“Under a Black Sun” solidifica a maturidade dos Miss Lava, com cada canção a contribuir para uma experiência auditiva poderosa e multifacetada dos stoners lusos que, uma vez mais, se reinventaram física e espiritualmente.
Após um hiato discográfico de quatro anos (interrompido com o tributo a Soundgarden), os Miss Lava regressam com o seu quinto álbum de estúdio, “Under a Black Sun”, um lançamento que não só celebra duas décadas de carreira, mas também marca uma evolução significativa na sonoridade da banda portuguesa. O primeiro registo com o baterista Pedro Gonçalves, é apontado pelos próprios como o seu trabalho mais pesado e sombrio até à data, este disco é um testemunho da maturidade, confiança e profundidade que os Miss Lava alcançaram.
“Under a Black Sun” congrega onze malhas, totalizando quase uma horas de uma sonoridade refinada e composições intrincadas. Um disco potencialmente longo, mas cuja escuta se sente vertiginosa, com as raízes da banda no underground lisboeta bem evidentes, mas transcendidas numa mudança notável em direcção a um som, mais sombrio e introspectivo. Menos explosivo, mas com pirotecnia de sobra.
Para o guitarrista K. Raffah, este lançamento representa um «círculo completo» para a banda, enquanto o vocalista Johnny Lee descreve o álbum como «muito intenso», explicando que as suas experiências de vida os levaram a aprofundar-se em assuntos mais sombrios, explorando novos territórios musicais e líricos. A já referida entrada do baterista Pedro Gonçalves tem que ser destacada como um factor que adicionou um peso extra ao som da banda, e Miguel “Veg” Marques (que também gravou os Miss Lava) contribuiu com os teclados em várias malhas, enriquecendo os ritmos espaciais e cósmicos do álbum.
E ainda assim, apesar desta arquitectura bem delineada, “Under a Black Sun” sente-se orgânico e colaborativo, pressentindo-se a espontaneidade de uma banda a trabalhar, de forma coesa, em cima de ensaios, de jams, de riffs ou beats surgidos em soundchecks. “Dark Tomb Nebula” serve como uma introdução atmosférica e envolvente. Um contemplativo e poderoso manifesto de intenções, melancólico, com elementos de doom, prog e psicadelismo e um final que mostra a banda a rasgar com espartilhos idiossincráticos.
A meio do disco, pode desvendar-se o seu núcleo artístico, “Woe Warrior” quase soa como um cântico de um ritual xamânico. A incorporar elementos atmosféricos de um modo que os Miss Lava nunca tinham feito até aqui, revelando uma capacidade de criação de camadas de profundidade mesmo nas suas composições mais imediatas.
Logo de seguida, “The Bends” e a sua reverência às raízes clássicas do rock e do stoner, enquanto as integra na sonoridade contemporânea dos Miss Lava. E depois a filosófica “Fear In Overdrive”, com contrastes dinâmicos cheios de mestria e um som aberto, espaçoso e orgânico, a acomodar perfeitamente os expansivos efeitos vocais usados por Johnny Lee.
No final de tudo, o tema-título e o segundo single, “Under a Black Sun” é central para a identidade do álbum. Apesar de ter sido a última a ser composta, surgiu de forma a partir de uma jam em afinação Drop A#, onde a banda começou a brincar com um strumming inicial. Um dos pontos altos é a parte final em uníssono dos elementos instrumentais numa uma secção cheia de pocket e octavers, cristalizando a essência actual dos Miss Lava e deste disco.
