Entre synths lendários da Roland e Yamaha, traços de lápis e corações a preto e branco, os A-ha reinventaram o sonho pop dos anos 80 com o blockbuster “Take On Me”.
Foi a 19 de Outubro de 1985 que o mundo conheceu o fenómeno Take On Me. O single que parecia inofensivo — uma canção synth-pop de amor e esperança — tornou-se um marco tecnológico, estético e emocional. Um hino luminoso a uma época que ainda acreditava no poder de uma canção para mudar tudo. A banda norueguesa A-ha, formada por Morten Harket, Paul Waaktaar-Savoy e Magne Furuholmen, não apenas lançou um sucesso mundial: reinventou o diálogo entre som e imagem, e inscreveu-se para sempre na história da cultura pop.
Mas antes do êxito, houve a insistência. E o fracasso. Take On Me foi lançado três vezes até encontrar a sua forma definitiva. A primeira versão, em 1984, passou despercebida — a produção carecia de nervo e de brilho. A segunda, mais polida, também não convenceu. Só quando a Warner Bros. percebeu o potencial visual da canção — e decidiu investir num vídeo revolucionário — é que a equação se completou. O single foi relançado em 1985, acompanhado de um vídeo que misturava animação rotoscópica e imagem real, dirigido por Steve Barron (que já assinara “Billie Jean” de Michael Jackson). A partir daí, a história mudou…
O Desenho Que Ganhou Vida
O vídeo de Take On Me tornou-se um dos mais icónicos da história da MTV. Filmado em Londres, no Kim’s Café e nos estúdios Pinewood, o conceito nasceu de um esboço simples: um rapaz desenhado num mundo de banda desenhada que estende a mão à rapariga do mundo real, convidando-a a atravessar o papel. A animação foi feita quadro a quadro — mais de três mil ilustrações — num processo de rotoscopia que levou cerca de 16 semanas a ser concluído. Cada fotograma real foi impresso, desenhado à mão, e depois animado. O resultado é uma fusão entre realismo e sonho, entre tinta e carne, que continua a emocionar quase quarenta anos depois.
No vídeo, Morten Harket encarna o herói romântico que tenta escapar das páginas, lutando literalmente para entrar no mundo real. O preto e branco dos desenhos contrasta com a cor viva do “mundo verdadeiro”, criando uma metáfora sobre o desejo, a idealização e o limite entre arte e vida. O vídeo foi uma epifania colectiva: uma obra-prima que elevou o videoclip a forma de arte.
A MTV, então no auge da sua influência, passou o vídeo até à exaustão. E o mundo, fascinado, rendeu-se. De repente, uma banda norueguesa desconhecida tornava-se número 1 nos EUA, Reino Unido e praticamente toda a Europa. O vídeo venceu seis prémios MTV em 1986 e foi responsável por redefinir a relação entre imagem e música pop.
O Som do Futuro
Take On Me é, à superfície, um produto típico da era dourada do synth-pop. Mas a canção vai muito além da estética. A sua estrutura é incomum: um tempo acelerado (169 bpm), um compasso invulgarmente pulsante, uma linha de baixo em staccato e um uso obsessivo de sintetizadores Roland Juno-60 e Yamaha DX7, que, na época, representavam o pináculo da tecnologia musical.
A caixa de ritmos LinnDrum define o pulso mecânico e dançável que sustentava praticamente toda a pop britânica da época, mas nos A-ha há algo de diferente: há alma dentro da máquina. Morten Harket, com o seu timbre cristalino e o falsete que desafia a gravidade, injeta humanidade no som sintético. O refrão é um exercício de tensão e libertação — o salto súbito para o «I’ll be gone…» é puro êxtase melódico, uma espécie de catarse condensada em segundos.
A produção final coube a Alan Tarney, conhecido pelo seu trabalho com Cliff Richard e The Vapors. Tarney entendeu que Take On Me precisava de um som translúcido, de camadas que respirassem. Substituiu a rigidez das demos iniciais por texturas mais luminosas e um equilíbrio quase cirúrgico entre electrónica e melodia. O resultado é um tema que soa simultaneamente frio e caloroso, sintético e humano — um paradoxo que define a essência dos anos 80.
Há algo de distintamente escandinavo em Take On Me: um certo distanciamento emocional que convive com uma doçura discreta. A-ha nunca foram uma banda solar. Mesmo neste sucesso planetário, há uma melancolia subjacente, uma urgência existencial no modo como Harket canta «Say after me / It’s no better to be safe than sorry». É a pop nórdica no seu estado puro — cristalina, introspectiva, romântica sem pieguice.
Esse equilíbrio entre frieza e emoção tornou-se a marca da banda. Nos álbuns seguintes — Scoundrel Days (1986), Stay on These Roads (1988) ou Memorial Beach (1993) — os A-ha exploraram paisagens mais sombrias e electrónicas, provando que eram mais do que um one-hit wonder. Mas Take On Me permaneceria o seu farol — a canção que os projectou e que, de certa forma, nunca deixaram de revisitar.
Um Milagre de Persistência
A história de Take On Me é também uma lição sobre persistência artística. Poucos singles na história foram reescritos, rearranjados e relançados tantas vezes até se tornarem sucesso. O próprio Morten Harket já confessou que o grupo acreditava piamente na canção, mesmo quando tudo indicava o contrário. Essa fé obstinada talvez explique a intensidade com que ela é cantada. Ainda mesmo na primeira e mitológica versão, mais punk, diz-se. Nos tempos que precedem os A-ha e Pål Waaktaar e Magne Furuholmen eram teenagers numa banda chamada Bridges.
A terceira versão, a definitiva, capturou o equilíbrio perfeito entre emoção e tecnologia, coração e máquina. O vídeo deu-lhe corpo e mito. E juntos — som e imagem — tornaram-se uma espécie de rito de passagem entre duas décadas: o adeus ao pós-punk e o nascimento da pop digital. Take On Me não envelhece. Talvez porque nunca pertenceu inteiramente ao seu tempo. A estética dos A-ha antecipou a nostalgia retro-futurista que ainda hoje domina a cultura visual — do vaporwave aos videojogos indie.
A canção é constantemente redescoberta: seja na regravação acústica de 2017, que revelou a delicadeza trágica da melodia, seja nas incontáveis referências em filmes, séries e anúncios. Curiosamente, Take On Me permanece uma das canções mais difíceis de interpretar: a amplitude vocal de Harket — mais de duas oitavas — exige um controlo quase operático. E é talvez por isso que a sua execução mantém um fascínio quase sobre-humano.
Quase quatro décadas depois, o vídeo de “Take On Me” ainda é mostrado em aulas de cinema e animação. O seu estilo rotoscópico influenciou realizadores e animadores de todas as gerações. E a canção, com a sua melodia elástica e produção cristalina, continua a ser estudada por produtores e engenheiros de som como um exemplo de equilíbrio entre forma e emoção.
Mas talvez o maior segredo da canção seja este: Take On Me fala de transcendência. De atravessar o papel, o ecrã, o limite. É sobre o impulso de romper a fronteira entre o que se sonha e o que se vive. O vídeo dá-lhe corpo; a música, alma. E a voz de Morten Harket, etérea e vulnerável, é o elo entre esses dois mundos.
A cada nova geração que descobre a canção, Take On Me volta a cumprir a sua promessa: que a pop pode ser arte, que a emoção pode ser desenhada a grafite, e que, por vezes, basta uma mão estendida do outro lado do papel para tudo mudar.
A foto dos A-ha que abre o artigo é de Yutaka Nishimura.
