Entre guitarras pesadas, electrónica, literatura e uma inesperada vocação pop, Primavera de Destroços é o disco em que os Mão Morta transformaram os destroços dos álbuns anteriores numa das obras mais densas e fascinantes da sua discografia.
Há discos aos quais regressamos para confirmar uma memória. Primavera de Destroços é, para mim, um desses discos, embora a memória que dele guardo tenha menos a ver com uma canção específica do que com uma sensação física: o peso das guitarras, a densidade do som, aquela impressão de que os Mão Morta tinham conseguido tornar tudo mais espesso sem perder a capacidade de escrever canções. Quando volto ao álbum, é isso que reaparece primeiro. As guitarras. E depois a voz de Adolfo Luxúria Canibal, sempre algures entre a declamação, a confissão e a ameaça, a dizer coisas que parecem ter sido encontradas num lugar onde a linguagem já não serve para nos tranquilizar.
Gravado em Abril de 2000 por Nelson Carvalho, assistido por Nuno Couto, nos Estúdios Kasbah – Porto e em Outubro e Novembro de 2000 por Nelson Carvalho, assistido por Saul Patinho, nos Estúdios AreaMaster – Vigo e misturado em Dezembro de 2000 por Nelson Carvalho, assistido por Luís Caldeira e Artur David, nos Estúdios de Paço D’Arcos – Oeiras. Masterizado em Fevereiro de 2001 por Mandy Parnell no Exchange Studio – Londres. Produção de Miguel Pedro. Capa de Sónia Teixeira Pinto sobre fotografia de Daniel Blaufuks. Esta é a dissecação das credenciais técnicas do disco e não deixam adivinhar muito dele.
Originalmente lançado pela NorteSul em Março de 2001, Primavera de Destroços é o nono álbum dos Mão Morta e surge depois de dois discos que tinham levado a banda para territórios bastante diferentes entre si: Müller no Hotel Hessischer Hof e Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável. Havia nesses trabalhos uma vontade evidente de desmontar a ideia de que os Mão Morta precisavam de ser uma banda de rock reconhecível, de experimentar a electrónica, a palavra, a repetição, a contenção, diferentes formas de composição. Primavera de Destroços não desfaz esse percurso. Pelo contrário, parece perceber que tudo aquilo podia agora coexistir.
Talvez seja por isso que o título me pareça menos irónico do que parece à primeira vista. A primavera dos Mão Morta nunca foi sobre florescer. Foi sobre aprender a florescer entre os destroços que os dois discos anteriores tinham deixado, tão dramaticamente espartanos e diversificadamente musicais. A banda parece resumir ali uma série de experiências e, ao mesmo tempo, começar a desenvolvê-las como linguagem própria.
Não é um regresso ao que os Mão Morta tinham sido antes de Müller. É uma espécie de síntese, mas uma síntese que não limpa as arestas. E, pelo menos na forma como o disco ficou preservado na minha própria psique, continua a ser o álbum dos Mão Morta em que as guitarras têm mais peso.
Não necessariamente o som mais agressivo da carreira, mas aquele em que parecem ocupar mais espaço, como se fossem construídas em pedra. Há uma densidade quase táctil em malhas como “Cão da Morte” ou “Arrastando o Seu Cadáver” que não depende de velocidade nem de volume. É uma questão de textura. As guitarras não estão simplesmente a acompanhar as canções: estão a construir o lugar onde elas acontecem.
A gravação juntou uma formação alargada, com órgãos, piano, vibrafone, saxofone, trompete, contrabaixo, programação, samplers, sintetizadores e vozes adicionais. Lido assim, o alinhamento de instrumentos poderia sugerir um disco excessivamente ornamentado. Não é. Nos Mão Morta, estes elementos entram muitas vezes como perturbações, sombras laterais, pequenas mudanças na percepção de uma canção. O som pode crescer sem necessariamente se tornar mais luminoso.
Destroços Feitos Canções
“Cão da Morte” é uma excelente porta de entrada. A guitarra tem aquele peso compacto, a bateria mantém a marcha e a voz de Adolfo introduz imediatamente uma dimensão narrativa que impede a música de ser reduzida a uma sequência de riffs. É rock, mas um rock que parece ter atravessado a literatura, o teatro e alguma coisa de industrial antes de chegar ao amplificador. Depois há “Tu Disseste”, e aqui aparece uma das coisas que mais me interessam no disco: a sua inesperada e estranha vocação pop. Não no sentido de acessível e, muito menos domesticado, mas no sentido em que determinadas melodias encontram uma maneira de permanecer.
