For Unlawful Carnal Knowledge Tour

For Unlawful Carnal Knowledge Tour (1991-1992)

Uma viagem à For Unlawful Carnal Knowledge Tour dos Van Halen com os Alice in Chains como banda de abertura, onde duas gerações do rock se cruzaram em palco, bastidores e cumplicidade, num momento irrepetível da história do hard rock.

Este é um daqueles encontros estranhamente perfeitos entre dois mundos que, à primeira vista, pareciam incompatíveis. Estamos a falar da For Unlawful Carnal Knowledge Tour, digressão de promoção a For Unlawful Carnal Knowledge dos Van Halen, entre 1991 e 1992, onde os então emergentes Alice in Chains foram escolhidos como banda de abertura. Existe qualquer coisa profundamente cinematográfica na ideia.

Não porque represente uma “passagem de testemunho” entre eras no rock — essa leitura já foi repetida até à exaustão — mas porque, olhando hoje para aquelas fotografias e relatos de bastidores, percebe-se que aconteceu ali algo muito mais raro: uma ligação genuína entre músicos que, teoricamente, pertenciam a universos incompatíveis. De facto, foi algo tão genuíno que é fácil esquecer quão diferentes aquelas bandas pareciam na época.

Os Van Halen eram uma instituição americana. Não apenas uma banda, mas uma linguagem inteira de espectáculo rock: solos monumentais, refrões gigantescos, excesso, humor idiota, energia hedonista e um sentido quase carnavalesco do estrelato. Mesmo já distantes da era clássica com David Lee Roth, continuavam a ser uma máquina colossal de arena rock. For Unlawful Carnal Knowledge, editado em 1991, estreou directamente no primeiro lugar da Billboard e provava que os Van Halen ainda conseguiam dominar o mainstream americano numa altura em que o hard rock começava lentamente a perder terreno cultural. Ainda vendiam milhões e Eddie Van Halen permanecia um semideus da guitarra eléctrica.

Os Alice in Chains, por outro lado, pareciam vir de outro planeta emocional. Havia algo de pesado neles que ultrapassava simplesmente o som. Não era apenas o peso sabbathiano dos riffs de Jerry Cantrell nem a forma quase doentia como Layne Staley cantava. Era a atmosfera inteira da banda. Mesmo antes de o mundo começar a transformar Seattle numa marca cultural, os Alice in Chains já transmitiam uma sensação estranha de desgaste, melancolia e escuridão que contrastava violentamente com a exuberância colorida do rock de arena americano. A banda de Seattle parecia carregar nos ombros toda a ressaca emocional que os anos 80 tinham tentado esconder sob laca, licra e cocaína.

Hoje, olhando para trás, aquela combinação parece quase impossível. E talvez seja precisamente por isso que continua tão fascinante. E no entanto, quando os Van Halen olharam para os Alice In Chains, não viram uma ameaça. Viram uma grande banda.

Inevitável

Há um detalhe importante nesta história que raramente recebe atenção suficiente: a escolha dos Alice in Chains como banda de abertura na For Unlawful Carnal Knowledge Tour não parece ter sido uma imposição da editora nem uma tentativa desesperada de parecer “actual”. Pelo contrário. Tudo indica que Sammy Hagar ficou genuinamente impressionado quando viu “Man in the Box” na MTV.

É um pormenor revelador porque ajuda a destruir uma narrativa muito simplista sobre o início dos anos 90. Durante décadas, construiu-se a ideia de que o hard rock clássico e a cena de Seattle estavam condenados a odiar-se mutuamente. Como se o grunge tivesse surgido exclusivamente para executar publicamente os excessos dos anos 80. Mas a realidade era mais confusa — e muito mais interessante. Muitos músicos daquela geração reconheceram imediatamente o talento dos Alice in Chains. E talvez isso acontecesse porque, apesar de tudo, a banda tinha raízes profundamente hard rockers.

Ao contrário da atitude mais punk e anti-rockstar dos Nirvana, por exemplo, os Alice in Chains nunca esconderam o amor por riffs pesados, harmonias clássicas e guitarristas gigantes. Jerry Cantrell adorava Black Sabbath. Adorava metal tradicional. Adorava peso. E isso aproximava-os muito mais dos Van Halen do que certas leituras revisionistas da história do rock gostam de admitir. Talvez por isso a ligação tenha acontecido com tanta naturalidade. Porque os Van Halen percebiam exactamente o que os Alice in Chains estavam a fazer.

Eddie Van Halen & Jerry Cantrell

A parte mais bonita desta história continua, inevitavelmente, a envolver Eddie Van Halen. Existe uma tendência para transformar Eddie apenas num extraterrestre técnico — o homem que revolucionou a guitarra rock e passou o resto da vida a ser imitado por metade da América. Mas às vezes esquece-se um dos traços mais enternecedores da personalidade dele: Eddie era profundamente entusiástico em relação a outros músicos. Quando gostava de alguém, comportava-se menos como uma lenda intocável e mais como um miúdo obcecado por guitarras. E aparentemente adorou Jerry Cantrell.

No livro Alice in Chains: The Untold Story, Cantrell recorda simplesmente: «Eddie was really cool to us. He treated us great». A frase é curta, quase desarmantemente simples, mas tudo o que se sabe sobre a For Unlawful Carnal Knowledge Tour parece expandir essa ideia. Eddie assistia aos concertos dos Alice in Chains a partir da lateral do palco. Conversava com Cantrell sobre equipamento. Observava os riffs. Absorvia a banda. E depois aconteceu a história que acabaria por ganhar estatuto quase mítico entre fãs das duas bandas.

