Then Play On

Then Play On, Fleetwood Mac

Entre a transcendência e o colapso, “Then Play On” marca o auge e a queda de Peter Green nos Fleetwood Mac. Um disco visionário onde o blues se dissolve em psicadelismo, lirismo e tormento, com as últimas notas do génio que se retirou do mundo e deixou o seu derradeiro rasto de humanidade antes do silêncio.

Em 1969, Peter Green já não pertencia inteiramente a este mundo. Tocava guitarra como quem tenta agarrar um espírito — e cada nota parecia uma tentativa de comunicação com algo invisível, algo que o ultrapassava. Then Play On é o registo desse transe: o momento em que o blues britânico, até então enraizado na tradição, se dissolve numa paisagem interior feita de delírio, beleza e perda. É o terceiro álbum dos Fleetwood Mac, e o último com Green no comando espiritual. A partir daí, tudo seria sobrevivência.

Quando Green formou os Fleetwood Mac, em 1967, o blues era a religião subterrânea de Londres. O British Blues Boom fervilhava entre pubs, caves e casas de chá convertidas em clubes de fumo. Eric Clapton tinha abandonado John Mayall’s Bluesbreakers para criar os Cream; Mick Taylor preparava-se para os Rolling Stones; Alexis Korner e Cyril Davies eram os patriarcas. Nesse ecossistema, Peter Green surgia como o “rapaz tímido” que substituiu Clapton nos Bluesbreakers — e que, para surpresa geral, o eclipsou.

Mayall dizia que Green «tocava menos, mas sentia mais». E talvez tenha sido essa diferença que o tornou um caso à parte. A sua abordagem era económica, quase contemplativa, cheia de pausas e microtonalidades herdadas do blues de Chicago, mas filtradas por um lirismo europeu. Em 1968, ao lado de Mick Fleetwood e John McVie (ambos também ex-Bluesbreakers), formou o núcleo duro dos Fleetwood Mac — nome que, sintomaticamente, homenageava os companheiros de secção rítmica e não o fundador. Green nunca quis ser a estrela.

O Ponto de Ruptura

Ao trio inicial juntou-se Jeremy Spencer, um guitarrista versado em Elmore James e slide, que trazia um lado teatral e humorístico ao grupo. Em 1968, os Fleetwood Mac lançaram o álbum homónimo — um disco puramente blues, cru, sem pretensão, que chegou ao #4 do top britânico. O sucesso imediato criou um fenómeno improvável: uma banda de blues de bar a competir com os Beatles e os Stones. Mas Green começou logo a desconfiar da glória. Quando Mr. Wonderful saiu, ainda em 1968, o formato já lhe parecia exaurido. A solução foi procurar novas vozes. Entrou então Danny Kirwan, um jovem de 18 anos que viria a ser o seu espelho — talento puro, emocionalmente frágil, e igualmente condenado.

Gravado entre abril e agosto de 1969, Then Play On marca a transição entre o blues tradicional e uma visão psicadélica, introspectiva e quase litúrgica. É o primeiro álbum com Danny Kirwan e o último com Peter Green em plena posse das suas faculdades. Jeremy Spencer, curiosamente, quase não participa — apenas numa faixa, “My Dream”, e num tema escondido na versão americana. O resto é Green e Kirwan a conversarem em guitarras: dois espíritos afins, separados por um abismo de dor.

O título Then Play On vem de uma linha de A Midsummer Night’s Dream, de Shakespeare: “Then play on, give me excess of it…” — ecoando a ideia de que a música, quando levada ao limite, pode curar ou destruir. Green acreditava nisso com fervor. E este disco é precisamente essa experiência de excesso espiritual.

“Greeny”

A guitarra principal de Green, a lendária Gibson Les Paul Standard de 1959 — mais tarde conhecida como Greeny — define o som de Then Play On. O segredo estava num erro: o pickup do braço fora instalado invertido em relação à polaridade magnética, criando um som fora de fase, com aquele timbre oco, melancólico, entre o sussurro e o lamento.

