Roadburn 2026. Entre 16 e 19 de Abril, Tilburg voltou a ser um território onde o desconforto não é apenas aceite — é celebrado. A lente da Estefânia Silva no concerto de Habak, no Ladybird Skatepark.
O Roadburn 2026, entre os dias 16 e 19 de Abril, voltou a transformar Tilburg num território onde a música deixa de ser apenas som para se tornar experiência total. Não é um festival de consumo rápido, nem um desfile de nomes para checklist — é um espaço de imersão, onde cada actuação se inscreve num contínuo emocional e sensorial mais vasto.
Falar do Roadburn é falar de tensão e comunhão na mesma frase. De salas onde o tempo parece dilatar-se, de públicos que escutam com o corpo inteiro, de bandas que não estão ali para agradar, mas para expor — e expor-se. Ao longo destes quatro dias, a cidade neerlandesa volta a ser esse ponto de encontro improvável entre o peso e a transcendência, entre o caos e uma estranha forma de clareza.
As imagens da Estefânia Silva – of_silver_and_light (no Instagram) – que acompanham estas galerias não procuram documentar o festival no sentido tradicional. Não são reportagem, nem arquivo exaustivo. São fragmentos — instantes captados no limite entre o controlo e o colapso, onde luz, movimento e presença se fundem numa linguagem própria.
Cada banda aqui representada ocupa um lugar distinto dentro desse ecossistema, mas todas partilham essa urgência comum: a recusa da neutralidade. O Roadburn 2026 continuou a ser isso mesmo. Um organismo vivo, em combustão lenta, onde a música ainda tem consequências. Depois, há bandas que soam pesadas. E há bandas que carregam peso humano dentro da música. Os Habak pertencem claramente à segunda categoria.
Vindos de Tijuana, os Habak chegaram ao Roadburn Festival 2026 trazendo aquilo que o próprio festival descreve como crust melódico — uma definição que peca na capacidade de conter a violência emocional que atravessa a banda. Entre explosões de hardcore, tensão crust e momentos quase etéreos de melancolia, existe sempre a sensação de que estas canções nasceram demasiado perto do colapso.
Mas o mais impressionante nos Habak talvez seja precisamente essa recusa em transformar desespero em espectáculo vazio. A componente política e comunitária está sempre presente: não como slogan, mas como pulsação contínua. O Roadburn reconheceu isso desde o primeiro anúncio da banda, sublinhando não apenas a intensidade do seu som, mas também a ligação profunda entre o grupo e a ética DIY que ainda atravessa partes importantes do festival.
Nas fotografias desta actuação, essa energia torna-se quase táctil. E no centro de tudo, a presença abrasiva de Alejandra Valdez, cuja voz parece operar algures entre o grito político e a exaustão existencial. Entre 16 e 19 de Abril, Tilburg voltou a provar que o Roadburn continua a ser um espaço raro: um lugar onde bandas como os Habak não aparecem como curiosidade periférica, mas como parte essencial da linguagem emocional do festival.








