Mike Portnoy Disseca a Genialidade de Bonham

Greg Prato escreveu “apenas” mais um livro, entre os muitos que existem, sobre John Bonham. O interessante é tê-lo feito a partir de longas conversas sobre Bonzo, com 30 dos melhores bateristas da actualidade. Aqui traduzimos um excerto do capítulo de Mike Portnoy.

Editado em 2020, o livro de Greg Prato, “BONZO: 30 Rock Drummers Remember the Legendary John Bonham” faz exactamente o que o título promete e fala com alguns dos melhores bateristas de música rock sobre aquele que, para muitos, é o melhor de todos os tempos, John Bonham. Entre os entrevistados encontram-se craques como Lee Kerslake, Herman Rarebell, Charlie Benante, Frankie Banali, Corky Laing, Simon Wright e Greg Bissonette. Neste excerto do livro, cuja compra vale a pena considerar, Mike Portnoy explica porque é que John Bonham era único…

«Havia tantas coisas. Primeiro de tudo, o som. Ele tinha um som dele. Sempre que as pessoas falam de John Bonham, questionam-se: “Oh, como é que eles micavam as baterias?” ou “Que tipo de bateria é que ele usava?” ou “Que tipo de baquetas é que ele usava?”. Não acredito que a bateria ou a forma como era micada tenham tido alguma coisa a ver com isso. Penso que tiveram um pouco, mas [esse som] era o que estava no corpo de e nas mãos do John. Era a forma como ele tocava.

Penso que, provavelmente, poder-se-ia sentá-lo em qualquer kit, em qualquer ambiente, e soaria como John Bonham. E isso é determinante para qualquer grande músico – quando consegues o teu próprio som e estilo. Ele tinha esse som. Ele tinha aquele groove. Ele era como uma âncora firme e podia-se sentir aquele bombo e podia-se sentir o groove do prato choque e da tarola. Por vezes, era enorme. Ouves o início de “When The Levee Breaks” – que é simplesmente a maior introdução de bateria de todos os tempos. E depois ouves também estas subtilezas – o groove em “Fool In the Rain”. Ele também sabia tocar com delicadeza e subtileza.

Portanto, penso que era a combinação desses dois extremos. E ele também tinha um grande ouvido para improvisação e jamming. Ouvindo qualquer gravação ao vivo dos Zeppelin – quer se tratem de coisas oficiais, como “The Song Remains The Same” ou “How The West Was Won”, ou até alguns bootlegs- ele tocou cada canção e cada espectáculo de forma completamente diferente. Penso que uma grande parte disso se deva ao facto de eles se ouvirem uns aos outros. Consegue-se sempre perceber que Bonham estava a ouvir o que o rodeava e a reagir a isso. Penso que essa era uma grande parte da química e magia dos Zeppelin.

“Moby Dick” era a “canção de bateria” quintessencial. Lembro-me de ver o filme “The Song Remains The Same” pela primeira vez. Lembro-me de quando saiu – era preciso ir à última sessão de um cinema, ao Sábado, para o ver. Nunca foi exibido na televisão e, nessa altura, não tínhamos VHS sequer. A forma que arranjei para ver, pela primeira vez, “The Song Remains The Same” foi – acreditem ou não – quando a minha biblioteca local o exibiu. E o que se destacou para mim, aquilo que recordo sempre, foi “Moby Dick”.

Aqui está, no meio deste filme de um concerto uma canção com um solo de bateria de 20 minutos. Eles fazem os primeiros 16 compassos de “Moby Dick” como uma banda, depois saem do palco e Bonham começa o seu solo. Aparece este paquidérmico solo de bateria. E, muitas vezes, os solos de bateria são um momento em que toda a gente aproveita para ir à casa de banho. Mas quando Bonham solava, as pessoas ficavam cativadas.

Era como embarcar numa viagem musical ou ter uma viagem de ácido – a forma como ele flanqueia os tambores e a forma como atirava fora as suas baquetas e tocava com as mãos. Ele tinha um estilo vincado e penso que Moby Dick era a sua obra de autor. E, para mim, esse foi o momento em “The Song Remains The Same” que sempre se destacou do filme.

“When The Levee Breaks” é Bonham clássico. O início e o fim de “Rock And Roll” – começa com uma das mais famosas intros de bateria de sempre e termina com um dos maiores solos de bateria de sempre. É outra perfeita. Obviamente, “Moby Dick”. “Black Dog”, porque mostra quão incrivelmente criativo ele era. Não se percebe o quão complicado é esse riff, até se tentar realmente descobrir o que diabo está a bateria a fazer. Portanto, os grooves dentro dessa canção são absolutamente brilhantes. “Kashmir” é um groove autêntico de Bonham. Mas há tantos – posso literalmente percorrer todo o catálogo e cada canção serve para mim.

Algo que só me apercebi anos mais tarde: o John tinha uma boa voz para cantar, como se vê e ouve nas imagens de “Bron-Y-Aur Stomp”, nas filmagens de Earls Court em ’75. Ele era o segundo cantor em Zeppelin. O Jimmy Page e o John Paul Jones nunca cantaram – foi sempre o Bonham, o que muitas pessoas não se apercebem».

Este artigo é uma tradução livre do livro, já à venda, de Greg Prato, “BONZO: 30 Rock Drummers Remember the Legendary John Bonham”. A foto que ilustra o cabeçalho é de Michael Zagaris.

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