Oek nas guitarras baixo e Christophe Reitz no violino eléctrico. “Tome I” (2018) e o EP “Maze” (2020) deram início à discografia, corolada em 20 de Janeiro de 2023, por “Balanced Darkness”.
Os Ptolemea têm o hábito de criar edições compartimentadas para cada single, como podem facilmente comprovar no seu povoado Bandcamp. Contudo, vamos colocar o foco na edição em LP de “Balanced Darkness”, procurando perceber um pouco aquilo que Priscila vem oferecer às carismáticas composições dos Sinistro. A banda refere, sobre o disco, que este «ilustra uma ligação entre a natureza e a nossa própria consciência, convidando-nos a olhar para o mundo e para nós próprios de uma perspetiva diferente e a embarcar numa viagem de exploração e transformação».
A primeira malha de “Balanced Darkness”, intitulada “Shamanic Lullaby”, é como um mergulho na psique, onde vozes femininas, inarticuladas e etéreas, dançam entre as ondas de um drone misterioso, como murmúrios perdidos em meio à névoa. Serve como uma entrada ritualista para o álbum, lançando um feitiço de curiosidade sobre as próximas canções, como que abrindo as portas para um mundo desconhecido.
O folk-rock de “Atmospheric Pressure Drop” emerge como um pico dramático no álbum, uma explosão de energia visceral que arranca com um desempenho vocal e instrumental poderoso. A batida pulsante da bateria e o rugido das guitarras tecem uma tapeçaria sonora que adentra dentro de dimensões de maior peso e cativa desde o primeiro acorde. Uma breve pausa antes do clímax final dá espaço para a guitarra respirar, enquanto a repetição ocasional da vocalização pode intrigar os ouvintes mais atentos, adicionando uma camada de mistério à narrativa musical.
“Fado” desenrola-se com uma elegância tranquila, a sua letra em português flutua sobre um cenário musical sereno, onde elementos electrónicos se entrelaçam harmoniosamente, e cativa com o seu refrão para lá de orelhudo. É certamente um ponto de contacto com muito do som que os Sinistro desenvolveram nos seus dois álbuns anteriores. Entretanto, “Inspiration” inicia-se com uma aura de contemplação e de reminiscências goth rock, tornando-se mais intensa na sua segunda metade.
Também o álbum parece distintamente dividido ao meio, com o drone de “Universal Feedback”, a servir-lhe de interlúdio. É como se estivéssemos perdidos num labirinto de sombras, esperando um amanhecer que nunca chega. E assim surge a feérica “My Darkest Creature”, onde os clarões da voz de Priscila atravessam de forma pungente a densidade de sintetização e das camadas instrumentais dos Ptolemea.
Essa pressão de sombras é mais aliviada ainda em “Erase Your Mind” (a progressão de acordes soa a “Dont’ Cry”, dos Guns N’ Roses, a mais alguém?). Talvez seja uma canção em que a melodia vocal e entoação de Priscila, bem como a densidade instrumental dos Ptolemea, se aproxime mais de uma estética que nenhum admirador da era dourada dos The Gathering com Anneke van Giersbergen (sim, estamos a falar de “Mandylion” e “Nighttime Birds”) enjeitará.
“Leap Of Faith” e “Balanced Darkness”, as duas últimas faixas, seguem uma trajectória semelhante, uma montanha-russa de emoções e sonoridades que nos elevam e, subitamente, nos atiram ao abismo. A voz poderosa de Priscila é como um guia através das trevas, uma luz brilhante que corta a escuridão da noite. No final, mais nostálgico que inovador, este álbum dos Ptolemea é, acima de tudo, coerente, coeso e competente.

Um pensamento sobre “Ptolemea, “Balanced Darkness””