Segundo relatos repetidos ao longo dos anos, Cantrell perguntou a Eddie se existia hipótese de conseguir um desconto numa Ernie Ball Music Man EVH — o modelo associado, na época, ao guitarrista dos Van Halen. A resposta de Eddie foi tipicamente exagerada da melhor maneira possível: em vez de arranjar um desconto, acabou por oferecer equipamento à banda.

É difícil imaginar uma cena mais perfeita. O jovem guitarrista de Seattle, ainda longe do estatuto lendário que viria a alcançar, a tentar comprar uma guitarra do herói. E o herói simplesmente a dar-lhe gear porque sim. Há qualquer coisa profundamente pura nisso. Especialmente quando pensamos no ambiente competitivo e egoísta que tantas vezes define grandes tours rock. Eddie Van Halen não precisava de fazer aquilo. Os Alice in Chains ainda não eram gigantes globais. Ainda não tinham Dirt (abre a review). Ainda não eram unanimemente respeitados.

Mas Eddie reconheceu identidade na banda. E isso diz imenso sobre o Ed, mais do que qualquer solo “impossível”.

Aquele Miúdo

Se Jerry Cantrell estabelecia uma ponte relativamente natural entre o metal clássico e a nova geração de Seattle, Layne Staley era outra história. Imaginar Layne a abrir concertos dos Van Halen continua a parecer surreal.

Os públicos dos californianos estavam habituados a espectáculo, exuberância e energia celebratória. E depois aparecia Layne: magro, imóvel, intenso, quase desconfortavelmente vulnerável em palco. Não havia sorriso rockstar tradicional naquele homem. Não havia sedução clássica. Parecia alguém a carregar permanentemente alguma coisa demasiado pesada para o próprio corpo. Para muitos fãs dos Van Halen, aquilo devia soar quase alienígena.

Os relatos da época falam de audiências confusas, indiferentes e por vezes hostis. Mas isso não era novidade para os Alice in Chains. A banda já tinha enfrentado reacções semelhantes na tour Clash of the Titans, ao lado de Slayer, Megadeth e Anthrax. Na verdade, essa fricção ajudou a endurecer a banda, que aprendeu muito cedo a sobreviver em território hostil. E contudo, mesmo perante audiências gigantescas que muitas vezes não sabiam exactamente como reagir, conseguia impor-se. Talvez porque havia uma honestidade brutal na banda.

Mesmo antes da explosão definitiva do grunge, os Alice in Chains já soavam emocionalmente diferentes do resto do rock americano. Enquanto muitas bandas ainda celebravam fantasia e escapismo, eles pareciam interessados em falar de paranoia, isolamento, dependência e dor psicológica. Mas o mais fascinante é que os Van Halen nunca tentaram suavizar isso. Não lhes pediram para parecer mais acessíveis. Não os trataram como excentricidade alternativa. Não os reduziram à função de “banda trendy para abrir concertos”. Pelo contrário.

Receberam-nos no seu universo como iguais. E isso percebe-se em todas as histórias da digressão. Talvez o melhor exemplo dessa cumplicidade esteja nas famosas partidas entre bandas. Porque aquilo rapidamente se transformou numa guerra permanente de idiotice colectiva.

As Imortais Pranks

Os Alice in Chains começaram a invadir o palco dos Van Halen vestidos apenas com tangas, botas militares e poses absurdamente exageradas, gozando descaradamente com os clichés mais ridículos do hard rock de arena. Existem fotografias tão absurdas desse período que parecem screenshots de um delírio alcoólico colectivo. Mas o detalhe importante é este: os Van Halen adoravam aquilo.

Em vez de reagirem com ego ferido, responderam exactamente da mesma maneira. Durante os concertos dos Alice in Chains começaram a surgir strippers, membros da crew a interromper músicas, invasões de palco cuidadosamente planeadas e todo o tipo de sabotagem humorística. E honestamente? Há qualquer coisa profundamente reconfortante nestas histórias. Porque elas revelam uma realidade muito mais humana do que a narrativa histórica oficial do rock costuma admitir.

Na vida real, muitos daqueles músicos davam-se bem. Admiravam-se. Riam juntos. Partilhavam palcos. Partilhavam gear. Partilhavam obsessões musicais. A ideia de uma guerra absoluta entre “grunge” e “hair metal” funciona muito melhor como documentário retrospectivo do que como descrição fiel da realidade.

O Momento Exacto Antes de Tudo Mudar

Claro que, olhando retrospectivamente, existe inevitavelmente uma espécie de electricidade histórica naquelas datas. Porque 1991 acabaria por alterar completamente o mapa cultural do rock americano.

Poucos meses depois, Nevermind explodiria. Seattle transformar-se-ia num fenómeno global. O visual glam começaria a parecer antiquado quase da noite para o dia. E muitas bandas dos anos 80 reagiriam com ressentimento genuíno à mudança de paradigma. Mas durante aqueles meses específicos, nada disso parecia ainda definitivo.

Os Van Halen continuavam (e continuariam) gigantescos. Os Alice in Chains ainda eram underdogs estranhos. E Eddie Van Halen estava nos bastidores a ver Jerry Cantrell tocar riffs como um fã entusiasmado. Talvez seja precisamente essa inocência momentânea que torna a história tão bonita. Ainda não existia cinismo retrospectivo. Ainda não existiam documentários sobre “o fim do hair metal”. Ainda não existia a necessidade de transformar tudo numa batalha geracional.

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