Orchid, o primeiro álbum dos Opeth, explorado faixa a faixa através das suas origens, demos, influências e histórias de estúdio que revelam a formação do som extremo e progressivo da banda sueca.
Quando os Opeth lançaram Orchid, em 1995, poucos poderiam prever aquilo em que a banda se tornaria. O disco não teve impacto imediato no underground europeu comparável ao de alguns contemporâneos escandinavos, nem nasceu particularmente bem-amparado por uma máquina promocional forte. Mas havia algo ali. Uma estranha combinação entre death metal, melancolia acústica, ambiência progressiva e romantismo negro que parecia existir fora do tempo.
Orchid não soava exactamente a death metal sueco, nem a black metal norueguês, nem a prog rock setentista — embora fosse claramente alimentado por todos esses universos. Muito antes de Mikael Åkerfeldt se tornar uma das figuras mais reverenciadas do metal progressivo, Orchid documentava uma banda ainda em mutação, absorvendo influências, experimentando estruturas gigantescas e tentando transformar o death metal em algo mais atmosférico, emocional e narrativo.
Cada uma das canções de Orchid é um micro universo e encerra em si a sua própria história e desafios singulares que a banda enfrentou. Uma história que vale a pena revisitar, assim mesmo, canção a canção, partindo de um estudo oficioso no Reddit dos Opeth (abre link).





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“In Mist She Was Standing” abre o álbum de forma monumental. Curiosamente, foi uma das últimas canções escritas antes da entrada da banda em estúdio e uma das raras composições do disco sem versões embrionárias anteriores em demos ou ensaios. A decisão de a colocar como faixa inaugural partiu de Peter Lindgren, que acreditava tratar-se de uma abertura perfeita para concertos.
Liricamente, a música nasce de um pesadelo e inspira-se directamente no romance The Woman in Black, de Susan Hill, publicado em 1983. A atmosfera fantasmagórica da obra — centrada numa vila inglesa assombrada — encaixava perfeitamente no imaginário sombrio que os Opeth vespertinos procuravam criar.
Antes das gravações de Orchid, a banda chegou inclusivamente a compor uma continuação directa da faixa intitulada “Once Shadows Ablaze”, que serviria como extensão do longo final de “In Mist She Was Standing”. A canção acabou por nunca ser lançada oficialmente, sobrevivendo apenas em raríssimas rehearsal tapes do início dos anos 90. Partes ainda mais antigas da composição remontam a “Soul Torture”, escrita por Mikael e David Isberg em 1992, posteriormente transformada em “Eternal Soul Torture”. Alguns desses riffs e secções acabariam reciclados tanto aqui como em “Advent”, já no álbum seguinte.
As sessões de gravação foram igualmente caóticas. Mikael esqueceu-se do caderno com as letras em casa, obrigando a banda a regressar para o ir buscar — apenas para acabar por reescrever tudo no estúdio.
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“Under the Weeping Moon” representa talvez o momento mais assumidamente black metal de Orchid. Afinal, os Opeth nasceram originalmente em torno da ideia de David Isberg criar «a banda mais maléfica do mundo». O primeiro logótipo do grupo incluía mesmo uma cruz invertida (galeria em cima) e uma estética profundamente satânica, algo que impressionou imediatamente o jovem Mikael Åkerfeldt quando entrou para a banda.
As letras obscuras e os cânticos demoníacos da música foram escritos exclusivamente por Mikael, que mais tarde descreveria tudo isto com algum humor como «puro nonsense black metal». Mesmo antes dos Opeth, já compunha temas com títulos como “Condemned to Hell” ou “Dimensions of Devastated”. Apesar da temática quase caricaturalmente ocultista, a canção revela já algo mais sofisticado musicalmente. Mikael continua a descrevê-la como uma das suas favoritas do álbum, elogiando particularmente a secção intermédia fortemente inspirada por bandas progressivas como Jethro Tull e Wishbone Ash.
A faixa não foi gravada com click-track, algo que o próprio Mikael admite hoje ouvir claramente nas oscilações de andamento.
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Depois da violência e grandiosidade das duas primeiras composições de Orchid surge “Silhouette”, breve instrumental de piano gravado literalmente poucas horas antes da banda abandonar o estúdio. O responsável pela peça foi o baterista Anders Nordin, surpreendendo até o produtor Dan Swanö, ele próprio um pianista experiente, que inicialmente recusava acreditar que um baterista de death metal pudesse tocar daquela forma. Muitos fãs chegaram inclusivamente a pensar que o instrumental havia sido interpretado por um dos pais dos músicos.
O baixista Johan DeFarfalla chegou a sugerir que a peça fosse gravada numa igreja real, utilizando um grande órgão e microfones apropriados para capturar a ambiência correcta. É também a única malha de Orchid em cuja composição Mikael não participou.
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“Forest of October” possui raízes ainda mais antigas na pré-história dos Opeth. Em finais de 1990, Mikael escreveu “Requiem of Lost Souls”, enquanto David Isberg compunha “Mystique of the Baphomet”, posteriormente transformada em “Mark of the Damned”. Ambas continham secções que acabariam absorvidas por esta composição.
Antes do título definitivo em Orchid, a música chamava-se “The Forsaken Lands of Spirits”, nome sob o qual foi inclusivamente apresentada ao vivo em 1993. As letras não obedecem propriamente a uma narrativa específica; Mikael escreveu-as sobretudo para acompanharem o ambiente instrumental da música.