“Tu Disseste” tem uma qualidade quase hipnótica, uma dessas canções que parecem mais simples à segunda audição do que eram à primeira. E essa capacidade de sedução percorre Primavera de Destroços de forma suficientemente discreta para não se transformar num conceito. É precisamente aí que o disco se torna mais inquietante. As canções aproximam-se do ouvinte, mas não lhe oferecem conforto. Há qualquer coisa de sedutor na forma como os Mão Morta organizam algumas destas melodias, uma sedução semelhante àquela que nos leva a olhar outra vez para aquilo que sabemos que não deveríamos querer olhar. O fascínio não diminui a escuridão. Torna-a mais difícil de abandonar.
“Penso que Penso” trabalha essa dimensão mental, enquanto “Gin Tonic”, breve e quase insolente, introduz uma espécie de desvio dentro da própria arquitectura do álbum. “O Jardim” prolonga a sensação de que, naquele universo, nenhuma paisagem é verdadeiramente inocente. Mesmo quando a música parece abrir espaço, há sempre alguma coisa escondida no cenário. E então chega “Humano”, onde a dimensão literária volta a ocupar o centro. A referência a William Burroughs encaixa naturalmente num universo em que o corpo, a linguagem e a violência aparecem frequentemente ligados.
Adolfo não escreve letras que acompanham a música; escreve textos que a música precisa de suportar. A sua voz dá-lhes outra existência, transformando a palavra em matéria física. É também por isso que a multiplicidade instrumental do álbum funciona. O saxofone, o trompete, o vibrafone, os sintetizadores ou os samplers não estão ali para demonstrar amplitude. Ajudam a criar um espaço onde o rock deixa de ser uma forma fechada. Miguel Pedro, António Rafael, Vasco Vaz (abre entrevista sobre o som e influências do guitarrista) e Sapo, acompanhados pelos restantes músicos, constroem um disco em que as guitarras podem ser pesadas e, simultaneamente, existir ao lado de elementos que parecem vir de outro lugar.
Essa tensão percorre “Nada a Perder” e “O Combate”, duas canções que não precisam de recorrer ao mesmo gesto para manter a inquietação. E quando chegamos à faixa-título, a própria história da composição parece resumir o método dos Mão Morta. O tema vinha dos Auaufeiomau, de Zé dos Eclipses, e a ideia inicial de lhe acrescentar cordas, com uma composição de José Mário Branco, acabou por dar lugar a outra solução. Nos Mão Morta, as coisas raramente chegam ao destino pela estrada prevista. O resultado é uma malha quase gótica, suficientemente melódica para se fixar e suficientemente estranha para nunca se tornar confortável. É uma boa definição para o álbum inteiro.
(Des)Óbvio
Porque Primavera de Destroços é, no fundo, um disco cheio de sombras, mas inesperadamente pop. E essa combinação é muito mais importante do que parece. A banda não suaviza a sua música para escrever canções; descobre que pode tornar a própria escuridão memorável. Há refrões, há melodias, há momentos de aparente simplicidade, mas nada disso funciona como redenção. Pelo contrário: quanto mais uma canção nos seduz, mais tempo ficamos dentro daquele universo.
Talvez seja esse o grande passo que o disco dá em relação aos dois anteriores. Müller no Hotel Hessischer Hof e Corações Felpudos tinham levado os Mão Morta a desmontar a sua própria linguagem. Primavera de Destroços encontra-os a recolher essas peças e a perceber que podem construir outra coisa com elas. Não uma versão mais acessível da banda, mas uma versão mais consciente de todas as possibilidades que já tinha aberto. E é por isso que, para mim, o álbum continua a soar tão fisicamente descarnado.
Há ali electrónica, teatro, literatura, experimentação e canção, mas o corpo do disco continua a ser feito de guitarras. Guitarras pesadas, densas, por vezes quase sufocantes, que dão àquelas canções uma espécie de gravidade própria. A primavera nunca chega realmente a este disco.


