Conan

Conan nas Mãos de Tartakovsky

Genndy Tartakovsky está oficialmente a desenvolver uma série animada de Conan, o Bárbaro. A expectativa para ver o maior personagem do sword & sorcery sob o prisma do criador de Samurai Jack e Primal é enorme.

A Cartoon Network Studios contactou a Heroic Signatures a propósito de uma série animada de Conan porque Genndy Tartakovsky lhes disse que queria fazê-la. O aclamado realizador de animação tentava concretizar o projecto desde 2007, vários anos antes de Primal sequer existir.

Uma série animada de Conan, o Bárbaro está agora em desenvolvimento para a Prime Video, com Tartakovsky como produtor executivo e showrunner, e Darrick Bachman, Fred Malmberg e Mark Wheeler como produtores executivos. A série será produzida pela Cartoon Network Studios e terá como base Queen of the Black Coast, de Robert E. Howard.

De acordo com o site oficial de Conan, esta é a história de como tudo se concretizou.

Dezoito Anos

Fred Malmberg, fundador da Heroic Signatures, sentou-se pela primeira vez com Tartakovsky para discutir um projecto de Conan em 2007. A ideia original era fazer um filme de animação em 2D. Isto aconteceu antes da revolução do streaming, antes de a animação para adultos ter verdadeira credibilidade comercial nos Estados Unidos. Apresentaram o projecto à Lionsgate, que na altura distribuía os filmes de animação da Marvel. Genndy estimou o orçamento em cerca de três milhões de dólares. O executivo da Lionsgate disse-lhes que o tecto para um filme de animação da Marvel era de quatrocentos mil dólares. E foi aí que terminou a conversa.

Teria sido fácil aceitar a resposta, reduzir a escala do projecto e fazer qualquer coisa barata e olvidável que permitisse simplesmente concretizar a ideia. Mas não o fizeram. Assim, durante a década e meia seguinte, o projecto manteve-se vivo como uma ambição que continuava a embater na mesma parede: o mercado norte-americano não acreditava que a animação para adultos pudesse suportar uma propriedade como Conan ao nível de qualidade que o material exigia.

O anime continuava a ser um fenómeno de nicho fora das comunidades de fãs dedicados, e o Adult Swim permanecia uma curiosidade televisiva nocturna, em vez de uma prova de conceito. A ideia de uma grande plataforma de streaming financiar uma série de animação violenta e emocionalmente complexa, adaptada da prosa original de Robert E. Howard, era — na linguagem dos executivos que continuavam a rejeitá-la — inviável.

Mas o mercado acabou por avançar. Os conteúdos internacionais legendados tornaram-se parte normal dos hábitos de consumo, o anime entrou no mainstream e Castlevania demonstrou que a animação ocidental para adultos podia sustentar uma narrativa serializada de prestígio. Depois, Primal colocou o nome de Tartakovsky no centro dessa mudança, e a indústria que em 2007 se recusara a financiar um filme de Conan de três milhões de dólares passou finalmente a ter apetite para aquilo que Malmberg e Tartakovsky vinham a propor.

Para quem não esteja familiarizado com o seu trabalho, Tartakovsky criou Dexter’s Laboratory e Samurai Jack para a Cartoon Network, sendo este último uma série vencedora de um Emmy sobre um espadachim solitário deslocado no tempo, que atravessa paisagens surreais com uma linguagem visual mais próxima de Kurosawa do que da televisão infantil de sábado de manhã. Realizou a série de animação original Star Wars: Clone Wars, dirigiu os três filmes de Hotel Transylvania e criou Primal, a saga sem diálogos vencedora de um Emmy que se tornou uma das séries de animação mais aclamadas pela crítica na última década.

Dito de forma simples, Tartakovsky é mesmo um nome de peso e talvez a pessoa mais bem posicionada para abordar uma personagem como Conan com a seriedade que ela merece.

