Riot

Riot, Trovoada de Aço em Lisboa

A estreia dos históricos Riot em Portugal redundou num tremendo concerto de heavy metal, fruto de uma banda composta por músicos de elite e um público inexcedível.

Será sempre um acontecimento, a estreia de uma banda em Portugal com os mesmos anos de existência, que nós temos de democracia. Mesmo que essa banda, no grande esquema da música contemporânea, seja só um colectivo de heavy metal tradicional. Os Riot nem são dos mais relevantes no género, nem sequer têm um género homogéneo, mas cinco décadas de rock ‘n’ roll e quinze álbuns de estúdio é um acervo de respeito para qualquer entidade musical.

E depois – e, acima de tudo – temos “Thundersteel”, o álbum de 1988, incontornavelmente associado ao grupo nova-iorquino e aos seus concertos, como se viu esta semana no RCA Club, em Lisboa. Na verdade, haverá poucas bandas para quem um disco é tão perpendicular como Riot, ou Riot V, como se auto-denominam desde há uns anos. Desde, sobretudo, a morte de Mark Reale, que esta não é a mesma banda. Mas só na teoria. Para quem não conheça, se ouvir hoje um grupo em que nenhum dos seus actuais integrantes fez parte dos primeiros dez anos de existência (!) dirá que, na melhor das hipóteses, falamos de uma banda de covers. Entendam-no assim, se quiserem.

O músico mais antigo dos actuais Riot é Don Van Stavern, baixista que se estreou justamente no álbum “Thundersteel”, gravou “The Privilege Of Power” e, depois, esteve mais dezoito anos fora do grupo. Na ordem de maioridade vem, a seguir, o guitarrista Mike Flyntz que só começou a gravar com a banda em 1993. Ninguém desta gente – e muito menos o vocalista Todd Michael Hall (adicionado em 2013) e o guitarrista e o baterista de sessão, que ali estiveram – puseram um pé nas gravações de álbuns importantes como “Rock City”, “Narita” ou “Fire Down Under”.

Os Riot V podem ser vistos como uma banda de versões de grande parte do catálogo dos Riot, mas, na prática, não é o que se passa. Não foi o que se passou na estreia desta entidade hard ‘n’ heavy no nosso país, para gáudio de quem compareceu à chamada, numa sala bem composta a uma quarta-feira.

Antes da NWOBHM e Depois do Power Metal

“Hail To The Warriors” deu o mote de afirmação inicial dos contemporâneos Riot, tema do disco “Mean Streets”, lançado em Maio deste ano. Mas como esta não era exactamente uma data de promoção a um qualquer novo registo, mas sim uma espécie de setlist Best of, somos logo a seguir brindados com “Fight Or Fall”, um dos seis temas que ouviríamos de “Thundersteel”. O som está bom, a secção rítmica bem audível, o vocalista interpreta as diferentes fases da banda com distinção e sem aparente esforço; talvez apenas as guitarras não estivessem tão audíveis quanto mereceriam.

Nesta fase inicial do concerto escutámos “Road Racin’” e “Warrior”, temas do final dos anos 1970, quando a banda soava a uma qualquer influência americana para a NWOBHM que estaria para rebentar, só para se ter uma ideia da longevidade do que estamos a falar. Por vezes, a influência musical é cíclica (ou circular) e atestamos isso num tema como “Bring The Hammer Down” do álbum “Unleash The Fire”, o começo de percurso de Todd Michael Hall nos Riot. Soa a um certo grupo sueco, eventualmente embebido de Riot que, por sua vez, actualizou o seu heavy metal com uma pontinha de… Hammerfall.

Segue-se “Johnny’s Back” e o que também estava de volta era o êxtase do público a cada tema de “Thundersteel”. Não há como negar, o material do clássico de 1988 é especial, é superior ao restante material dos Riot e nota-se como o disco envelheceu extraordinariamente bem até aos dias de hoje.

