“Cremation Pyre”, o álbum de estreia dos Phenocryst, confirma todas as expectativas geradas pelo EP de 2021. Uma vez mais com o selo da Blood Harvest, este álbum coloca-nos a contemplar o abismo, um poço de arrasador fogo vulcânico.
Os Phenocryst foram formados no início de 2020, nos arredores de Lisboa, apontando logo à construção do EP de estreia, o brutal “Explosions” [review completa na nossa plataforma]. Inspirados pelas forças destructivas e aniquiladoras da Natureza, os Phenocryst procuraram criar um som death metal infundido com elementos doom e até algum psicadelismo. O seu conteúdo lírico centra-se em desastres vulcânicos e naturais, um tema único raramente explorado na música e cuja designação da banda reflecte perfeitamente.
“Explosions” lançado pela Blood Harvest no final de 2021, e aclamado em vários pontos geográficos. O EP mostrou a capacidade da banda de criar uma atmosfera sobrenatural de morte e delírio. Serviu como uma base sólida para o seu trabalho subsequente. Podem não haver muitas palavras para falar sobre um EP com cerca de 23 minutos, mas muita coisa pode ser dita – mérito absoluto da banda que se estreou com uma tocante devoção aos parâmentros mais clássicos e underground do death metal. “Explosions” é fascinante desde o primeiro contacto auditivo. Tudo está bem escrito, bem tocado e bem concretizado.
E tal como no EP, “Cremation Pyre”, o primeiro álbum dos Phenocryst, é preenchido por uma colecção de malhões pesados, densos e possuidores de uma certa lisergia nas repetições extraídas ao death/doom do início da década de 90. Há malevolência, agressividade e melodia, numa combinação de dinamismo notável. A atmosfera de cada uma das canções é densamente sinistra e opressiva e o peso das guitarras e dos vocalizos é barbárico, esse é o sentido primordial de um disco onde os músicos não deixam de demonstrar bastante consistência técnica, fluidez e entrosamento, com destaque para o caloroso e orgânico som das baterias e propulsividade do baterista.
Com uma formação reconfigurada e um renovado sentido de confiança, o título do álbum é um reflexo adequado do seu conteúdo sonoro: sombrio, mas furioso, transportador de pavor e austeridade inexorável. “Cremation Pyre” é um álbum de enorme profundidade, portentoso e espaçoso que mistura o death metal tradicional com elementos cósmicos. Assim que soam as primeiras notas de “Pinnacle Of Death”, somos atirados para o abismo, com este a olhar-nos de volta. Apesar de tudo, há um certo groove rocker no tema. É no seguinte “Astonishing Devastation” que nos afundamos no cavernoso submundo do OSDM.
Para nos cingirmos a referências, entramos numa ampla e reverberante caverna de death/doom onde ecoa o poder prímevo de “Lost Paradise”, misturado com algo das guitarras de Trey Azagthoth nos Morbid Angel e o poder avassalador dos Bolt Thrower. Também poderão reconhecer magma oriundo dos Incantation. Isto equivale a dizer que os Phenocryst não são propriamente pioneiros na mistura que fazem do doom e do death metal, no entanto é raro ouvir-se esse composto alquímico tão perfeitamente equilibrado.
A primeira metade do álbum apresenta riffs pesados e uma produção mais abrasiva, a segunda metade mergulha num reino mais sobrenatural e expansivo. Aí, os Phenocryst incorporam elementos melódicos de maior subtileza e uma atmosfera miasmática de enorme densidade, criando uma experiência de audição única e cativante. Ainda a salientar os tremendos constrastes criados pelo solidez midtempo da percussão e o poço de fogo que são os riffs da banda.
As baterias foram gravadas por Artur Pacheco (Enlighten, Prayers Of Sanity) no ROK Solid Productions, debaixo da supervisão de Tião Costa. O grosso das partes instrumentais e vozes foi gravado no The Pentagon Audio Manufacturers, com a produção do Fernando Matias, que também misturou e masterizou o trabalho. Tal como o seu EP de estreia, o primeiro álbum dos Phenocryst é uma edição Blood Harvest.

Um pensamento sobre “Phenocryst, Cremation Pyre”