A Distância Que Nos Aproxima

A Distância Que Nos Aproxima: O Mundo Inteiro na TSF

Em A Distância Que Nos Aproxima, Nelson Santos percorre o mundo através das pessoas que vivem em Portugal, transformando a TSF num território de encontro, descoberta do outro, memória e resistência ao ódio.

Transcendência. Na teologia tradicional, Deus, não limitado pelo espaço e pelo tempo, cria o universo sem se prender às suas limitações físicas. Imanência. O Divino também habita o «entre»: o espaço relacional do amor, da ética e do encontro humano.

Não me recordo se era um filme ou uma série documental, mas lembro-me da imagem e da ideia. O programa procurava respostas para um dos maiores mistérios que o ser humano pode contemplar: a existência de Deus. Em Jerusalém — uma cidade que dificilmente poderia ser mais evocativa para semelhante reflexão — um rabi e um imã, sentados lado a lado, conversavam com a câmara. A certa altura, a ideia era colocada de forma extraordinariamente simples: Deus é o espaço entre nós.

É uma imagem belíssima porque transforma o Divino numa presença que não está necessariamente acima, distante ou inacessível, mas na conexão invisível que aproxima as pessoas. E a escolha daqueles dois homens não é meramente simbólica. Ao colocar lado a lado um rabi e um imã, a reflexão convoca duas tradições religiosas distintas para um território comum, onde a fé, a oração, o respeito mútuo e a procura da paz podem ocupar o mesmo espaço.

O que separa deixa, assim, de ser um vazio. O espaço entre o rabi e o imã está preenchido pela conversa. Transcendência e imanência, em simultâneo.

Talvez seja precisamente esta ideia — tão teológica quanto profundamente humana — que me ocorreu ao ouvir A Distância Que Nos Aproxima, o programa da TSF criado por Nelson Santos (um amigo que, curiosamente, se assume ateu). Porque há qualquer coisa de extraordinariamente semelhante no gesto de colocar duas pessoas frente a frente e permitir que aquilo que existe entre elas se transforme em conhecimento, curiosidade e proximidade.

A distância pode ser geográfica, cultural, linguística ou histórica. Mas entre duas pessoas que conversam, essa distância começa a perder consistência. E talvez a rádio seja, entre todos os meios, um dos lugares mais extraordinários para que isso aconteça.

A Distância Que Nos Aproxima

Há países que conseguimos localizar num mapa sem hesitação. Outros fazem-nos franzir o sobrolho, procurar mentalmente uma fronteira ou admitir, com alguma vergonha, que não fazemos a mínima ideia de onde começam ou acabam. O Tajiquistão pertence provavelmente a esta segunda categoria para uma boa parte dos portugueses. É um pequeno país da Ásia Central, encaixado entre Afeganistão, China, Quirguistão e Uzbequistão, mas a sua localização geográfica diz-nos muito menos sobre ele do que uma história contada por alguém que dali veio e que hoje vive entre nós.

É precisamente nesse intervalo entre o mapa e a pessoa que vive A Distância Que Nos Aproxima, programa da TSF da autoria de Nelson Santos. A premissa parece simples: conhecer as pessoas que vieram de outras partes do mundo para viver em Portugal, ouvir as suas histórias, perceber as razões da viagem, a adaptação, os hábitos, as memórias e as relações que continuam a manter com os países de origem. Na prática, porém, há qualquer coisa de mais ambicioso neste exercício. A cada emissão, a rádio portuguesa abre uma pequena janela para um lugar que, de outra forma, poderia permanecer apenas uma palavra num atlas.

A Distância Que Nos Aproxima nasceu em 2025 e rapidamente construiu uma cartografia humana pouco habitual na rádio portuguesa. A TSF descreve-o como um espaço dedicado a conhecer quem «vem de lá para cá», partindo da história individual para chegar aos países de origem e às comunidades presentes em Portugal. Cada emissão combina uma entrevista, normalmente com cerca de 35 a 45 minutos, com música e sons representativos do país em destaque.

É uma distinção importante. A Distância Que Nos Aproxima não é simplesmente um programa sobre imigração. Pelo menos, não no sentido em que a palavra costuma aparecer no espaço público português. Não há aqui números apresentados como argumento, estatísticas transformadas em manchetes, mapas de fluxos migratórios ou debates sobre fronteiras. Há pessoas. E essa escolha, num momento em que a imigração ocupa uma parte tão significativa do debate político e social português, não é pequena.

