Apesar das referências ao prog moderno e ao post-rock atmosférico de Soundscapism Inc., A Sea of Floating Mirrors revela um coração profundamente alternativo e noventista, onde a emoção das canções fala mais alto do que qualquer exibicionismo técnico.
Há discos que parecem nascer já cobertos por uma camada de nevoeiro emocional, como se existissem primeiro enquanto memória difusa antes de assumirem forma concreta. A Sea of Floating Mirrors, o novo trabalho de Soundscapism Inc., pertence claramente a essa categoria. Mas aquilo que inicialmente poderia ser interpretado apenas como mais um exercício de post-rock melancólico ou prog atmosférico revela-se, afinal, algo bastante mais interessante: um álbum profundamente enraizado na sensibilidade alternativa dos anos 90, filtrada através de décadas de rock atmosférico, melancolia escandinava e romantismo nocturno.
Já num impressionante 6.º título discográfico, o projecto de Bruno A. sempre viveu algures entre a introspecção cinematográfica e a criação de paisagens emocionais. Ao longo dos anos, Soundscapism Inc. foi desenvolvendo uma linguagem própria feita de guitarras amplas, ambientes etéreos e composições que pareciam funcionar como bandas sonoras para filmes inexistentes. O próprio discurso promocional deste novo álbum aponta referências como Green Carnation, VOLA, A Perfect Circle, Porcupine Tree, Opeth, The Cure, Devin Townsend, Ulver ou Katatonia — e todas elas fazem sentido em maior ou menor grau. Mas o mais curioso é que o disco raramente soa dominado por essas influências “esperadas” do prog contemporâneo.
O que realmente emerge ao longo de A Sea of Floating Mirrors é outra coisa: a sombra constante de The Smashing Pumpkins. Não necessariamente na reprodução directa do som da banda de Chicago, mas naquele romantismo eléctrico muito específico que Billy Corgan transformou numa assinatura emocional durante os anos 90. Há uma combinação semelhante entre peso e vulnerabilidade, entre guitarras densas e melodias quase celestiais, entre grandiosidade e intimidade emocional.
“Venomous Hand of a Nightmare”, logo na abertura, deixa isso claro. A faixa possui aquela melancolia luminosa que parecia atravessar discos como Machina ou certos momentos mais contemplativos de Mellon Collie and the Infinite Sadness (abre o ensaio da ROMA INVERSA). As guitarras não funcionam apenas como textura atmosférica; têm presença física, corpo, intenção melódica. E sobretudo existe um cuidado muito particular na construção emocional da canção — algo que aproxima mais Soundscapism Inc. da tradição alternativa noventista do que do progressivo cerebral e excessivamente técnico que tantas bandas contemporâneas insistem em replicar.
Essa talvez seja a maior força do álbum: a recusa em transformar emoção em mero exercício de engenharia sonora. Durante demasiado tempo, parte do post-rock e do prog atmosférico ficou presa à ideia de que profundidade emocional equivalia simplesmente a crescendos intermináveis, camadas sucessivas de guitarras e explosões calculadas ao milímetro. A Sea of Floating Mirrors evita essa armadilha porque nunca esquece a importância da canção. Há refrães, há melodias memoráveis, há estruturas que respiram organicamente em vez de parecerem montadas como puzzles técnicos.
Isso torna-se particularmente evidente em temas como “All the Rage” ou “Lightbringers & Rainmakers”, onde as guitarras assumem um protagonismo quase alternativo, próximas de uma certa tradição de rock melancólico musculado que existia antes de o termo “post-rock” se tornar fórmula. O álbum move-se constantemente entre peso e contemplação sem soar artificialmente “épico”. Existe emoção real aqui, não apenas ambiência.
Ao mesmo tempo, há momentos em que Soundscapism Inc. mergulha numa melancolia mais próxima da escola escandinava de prog emocional, e é aí que referências como Wolverine começam verdadeiramente a fazer sentido. Não tanto pelo tecnicismo, mas pela vulnerabilidade melódica. Algumas harmonias vocais e progressões transportam precisamente essa sensação de tristeza elegante e introspectiva que bandas como Wolverine desenvolveram no início dos anos 2000: música pesada não pelo volume, mas pelo peso emocional.
Nesses momentos, percebe-se também a ligação indirecta a Steven Wilson. Mas curiosamente, A Sea of Floating Mirrors parece mais interessado nas bandas que absorveram a influência de Wilson e a tornaram mais humana e emocional do que propriamente no lado mais cerebral do próprio Wilson. Há menos perfeccionismo clínico aqui. Menos obsessão técnica. Mais imperfeição atmosférica.
E depois existem aquelas texturas subtis que aproximam inesperadamente o álbum de VAST. Uma referência improvável talvez, mas profundamente certeira quando ouvimos as conduções a piano de canções como “Glimpse of the Infinite”. Sob certas camadas ambientais e pequenos detalhes electrónicos existe aquela mesma sensação de alienação urbana nocturna que Jon Crosby explorava nos primeiros discos de VAST: melodias melancólicas envolvidas em ambientes ligeiramente industriais, sensuais sem serem excessivamente dramáticos, íntimos sem caírem em confissão adolescente.
Essa dimensão nocturna percorre todo o álbum. A Sea of Floating Mirrors soa frequentemente como música feita para cidades vazias depois da meia-noite — não no sentido romântico cliché, mas naquela solidão silenciosa que surge quando tudo abranda e os pensamentos começam finalmente a ganhar volume. Há algo profundamente humano nestas canções precisamente porque recusam dramatizar demasiado a melancolia. O disco não implora emoção; deixa-a infiltrar-se lentamente. E mesmo quando mergulha em ambientes mais nebulosos — como em “Steamcity” ou “Star-Crossed Lovers” — nunca perde o foco melódico.

Aqui chegados, parece que estamos apenas a atirar referências para uma pilha de nomes, a ver quais colam. Contudo, a intenção é demonstrar o quão ampla é a linguagem musical de Bruno A., que demonstra aqui uma maturidade composicional muito maior do que em trabalhos anteriores: menos dependência de atmosfera pela atmosfera, mais confiança na força emocional das próprias músicas. A produção poderá dividir opiniões. A nós, parece limpar demasiado este álbum quando o mesmo vive duma sensação de imperfeição emocional, como fotografias antigas que deviam parecer ligeiramente desfocadas pelo tempo.
O encerramento com “Lipstick Smiles on Death Masks” funciona quase como manifesto final de tudo aquilo que Soundscapism Inc. procura alcançar: sete minutos de melancolia cinematográfica, guitarras emotivas e beleza nocturna suspensa algures entre sonho e memória. Não existe catarse explosiva. Apenas um lento desaparecer no nevoeiro. E talvez seja precisamente aí que reside o verdadeiro triunfo deste disco. A Sea of Floating Mirrors não procura revolucionar linguagens musicais nem impressionar através de complexidade artificial. O que faz (extremamente bem) é recuperar uma certa honestidade emocional que muitos sectores do prog e do post-rock perderam.
No fundo, este é um álbum que compreende algo essencial: a melancolia não precisa de soar grandiosa para ser devastadora. Às vezes basta uma guitarra carregada de ecos, uma melodia nocturna e aquela estranha sensação de nostalgia por coisas que talvez nunca tenham realmente existido.
