Ao Vivo no Johnny Guitar, de Palma’s Gang, documenta uma Lisboa nocturna de liberdade, jam sessions e pequenos clubes, antes da ascensão de Jorge Palma ao mainstream, da especulação imobiliária e do desaparecimento de espaços como o Johnny Guitar.
Em 1991, Jorge Palma gravou Só, um disco em que a voz e o piano ficaram praticamente sozinhos perante um cancioneiro que já tinha duas décadas de existência. Dois anos depois, voltou a algumas dessas canções acompanhado por uma formação que reunia músicos dos Xutos & Pontapés e dos Rádio Macau, num projecto nascido das noites passadas no Johnny Guitar. Ao Vivo no Johnny Guitar, editado em 1993, documenta esse encontro e conserva uma particularidade que continua a torná-lo interessante dentro da discografia de Palma: as canções são suficientemente fortes para suportar uma transformação profunda sem deixarem de ser reconhecíveis.
O Johnny Guitar era, nas palavras de Palma ao Observador, a sua «casa à noite». Frequentava-o regularmente, via ali «bandas alternativas, punks e neo-punks» e participava nas jam sessions que faziam parte da vida daquele espaço. A história do PALMA’S GANG nasceu precisamente nesse ambiente, entre músicos que já se conheciam, instrumentos que estavam à mão e a possibilidade de experimentar sem grande cerimónia. A própria origem do projecto permanecia algo difusa na memória de Palma: não sabia já se a ideia partira de Alex Cortez ou do saudoso Zé Pedro, suspeitando que terá sido «um pouco de todos». A proposta, essa, era simples: «Palma, e que tal visitar as tuas canções num formato rock and roll?»
Fizeram algumas jams, começaram a atacar músicas de Jorge Palma e perceberam que aquilo resultava. Depois vieram os pormenores: duas noites e uma tarde a tocar e gravar, três dias no total, aproveitando o melhor das diferentes interpretações. Palma resume o processo numa frase que vale mais do que qualquer reconstrução posterior: «E foi uma loucura».
É difícil imaginar um cenário mais adequado para esse tipo de experiência do que o Johnny Guitar da no 72 da Calçada Marquês de Abrantes, um daqueles lugares que tiveram uma importância muito maior para a música portuguesa do que a sua dimensão física faria supor. um daqueles lugares que tiveram uma importância muito maior para a música portuguesa do que a sua dimensão física faria supor. Era, formalmente, um clube, mas a palavra quase não chega para explicar o que aquele espaço significava.
A sala era pequena, o palco era pequeno e a lotação rondaria as cem pessoas, se tanto; em noites mais apertadas, porém, parecia receber perto de duzentas. Não era preciso grande imaginação para perceber o que isso significava quando uma banda entrava em palco com bateria, baixo e várias guitarras ligadas. O som não tinha grande possibilidade de se manter à distância, muito menos de ser domesticado. Ao Vivo no Johnny Guitar não tem aquela sensação de gravação polida.
Há ali pouco ar. As guitarras cruzam-se, a bateria aparece em cima da sala, o baixo empurra o conjunto e a voz de Palma está metida no meio daquela massa sonora. A gravação não tenta limpar completamente essa proximidade. Pelo contrário, é precisamente essa matéria bruta que lhe dá personalidade.
A formação do Palma’s Gang também ajuda a explicar o resultado. Palma está acompanhado por Zé Pedro e Flak nas guitarras, Alex Cortez no baixo e Kalú na bateria, e a diferença entre eles não desaparece dentro de um arranjo demasiado uniforme. Há guitarras que ocupam mais espaço, outras que recuam, uma secção rítmica que mantém tudo preso ao chão e, por cima disso, a voz e a escrita de Palma. Não parece uma banda montada para reproduzir canções previamente fechadas; parece um grupo que recebeu aquelas canções como matéria-prima.
“Portugal, Portugal” é uma escolha particularmente eficaz para abrir o alinhamento. A canção entra logo dentro dessa lógica, com as guitarras a reforçarem a tensão que já existia na composição. A dimensão política não precisa de ser sublinhada por uma interpretação teatral; está na própria forma como a banda a empurra. O baixo e a bateria dão-lhe peso, enquanto as guitarras deixam a canção mais áspera, menos preocupada com elegância. O mesmo acontece em “Eles Já Estão Fartos”, “Poema Filipão”, “O Velho No Jardim” e “Razão de Estado”. São canções com uma identidade própria, mas a banda não as trata como peças intocáveis.
“Razão de Estado” ganha uma violência particularmente interessante porque os instrumentos passam a participar na tensão da composição. A guitarra não está simplesmente a preencher espaço entre versos; o baixo e a bateria não estão ali apenas para marcar o tempo. O arranjo torna-se parte daquilo que a canção está a dizer. É também aqui que a formação do Palma’s Gang começa a fazer sentido para lá dos nomes conhecidos que aparecem na ficha técnica. Zé Pedro e Flak não desempenham exactamente a mesma função, Alex Cortez e Kalú seguram a banda com uma solidez que permite aos restantes músicos mexerem-se e Palma não precisa de estar constantemente no centro da música.
Há momentos em que a banda parece avançar sozinha, outros em que a voz volta a organizar tudo e outros em que as guitarras criam uma espécie de ruído de fundo permanente. Num espaço tão pequeno, essa dinâmica devia ser tão física quanto musical. “Deixa-me Rir” ganha com isso. A canção já tinha o seu lugar no repertório de Palma, mas aqui aparece com uma energia mais directa, sem que seja necessário reconstruí-la de raiz. “Lobo Malvado” segue uma lógica semelhante, enquanto “O Homem Invisível” e “Cara d’Anjo Mau” mostram uma banda que parece estar menos interessada em produzir versões definitivas do que em perceber o que aquelas músicas permitem fazer naquela noite.