A pessoa que chega ao estúdio deixa de ser apenas síria, bengali, polaca, marroquina, tajique, nigeriana ou mexicana. É professora, músico, investigadora, empresário, atleta, cozinheira, designer, artista, trabalhador, mãe, pai, filha, filho. Tem uma história que começou antes de Portugal e que não terminou quando atravessou uma fronteira.

Vivemos uma época em que a facilidade de comunicação deveria ter tornado o mundo mais próximo e, paradoxalmente, parece muitas vezes ter produzido o efeito contrário. Sabemos mais sobre o que acontece a milhares de quilómetros de distância, mas isso não significa necessariamente que compreendamos melhor quem vive nesses lugares. Conhecemos bandeiras, conflitos, clichés, imagens de televisão e algumas palavras-chave. O indivíduo, porém, tende a desaparecer por detrás da categoria. É aqui que o programa de Nelson Santos na TSF ganha uma dimensão particularmente relevante.

A pessoa que chega ao estúdio deixa de ser apenas síria, bengali, polaca, marroquina, tajique, nigeriana ou mexicana. É professora, músico, investigadora, empresário, atleta, cozinheira, designer, artista, trabalhador, mãe, pai, filha, filho. Tem uma história que começou antes de Portugal e que não terminou quando atravessou uma fronteira.

Ao longo da segunda temporada, passaram pelo programa histórias tão diferentes como a de um casal sírio que atravessou o Mediterrâneo num bote e acabou por criar negócios em Lisboa, a de uma investigadora italiana dedicada às relações entre Itália e Portugal, a de uma artista plástica letã, a de uma médica moldava que vive no país há mais de duas décadas ou a de uma bióloga checa ligada à investigação científica.

Não é preciso que todas estas histórias sejam extraordinárias. E talvez essa seja precisamente uma das virtudes de A Distância Que Nos Aproxima. A distância começa a desaparecer quando percebemos que a pessoa que está do outro lado da conversa tem problemas, desejos, contradições e pequenas obsessões que reconhecemos como nossas.

A rádio torna-se, neste caso, uma ferramenta de aproximação particularmente poderosa. Não há imagem para criar distância, nem a necessidade de reduzir uma conversa complexa a uma frase. Há uma voz. Uma respiração. Um sotaque. Uma pausa. Uma gargalhada. Uma memória. E há tempo.

Cada Pessoa, Um Mundo

No texto que escreveu para assinalar o encerramento de mais uma temporada de A Distância Que Nos Aproxima, a propósito do episódio dedicado ao Tajiquistão, Nelson Santos fala das fronteiras políticas como «gavetas geográficas» que nos ajudam — ou nos atrapalham — a conhecer o mundo. A formulação é certeira porque toca num dos problemas fundamentais de qualquer tentativa de compreender uma sociedade através da sua nacionalidade: um país é uma categoria; uma pessoa é uma história. «Se cada pessoa é um mundo, cada país é um universo», escreve Nelson. É provavelmente esta a frase que melhor explica o programa.

O objectivo não é construir uma enciclopédia radiofónica das nacionalidades presentes em Portugal. É criar encontros. E, através deles, permitir que um país aparentemente distante adquira uma dimensão humana. O Tajiquistão é um excelente exemplo. O episódio que encerrou a mais recente temporada (em Julho de 2026) teve como convidados Sohib Tuychiev e a sua filha Zinira, numa emissão que Nelson escolheu para fechar o ciclo. A família ofereceu-lhe uma típica capa de almofada tajique, objecto que acabou por simbolizar a relação que o programa pretende estabelecer: trazer para perto algo que, à partida, pertence a uma geografia distante.

A emissão do Tajiquistão foi a 63.ª nacionalidade trabalhada pelo programa da TSF, segundo Nelson Santos, que estabeleceu para A Distância Que Nos Aproxima uma ambição particularmente difícil: chegar a representantes de 100 países presentes em Portugal através de comunidades migrantes falantes de português. É uma espécie de trabalho de arqueologia humana. Encontrar alguém de uma determinada nacionalidade que viva em Portugal, que tenha uma história para contar e que possa contá-la em português exige procura, contactos e, inevitavelmente, algum acaso.

O próprio Nelson chama-lhe um labour of love. E percebe-se porquê. A lista vai-se tornando, emissão após emissão, uma espécie de mapa alternativo de Portugal. Há uma ironia bonita no projecto: para conhecer o mundo, não é necessário viajar. Ou, pelo menos, não é necessário viajar fisicamente.