O que se sabe (e as notas de estúdio, bem como os testemunhos de Martin Birch e Mick Fleetwood, confirmam) é que Green usou a “Greeny” em várias malhas de Then Play On — especialmente nas partes mais expressivas e espaciais, como “Before the Beginning”, “Closing My Eyes” e “Show-Biz Blues”. Nelas ouve-se aquele timbre inconfundível: quente, mas com aquele nasal hollow do fora de fase.

Contudo, Then Play On é também o álbum em que Green começou a alternar a Greeny com outras guitarras — nomeadamente uma Gibson Les Paul Goldtop de 1956 (com P-90s), uma Fender Stratocaster Sunburst, e até uma Gibson ES-335 ocasional. Essa variedade de timbres reflete bem o próprio estado de espírito dele na altura: múltiplas vozes interiores, fragmentadas, cada uma a tentar traduzir um pedaço do mesmo desassossego.

Green usava cordas leves, palhetava com delicadeza e deixava o sustain respirar, como se a nota tivesse de encontrar o seu próprio destino. Não há pressa, não há virtuosismo exibido — há espera. Kirwan complementava essa estética com linhas mais cristalinas, por vezes quase pop, mas cheias de tensão melódica. A fusão dos dois, particularmente em Then Play On, cria uma das texturas de guitarras mais sofisticadas do rock britânico do final dos anos 60, antecipando o lirismo dos Thin Lizzy e a melancolia harmónica dos Wishbone Ash.

Canções Que Se Desfazem

Then Play On abre com “Coming Your Way”, de Kirwan, uma faixa de estrutura quase circular, com percussão tribal e guitarras em duelo mais do que em harmonia. É um prenúncio: a música deixa de ser narrativa e passa a ser estado. Fleetwood e McVie sustentam o transe com uma simplicidade hipnótica. “Closing My Eyes” é um dos momentos mais íntimos de Then Play On e talvez o mais próximo da psicose iminente de Green. É quase um murmúrio, uma confissão à guitarra limpa, sobre acordes suspensos e um refrão sem resolução. A voz é fantasmagórica, e a produção — sem baixo nem percussão evidente — dá-lhe o carácter de uma prece.

“Fighting for Madge” e “Searching for Madge” são improvisos gravados ao vivo em estúdio. Os títulos homenageiam a mulher de Mick Fleetwood, Jenny Boyd (“Madge”), irmã de Pattie Boyd — uma família que parece atravessar todo o mapa emocional do rock britânico. Aqui, o blues torna-se psicadelismo instrumental, com solos de Green que se aproximam da abstração jazzística. São fragmentos de consciência.

Em contraste, “Show-Biz Blues” é o momento mais cru e sarcástico: Green a tocar slide num registo quase country, lamentando o próprio estatuto de estrela. «Tell me anybody, what’s the soul of a man?» — uma pergunta bíblica, que resume o desconforto com o sucesso. Já “One Sunny Day”, o ritmado blues de Kirwan, mostra o lado oposto: a leveza, a juventude, uma melodia aérea, quase pop, que antecipa o futuro mais acessível da banda.

Mas é em “Oh Well” (posteriormente inserida nas reedições de Then Play On) que o génio de Green explode. Originalmente lançada em duas partes — a primeira um blues eléctrico impiedoso, a segunda uma peça pastoral com flauta, violoncelo e guitarras acústicas —, é uma das canções mais inovadoras de 1969. Green condensa séculos de música num tema de seis minutos: começa como boogie, transforma-se em lamento renascentista e termina num silêncio ensurdecedor. Nenhum outro guitarrista do período ousou tanto. “Oh Well” é o opus do seu dilema: a tensão entre a carne e o espírito, entre o blues e o sagrado.

“Rattlesnake Shake”, nesse sentido, é o lado mais terreno — o humor de Green antes da queda. Um tema sobre masturbação disfarçado de shuffle, com o groove característico de Fleetwood e um solo cortante. O jam final evolui para uma sessão quase tribal, prenunciando a improvisação livre que dominaria The End of the Game.

Em “Before the Beginning”, o álbum encerra com uma oração. É uma balada bluesy, com guitarras em lamento e uma voz cansada. O título é profético: Green está à beira do abismo. Pouco depois de lançar o disco, durante uma digressão na Alemanha, terá tomado LSD numa comunidade hippie e nunca mais regressou totalmente. O homem que tocava como se falasse com Deus deixou de conseguir falar com os outros.

