As imagens sinistras, mas sedutoras que Darkher pinta com os seus vocais etéreos, guitarras e ainda a soma de cordas conjuram cenas cinematográficas iridescentes, nas quais se torna difícil dizer se existe beleza na escuridão ou se é o contrário.
DARKHER (Escuro/Ela, “formando mais escuro”) é um projecto solo da cantora e guitarrista Jayn Maiven, fundado em 2012. O som escuro e melancólico, mas também maciçamente pesado do EP de estreia, o homónimo “Darkher” (2013), combinado com os vocais distintos de uma tímida beleza pré-Rafaelita motivou ruído aclamatório no underground europeu, em particular na cena doom, e alavancou um rápido acordo discográfico. O seguinte EP “The Kingdom Field” já surgiu via Prophecy Productions.
No seu segundo álbum “The Buried Storm”, a guitarrista, compositora, letrista e produtora vem melhorar essa fórmula musical alquímica que estabeleceu nos EPs e no álbum de estreia, “Realms” em 2016. A sua narrativa sónica, na sua maioria feérica e por vezes sinistra, ouve-se refinada a todos os níveis e com contrastes mais vincados que reflectem o processo de aprendizagem em curso da sua criadora.
No press release, lê-se que “The Buried Storm” «vem para dar forma à escuridão que espreita no limite da consciência, escondida à vista de todos, mas pacientemente aguardando o seu momento para atingir o coração. Darkher oferece-nos outra obra densa e magistral, que transcende facilmente as fronteiras musicais com o seu amplo apelo aos que preferem sonoridades mais sombrias, independentemente do género. “The Buried Storm” cativa os seus ouvintes com uma doçura ilusória, apenas para os prender firmemente nos espinhos de uma beleza nocturna».
Neste álbum de Darkher, o neo folk e o doom metal são magistralmente fundidos. Essa é a base musical para os densos singles “Where The Devil Waits” e “Lowly Weep” ou “Love’s Sudden Death”, sobre o qual Jay Maiven comenta: «É uma balada com um romantismo sombrio, fortemente inspirada por uma paisagem arcaica que espelha as suas emoções; dramático, belo e, por vezes, desolador».
As três primeiras malhas misturam-se perfeitamente. A abertura “Siren’s Nocturne” é uma introdução em crescendo e um exercício dinâmico, um jogo de silêncios, que estabelece a atmosfera assombrosa do álbum e se derrama em “Lowly Weep”, uma canção deslumbrante com enorme a clareza e proximidade das cordas. Depois “Unbound”, uma peça maioritariamente acústica, onde o doom metal é mais uma sugestão suave que um manifesto.
“The Buried Storm” tem uma estrutura um pouco diferente de “Realms”, no sentido em que, intencionalmente ou não, se ouve como uma longa peça conceptual. A música é cautelosa e introvertida, com violoncelos e violinos a pairar, constituindo uma grande parte do som, juntamente com a guitarra acústica. Isto, no entanto, faz com que a pressão dos riffs mais metaleiros em alguns segmentos seja ainda mais eficaz na sua melancolia romântico, no seu bucolismo e na forma como tudo parece registado em velhos pergaminhos, enterrados numa biblioteca vitoriana poeirenta e permeada de emoções ocultas.
O trio que encerra o disco é arrebatador. “The Seas” é cinematográfica e relaxante, com os encantadores vocalizos de Maiven e a omnbipresença do violoncelo. Isto flui para “Immortals”, com baterias mais demarcadas, provavelmente a malha mais pesada do álbum. O encerramento, “Fear Not, My King”, é uma tensa e fantasmagórica abstração sónica que deixa o final em aberto. Brilhante.