Enquanto íamos tendo estes saltos temporais, de trinta e tal anos entre “Bloodstreets” e “Love Beyond The Grave”, estava mais que comprovado que Hall encarnava com eficácia as múltiplas eras Riot, desde o proto power metal cantado por Guy Speranza e Rhett Forrester (ambos, já desaparecidos) até aos agudos extremos de Tony Moore. A noite estava amena, mas impressionou como o vocalista dos Riot não soltou um pingo de suor nem desfez minimamente o penteado enquanto disparou assinaláveis agudos, sem falhas.

Mike Flyntz foi a simpatia em palco e, na verdade, o elemento com mais passado gravado na banda, enquanto Jonathan Reinheimer, o outro guitarrista, também soube honrar, como pôde, a memória e o legado do fundador Mark Reale, passam em Janeiro próximo treze anos sobre a sua morte. É, portanto, uma banda marcada pela tragédia ao longo do tempo, com várias mudanças de formação e cuja tenacidade de Dan Von Stavern em manter o culto vivo deve ser louvada.

Trovões de Aço

Já íamos com mais de uma hora de excelente e bem passado concerto e ainda faltava ouvir aquele riff complexo que adivinha um ritmo que já se chamou speed metal, termo hoje practicamente em desuso. “Thundersteel” – o tema. Foi o momento de maior alegria dos muitos cinquentões que ainda tinham coluna para mexer, mas já pouco cabelo para abanar. Não há problema, o espírito ainda bate bem forte, lá dentro. E o contentamento supremo de alguns rioters mais jovens, também.

A nostalgia é uma coisa fantástica quando celebrada com energia. Um momento talvez irrepetível em Portugal para uma canção fantástica. A missão parecia cumprida, mas não comprida. Os Riot foram embora e, se ficasse por ali, soava a pouco. Na verdade, desconheço se o encore estava, sequer, programado pela banda porque, no regresso ao palco, os músicos pareciam conferenciar sobre o que tocar. Mas, claro… Faltava “Swords And Tequilla”! Van Stavern passou o concerto de garrafa na mão e vai de mais um gole com a malta toda a responder ao refrão.

Ainda tivemos direito ao grande rock que é “Outlaw” e “Sign Of The Crimson Storm”, no derradeiro trovão de aço. Foi tempestade, foi motim, foi heavy metal de alta qualidade que passou naquela noite por Lisboa. Grato!

A setlist, para recapitular: Hail to the Warriors; Fight or Fall; Victory; On Your Knees; Feel the Fire; Road Racin’; Warrior; Bring the Hammer Down; Johnny’s Back; Restless Breed; Bloodstreets; Love Beyond the Grave;; Flight of the Warrior; Swords and Tequila; Thundersteel; Outlaw; Take Me Back; Sign of the Crimson Storm.

Speed Demoníaco

Antes dos cabeças de cartaz, ainda tivemos duas competentes bandas ibéricas para nos aquecerem os ânimos. Os SpeeDemon mostraram a quem ainda não os conhecia, porque são um bom quarteto de speed/thrash metal, com força e melodia em doses equilibradas. Temas do álbum “Hellcome” e uma passagem pelo EP de estreia “First Blood” constituíram uma actuação bem engendrada pelo colectivo nacional que revela a rodagem de palcos que tem.

[Nota do editor: “Road To Madness” é um riff do caralho, em qualquer contexto! A referida rodagem trouxe uma tremenda confiança à banda, com os guitarristas a soarem nas horas e Jorge Rato Bicho a fazer suar a escala daquela belíssima Charvel San Dimas – Pro-Mod? -, que nos presenteou com pocket considerável e momentos brutos à Sodom]

Seguiram-se os Azrael, banda veterana de Granada, já com uma dezena de lançamentos, material todo ele cantado em castelhano. Heavy metal ao estilo tradicional que muitos outros nuestros hermanos praticam foi o que vimos e ouvimos, numa performance competente, mas não exactamente arrebatadora, apesar da comunicação e bom timbre do vocalista Marc Riera.

O texto é do Nelson Santos e as fotografias do Jorge Botas.

Leave a Reply