Entre o Êxtase e a Dissolução

Then Play On é um disco de transição, mas também de possessão. Não há nele a arrogância dos grandes álbuns conceptuais do período; há, antes, um sentimento de urgência interior, de alguém a tentar salvar-se pela música. Green não queria fama, nem riqueza — chegou mesmo a propor que a banda doasse os lucros a instituições de caridade, ideia que o resto do grupo recusou. A partir daí, o fosso cresceu. O álbum revela esse conflito de forma sonora: a alternância entre temas estruturados e improvisos, entre o lirismo e a fragmentação, espelha a divisão mental de Green.

Danny Kirwan, o seu jovem discípulo, tornou-se o seu espelho partido — igualmente talentoso e igualmente vulnerável à instabilidade emocional. Juntos, criaram uma música de comunhão e vertigem, mas também de isolamento.Peter Green não era um guitarrista técnico no sentido ortodoxo. O que o distinguia era o timbre — e o silêncio. Cada bend, cada nota prolongada, parecia hesitar entre o prazer e a dor. É o contrário da exibição de Clapton ou Page: é introspeção, vulnerabilidade. O seu fraseado é de uma humanidade brutal, mesmo quando o homem por trás da guitarra começava a desaparecer.

A produção, partilhada entre Green e o engenheiro Martin Birch (que mais tarde trabalharia com Deep Purple, Rainbow e Iron Maiden), mantém um equilíbrio admirável entre crueza e subtileza. Birch soube captar a dinâmica respiratória das guitarras — a sensação de espaço, de eco humano. As misturas variam entre versões britânicas e americanas, com diferentes sequências de faixas, o que reforça a ideia de que Then Play On nunca foi um corpo fixo, mas um organismo em mutação.

Após a edição de Then Play On, Green gravou “The Green Manalishi (With the Two-Prong Crown)” — uma canção sobre o demónio do dinheiro, escrita após uma visão alucinatória — e depois retirou-se. O resto é lenda: anos de silêncio, internações psiquiátricas, isolamento em reclusão. The End of the Game é um documento esquizofrénico desta era. Quando regressou nos anos 90, já era outro. Mas a aura manteve-se. A “Greeny”, entretanto, passou por Gary Moore e hoje pertence a Kirk Hammett (Metallica), que a trata como relíquia sagrada. O som, no entanto, continua inimitável.

O eco depois do silêncio

O mais assombroso em Then Play On é o modo como antecipa uma sensibilidade que o rock só viria a reconhecer plenamente décadas depois. A vulnerabilidade emocional, o desassossego espiritual, a recusa das hierarquias do ego — tudo aquilo que hoje associamos a figuras como Nick Drake, Jeff Buckley ou Mark Hollis já estava aqui. Green transformou o blues — uma linguagem de resistência e catarse — num espaço de contemplação existencial. Substituiu o virtuosismo pela vulnerabilidade, o heroísmo pelo murmúrio. E nesse processo, tornou-se o elo perdido entre o blues e o pós-rock, entre Robert Johnson e Sigur Rós.

Em 1970, poucos meses depois da edição de Then Play On, Green abandonou os Fleetwood Mac. O grupo seguiria outro rumo, primeiro com Kirwan, depois com Bob Welch, até finalmente se reinventar na Califórnia com Buckingham e Nicks — uma metamorfose total, quase uma traição às origens. Mas no subsolo da sua história continua a pulsar este disco: a ferida que nunca cicatrizou.

Then Play On não é apenas um álbum de blues ou rock. É um documento espiritual, um diário sonoro de um homem a perder-se e a encontrar-se na música. A guitarra de Green chora, medita, ri e desmorona-se — e em cada nota há uma prece silenciosa. Quando a última malha de Then Play On termina, não há catarse, apenas um vazio reverberante. A história dos Fleetwood Mac tornou-se um épico de sobrevivência e reinvenção; a de Peter Green, uma elegia. Then Play On é o ponto em que ambas se cruzam — o instante em que a beleza e a loucura ainda eram inseparáveis.

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