A História Escolhida

A história que Genndy seleccionou para servir de base à primeira temporada não é uma das demonstrações de acção de Conan. É, provavelmente, a história emocionalmente mais exigente que Robert E. Howard alguma vez escreveu sobre a personagem — Queen of the Black Coast — e aquela que revela mais sobre quem Conan realmente é do que qualquer outra obra isolada do cânone.

A história começa num tribunal. Conan é levado perante um magistrado e ordenado a trair os seus companheiros. A sua resposta é uma rejeição das leis, que considera meros instrumentos dos poderosos, recusando reconhecer-lhes autoridade para as fazer cumprir. Quando tentam prendê-lo, abre caminho à força, matando, e acaba a bordo de um navio mercante que desce a costa. Logo nas primeiras páginas, Howard estabelece que Conan se rege por um código moral inteiramente criado por si próprio.

É nesse navio que Conan conhece Bêlit, a rainha pirata da Costa Negra. Marcos Cronander, Presidente da Heroic Signatures, identifica Bêlit como a personagem que Conan respeita sem reservas. A dinâmica que Howard escreveu entre os dois é a de dois predadores de topo que se reconhecem mutuamente e escolhem a parceria e o amor em vez da competição. Durante três anos, saqueiam e matam. Conan não é, segundo qualquer padrão moderno, um homem bom durante esse período. É um homem plenamente entregue à vida, a fazer exactamente aquilo que quer ao lado de alguém que lhe corresponde em todos os aspectos.

O núcleo filosófico da história surge nas conversas entre Conan e Bêlit a bordo do Tigress. Conan expõe a sua teologia de Crom, o deus dos Cimérios: Crom dá-te o sopro que tens nos pulmões e a força que tens nos braços quando nasces, e essa é a totalidade do seu presente. Não existe uma vida após a morte, nem qualquer favor a conquistar através da oração. O que fazes com aquilo que recebeste é apenas problema teu. É a janela mais completa para a vida interior de Conan que Howard alguma vez colocou no papel e reformula-o como um homem que vive de acordo com uma filosofia que exige nada menos do que um envolvimento total com o mundo.

Então, uma magia negra ameaça destruir tudo e um Conan endurecido pelas batalhas desafia deuses, destino e até a própria morte para a salvar. É fácil perceber porquê: nenhuma mulher alguma vez estivera à sua altura, até surgir uma que estava. Com isto, a grande alegria e a grande melancolia que as crónicas nemédias atribuem ao rei Conan podem ser facilmente entendidas como a medida exacta daquilo que Bêlit significa para ele e, naturalmente, Conan não aceitará perdê-la.

É uma tarefa de enorme exigência contar uma história com uma carga emocional tão forte para uma personagem tão famosa pela sua ferocidade, mas, se há alguém à altura do desafio, esse alguém é certamente Genndy. Em Primal, conseguiu transmitir emoções desta magnitude através da composição visual, das expressões faciais e da banda sonora, sem que as personagens principais alguma vez pronunciassem uma única palavra. É aquilo que Malmberg considera o seu talento definidor enquanto realizador e todos os fãs de Conan deverão ficar satisfeitos por saber que Genndy disse à Heroic Signatures que quer levar esse peso emocional para Conan.

Fiquem atentos a mais informações sobre a nova série de Conan de Genndy Tartakovsky!

A nova série de Conan de Genndy Tartakovsky está agora oficialmente em desenvolvimento activo para a Prime Video, com produção da Cartoon Network Studios. Embora ainda seja prematuro avançar uma data exacta de estreia, as sinopses e os guiões estão em desenvolvimento e o material criativo reunido até ao momento é, segundo todos os relatos, excepcional.

O Conan que Genndy Tartakovsky está a construir é aquele que Robert E. Howard escreveu e que todos os fãs do cimério têm desejado ver, há anos, em qualquer ecrã onde possam fazer streaming.

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