“Picado pelas Abelhas” é talvez um dos momentos em que isso se torna mais evidente. Há uma tensão permanente no arranjo, uma espécie de movimento que parece poder desviar-se a qualquer altura. Não porque os músicos estejam a perder o controlo, mas porque existe espaço para a canção respirar de outra maneira. É uma diferença importante. O Palma’s Gang não procura simplesmente tocar mais alto; procura encontrar o ponto em que o repertório de Palma aguenta ser puxado, torcido e apertado sem partir.
E há “Bairro do Amor”, que permite perceber como uma mesma canção pode mudar completamente de temperatura sem perder a identidade. Aqui possui uma leitura mais aberta, mais física e, com menos arranjos, Palma soa mais a Dylan, sozinho com a guitarra.
Não se trata de escolher entre versões. É justamente a coexistência das duas que torna a experiência interessante. Palma viria a descrever Só e Ao Vivo no Johnny Guitar como discos complementares, dizendo que um era «um recital» e o outro «um speed». A formulação é jocosa, mas acerta na diferença de temperatura.
No Johnny Guitar, as canções estão metidas numa situação em que há muito menos espaço para contemplação. Há músicos a tocar uns ao lado dos outros, público encostado ao palco, amplificadores a debitar som e uma sala pequena a absorver aquilo tudo. Algumas canções beneficiam directamente da electricidade, outras ficam mais nervosas, outras revelam uma faceta que poderia passar despercebida noutra configuração – caso claríssimo de “Minha Senhora da Solidão”, um dos outtakes.
A gravação conserva tudo isso. Não tem a distância de uma produção de estúdio nem a sensação de um concerto reconstruído depois com overdubs e correcções até deixar de parecer um concerto. Há uma aspereza natural no som, uma certa saturação e uma proximidade que fazem parte da experiência. É um disco que parece ter sido gravado onde estava a acontecer, e não num estúdio a tentar fingir que era ali. Essa crueza não deve ser confundida com desleixo.
Há uma diferença entre deixar uma gravação respirar e simplesmente gravar mal. O que interessa em Ao Vivo no Johnny Guitar é que se ouve a banda a trabalhar como banda, com as pequenas colisões entre instrumentos e a sensação de que ninguém está muito interessado em tornar aquilo mais comportado do que era naquela sala.
O próprio Palma lembrava aquele período como «rock and roll» sem hesitação e descrevia a gravação como três dias em que se aproveitou o melhor de cada interpretação. É uma explicação suficientemente simples. Não há necessidade de construir uma mitologia à volta do disco quando a própria origem já é suficientemente boa: músicos que frequentavam o mesmo lugar, jams, canções que começam a ser experimentadas em conjunto e uma gravação feita depressa, aproveitando aquilo que acontecia quando a banda acertava.
Ao Vivo no Johnny Guitar não soa a projecto de estúdio. Soa a coisa que aconteceu. O repertório estava feito, os músicos sabiam tocar, o espaço era pequeno e havia uma banda com vontade de ver até onde aquelas canções podiam ir.
No Johnny Guitar, aquelas músicas tiveram de caber numa sala onde mal havia espaço para cem pessoas — e, quando entravam mais, já ninguém se lembrava muito bem onde começava o palco e acabava o público. Ao Vivo no Johnny Guitar conserva precisamente essa falta de espaço. As guitarras estão demasiado perto, a bateria está demasiado perto, a voz está demasiado perto e o público está ali, dentro do som. É um disco de 1993, mas as canções continuam a aguentar o embate, as guitarras continuam a procurar espaço umas entre as outras e aquela pequena sala parece, de alguma maneira, muito maior do que era…
O Fim da Lisboa Rocker
O Palma’s Gang nasceu num momento em que ainda era possível uma banda destas nascer quase por acidente. Bastavam músicos que se conheciam, um clube pequeno, algumas noites de jam e a vontade de ver o que acontecia quando se juntavam. O Johnny Guitar era parte dessa equação, tanto quanto Zé Pedro, Flak, Alex Cortez, Kalú ou as próprias canções de Palma. Não era apenas o sítio onde o disco foi gravado; era o tipo de lugar que tornava possível um disco destes existir.
Depois, naturalmente, veio a glória. Palma tornou-se uma figura cada vez mais reconhecida, os concertos ganharam outras dimensões e aquela Lisboa dos pequenos clubes foi sendo empurrada para fora do mapa. O Johnny Guitar desapareceu, como desapareceram tantos outros lugares onde a música acontecia sem precisar de uma grande operação à sua volta. A cidade mudou, os edifícios mudaram de donos e de função, e a noite passou a obedecer a outras regras. Talvez seja esse o pequeno paradoxo escondido no título: Ao Vivo no Johnny Guitar regista uma liberdade que ainda não sabia que estava de saída.
Não porque Jorge Palma estivesse a caminho de perder a sua liberdade artística — muito pelo contrário — mas porque o mundo que permitia àquelas cinco pessoas juntarem-se numa sala minúscula, ligarem os amplificadores e gravarem um disco assim não ficou intacto. “Portugal, Portugal” abre o álbum como uma canção sobre um país que também vive dessa contradição entre aquilo que é e aquilo que promete ser. O Palma’s Gang encontrou-o numa sala exígua da Calçada Marquês de Abrantes.
Hoje podemos ouvir a gravação e imaginar aquele espaço cheio, as guitarras a bater umas nas outras, Kalú a carregar na bateria, Alex Cortez a segurar o baixo, Zé Pedro e Flak a abrirem espaço para Palma. O Johnny Guitar já não está lá. O disco está.