As gravações também ficaram marcadas por episódios quase lendários. Anders Nordin conseguiu gravar metade da bateria numa única take, mas falhava constantemente um drum roll específico. Após várias tentativas frustradas, Dan Swanö perdeu a paciência e disse-lhe: «Não temos mais tempo. O que fizeres agora fica no CD».
Peter Lindgren viveu situação semelhante com o solo. Pediu apenas uma passagem de teste antes da gravação “oficial” — e executou-o de forma perfeita. Furioso por não estar registado, lamentou nunca mais o conseguir repetir daquela forma. O que ele não sabia era que Dan Swanö gravava secretamente todos os testes precisamente para evitar situações dessas.
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“The Twilight Is My Robe” nasceu inicialmente como “Oath”, em finais de 1992, com uma temática explicitamente satânica — uma espécie de juramento ao próprio Diabo. O nome mudaria depois para “Under The Elder Oath”, antes da composição ser profundamente retrabalhada em 1993 e assumir finalmente o título definitivo em Orchid. Quando a banda ensaiava a música ao vivo, utilizava frequentemente uma introdução instrumental chamada simplesmente “Intro”. Grande parte desse material acabaria mais tarde integrado em “Black Rose Immortal”, de Morningrise.
Mikael admite também que parte da canção é uma apropriação descarada de “Fly to the Rainbow”, dos Scorpions. Ainda hoje continua profundamente crítico da própria voz limpa nesta faixa, considerando-a tímida, insegura e pouco convincente — algo curioso, sabendo-se aquilo em que os seus clean vocals se tornariam décadas mais tarde.
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“Requiem” deveria originalmente incluir duas partes acústicas distintas. Contudo, um erro durante a masterização de Orchid fez com que a segunda metade fosse parar inadvertidamente ao início de “The Apostle in Triumph”. A gravação da malha decorreu fora do estúdio principal, com ajuda de Pontus Norgren, actualmente conhecido pelo seu trabalho nos HammerFall.
Longe dos tempos de assinaturas de edição limitada com a Martin Guitars, Mikael utilizou uma guitarra acústica espanhola “Trameleuc” emprestada pela sua loja local de instrumentos — um modelo que sempre desejara experimentar. Johan gravou baixo acústico, enquanto Anders acrescentou tablas. Curiosamente, esta é a única música dos Opeth em cuja composição participaram todos os membros da banda.
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O encerramento monumental de Orchid chega com “The Apostle in Triumph”, composição crucial na própria história dos Opeth. Após um dos primeiros concertos da banda, Jonas Renkse, dos Katatonia, aproximou-se de Mikael para lhe dizer o quanto adorava o som da banda. Jonas tinha conseguido uma rehearsal tape de Opeth através do circuito underground de tape-trading escandinavo.
Mais tarde, através das suas trocas com membros dos Emperor, essa demo acabaria nas mãos de Samoth, que compilou uma cassete de bandas underground para enviar a Lee Barrett, fundador da Candlelight Records. No final da compilação encontravam-se apenas alguns segundos de “The Apostle in Triumph”. Foram suficientes. Lee Barrett ouviu a cassete inteira e os únicos momentos que realmente lhe chamaram a atenção foram precisamente esses segundos finais dos Opeth. Inicialmente propôs editar apenas um EP. Dias depois voltou a contactar Mikael: mudara de ideias. Queria um álbum completo.
A música tornar-se-ia rapidamente favorita dos fãs nas actuações ao vivo. Johan DeFarfalla fazia inclusivamente vozes de apoio em palco. Após a sua saída, a banda tocou-a apenas uma vez com Martín Méndez antes de a abandonar definitivamente dos alinhamentos.
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A reedição de Orchid inclui ainda “Into the Frost of Winter”, composição originalmente escrita por Mikael em 1991 sob o título “Poise Into Celeano”. Foi, segundo o próprio, a primeira canção verdadeiramente “Opethiana”: guitarras limpas misturadas com distorção pesada, growls profundos e estruturas longas e atmosféricas. A versão incluída na reedição provém de uma rehearsal tape de 1993 com Stefan Guteklint no baixo, e várias das suas ideias acabariam recicladas mais tarde em “Advent”, no álbum Morningrise.
O impacto de Orchid no underground sueco foi silencioso mas profundo. Muitas bandas gravavam os seus álbuns de estreia nos estúdios Unisound com Dan Swanö, incluindo os Unanimated. Inicialmente, alguns músicos viam Opeth quase como uma banda anedótica devido aos seus concertos desastrosos. Mas quando Swanö mostrou excertos de Orchid aos membros de Unanimated, estes ficaram tão impressionados com o nível de composição que decidiram reunir-se para discutir seriamente a necessidade de elevarem os próprios padrões criativos.
Talvez isso diga tudo sobre Orchid. O álbum ainda estava longe da sofisticação emocional de Still Life ou Blackwater Park, mas já continha praticamente todas as sementes daquilo em que os Opeth se tornariam: romantismo sombrio, death metal atmosférico, ambição progressiva e uma recusa quase teimosa em soar como qualquer outra banda da época.
E há um detalhe final que resume perfeitamente o espírito destas gravações: durante quase todo o processo, Mikael insistiu que a única fonte de luz dentro do estúdio fossem velas. Não por teatralidade barata, mas porque acreditava genuinamente que a música precisava daquela atmosfera para existir.