O mundo que A Distância Que Nos Aproxima procura está já dentro de Portugal. Vive em Lisboa, no Porto, em Leiria, em Coimbra, no Alentejo, em Setúbal, nas Caldas da Rainha, em tantos lugares onde pessoas vindas de geografias diferentes construíram uma vida. Algumas chegaram há décadas; outras chegaram há poucos anos. Algumas vieram por amor, outras por trabalho, outras por necessidade, outras ainda por uma combinação impossível de resumir numa única razão.

O programa da TSF interessa precisamente porque não tenta uniformizar essas experiências. A história de um refugiado sírio não é a história de uma empresária dinamarquesa. A de uma atleta congolesa não é a de uma professora tailandesa. A de uma artista letã não é a de um jornalista bengali. E, no entanto, todas fazem parte da mesma paisagem portuguesa contemporânea.

Pela positiva, estamos na luta contra o ódio.

Nelson Santos

Um dos aspectos mais interessantes do projecto é precisamente essa capacidade de desmontar a ideia de que “os imigrantes” constituem uma entidade homogénea. Não constituem. Não há uma experiência migratória única, da mesma forma que não existe uma experiência portuguesa única. O programa não precisa sequer de fazer esse discurso explicitamente. Basta ouvir.

Há uma frase no texto de Nelson Santos sobre o Tajiquistão que merece ser levada a sério: «Pela positiva, estamos na luta contra o ódio». Não se trata de fingir que o mundo é um lugar harmonioso. Não é. A imigração levanta problemas reais, tal como levanta oportunidades, conflitos, tensões, transformações sociais e questões políticas que devem ser discutidas. Um programa de rádio não resolve nada disso. Mas existe uma diferença fundamental entre discutir um fenómeno e conhecer as pessoas que o constituem.

O discurso público tende a funcionar por abstracção. Fala-se de fluxos, números, nacionalidades, fronteiras, legalização, criminalidade, integração, emprego. Tudo isso pode ser necessário. O que não pode acontecer é esquecermos que, por detrás de cada categoria, existe uma pessoa. A Distância Que Nos Aproxima faz esse movimento contrário. Parte do indivíduo e deixa que o contexto apareça depois.

E talvez seja precisamente por isso que o programa seja tão pertinente neste momento. Num país onde a discussão sobre imigração se tornou muitas vezes uma disputa entre números e narrativas políticas, ouvir alguém contar a própria história pode ser um acto de resistência muito mais eficaz do que qualquer sermão. Conhecer não significa concordar com tudo. Significa retirar ao desconhecido a sua dimensão abstracta.

Uma Cartografia Feita de Vozes

Ao longo das emissões, a TSF foi construindo uma espécie de atlas sonoro de Portugal. Um atlas onde as fronteiras são menos importantes do que as trajectórias e onde cada país chega acompanhado pela voz de alguém que o conhece por dentro. Há quase 200 países no mundo e poucos não estão representados em Portugal por comunidades migrantes.

A própria descrição oficial do programa parte dessa constatação e resume a sua filosofia numa frase simples: «a informação é o primeiro passo para a aceitação». É uma frase que pode parecer ingénua se for retirada do contexto. O programa, contudo, dá-lhe substância.

Porque informação, aqui, não significa apenas saber que o Tajiquistão existe. Significa saber quem são Sohib e Zinira. Não significa apenas saber que existe uma comunidade síria em Portugal. Significa ouvir Shadi e Baraa falar da guerra, da fuga, da reconstrução da vida e da vontade de retribuir a um país que os recebeu. É uma diferença enorme.

Durante o período de pausa, a TSF prevê a reemissão de programas do último ano, mantendo estas histórias em circulação enquanto se prepara o regresso da série em Setembro. Até lá, fica uma espécie de mapa incompleto — como todos os mapas verdadeiramente interessantes. Há ainda países por encontrar, pessoas por ouvir e histórias que ainda não chegaram à rádio. O objectivo dos 100 países pode parecer uma utopia, mas talvez seja precisamente essa a graça do projecto. Uma utopia suficientemente concreta para poder ser construída uma conversa de cada vez.

No fim, A Distância Que Nos Aproxima não é realmente sobre a distância entre Portugal e o Tajiquistão, Portugal e a Síria, Portugal e o Bangladesh ou Portugal e qualquer outro ponto do planeta. É sobre a distância entre nós e aquilo que não conhecemos.

E essa é uma distância que pode, efectivamente, ser encurtada. Basta começar por ouvir.

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