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AC/DC & Axl Rose, A Histórica Tempestade Eléctrica de Lisboa em 2016

AC/DC em Lisboa, 2016: numa noite de intempérie metereológica, Axl Rose subiu a palco sentado num trono improvisado para substituir Brian Johnson e transformar uma digressão condenada à polémica num dos episódios mais hiperbólicos, improváveis e lendários do rock moderno — revisitado dez anos depois como um parêntesis quase mítico na história da banda e do rock em Portugal.

Hoje, à distância de uma década, continua a soar a delírio colectivo. Uma dessas histórias que soam demasiado absurdas para terem realmente acontecido. Mas aconteceram. Há exactamente dez anos, a 7 de Maio de 2016, Axl Rose subia a palco diante de 50.000 pessoas como vocalista dos AC/DC, sentado num trono improvisado devido a uma fractura no pé, sofrida semanas antes num concerto da Not In This Lifetime Tour, a digressão de reunião dos Guns N’ Roses. Tudo isto no arranque da etapa europeia da Rock Or Bust Tour, numa Lisboa fustigada por uma tempestade de alerta vermelho.

Poucos meses antes, o futuro dos AC/DC ficara incerto a partir do momento em que o vocalista Brian Johnson foi impedido de acompanhar a banda durante o remanescente da manga norte-americana da referida digressão. De acordo com comunicados oficiais, os médicos que o acompanharam aconselharam Johnson a parar de actuar sob risco de perder definitivamente a audição. Como tal, os AC/DC adiaram os dez concertos seguintes da digressão Rock Or Bust nos Estados Unidos, incluindo o de Madison Square Garden, assegurando, contudo, que regressariam muito brevemente com um vocalista convidado.

Não era, nem de perto, a primeira baixa de membros na longa e atribulada história dos AC/DC (abre link). Sem sequer recuar à morte de Bon Scott, em 2014 o guitarrista e cofundador Malcolm Young fora obrigado a afastar-se da banda devido à demência que se agravou nos seus últimos anos de vida. O baterista Phil Rudd também se vira afastado depois de problemas judiciais que culminaram numa pena de prisão domiciliária. A banda parecia presa numa espiral de desgaste, rumores e catástrofes anunciadas. Ainda assim, se os AC/DC garantiam que a 7 de Maio de 2016 estariam em Lisboa, isso era para levar a sério.

Depois de semanas de especulação, Abril de 2016 trouxe a confirmação oficial: Axl Rose seria o novo vocalista da banda. Em comunicado a banda agradecia a Brian Johnson pela contribuição e dedicação durante tantos anos:

«Desejamos-lhe tudo de bom com os problemas de audição e futuros projectos. (…) Respeitamos e apoiamos a decisão de Brian de parar com as digressões para salvar a sua audição. Estamos empenhados em cumprir os compromissos da tour, assumidos com todos os que têm nos apoiado nos últimos anos, somos uns sortudos por Axl Rose gentilmente nos ter oferecido o seu apoio e ajuda para cumprir este compromisso. Os AC/DC vão continuar com a sua tour mundial Rock Or Bust, com Axl Rose na voz. As datas europeias começam a 7 de Maio em Lisboa, Portugal, e estendem-se até 12 de Junho em Aarhus, Dinamarca, como anunciado anteriormente».

O anúncio caiu como uma bomba! A reacção do público dividiu-se entre perplexidade, indignação e curiosidade mórbida. Os rumores tinham começado através da Atlanta Radio 100.5, que avançou que Axl estaria a ensaiar com os australianos. Desde aí, a especulação cresceu rapidamente até ao inevitável comunicado oficial dos AC/DC, que agradeciam a Brian Johnson pela sua dedicação de décadas e explicavam a necessidade de prosseguir a tour europeia já agendada. A partir daí, surgiam novas e intrigantes questões, com uma delas a dominar a mente de meio mundo e que só teria resposta no concerto de Lisboa: Estaria Axl Rose à altura do desafio?

7 de Maio de 2026, Passeio Marítimo de Algés

Primeiro fora o estado de saúde de Malcolm Young, com muita imprensa musical nacional a falar no fim da banda. Depois o bizarro processo que levou Phil Rudd para trás das grades. Já em 2016, Brian Johnson fora afastado e surgira uma enorme onda de dúvidas junto do público, transformada em intensa indignação quando Axl Rose foi anunciado como novo vocalista. Há que admitir que, já há dez anos atrás, o irascível gunner lutava contra a deterioração da sua voz.

Depois veio a celeuma dos bilhetes. E, no próprio dia do concerto, mais um mar de queixas devido à intempérie meteorológica que se fez sentir sobre Lisboa. Na noite anterior e já no próprio dia, a capital portuguesa foi fustigada por chuva e vento forte, sofrendo algumas inundações e vários constrangimentos logísticos. De repente, muitos pretendiam a devolução do bilhete e a Everything Is New, a promotora do espectáculo, foi forçada a escudar-se na Proteção Civil: a meteorologia ia melhorar e não havia motivo para cancelamento, portanto nada de devoluções.

De facto, a partir de cerca das quatro da tarde, a intempérie aliviou. Depois de tantas tempestades em copos de água, os AC/DC criaram a única tempestade que realmente interessava: uma trovoada de guitarras e estridência eléctrica. Um dos concertos mais polémicos de sempre no nosso país tornou-se num concerto inesquecível, numa demonstração arrasadora dos predicados simples que tornam os AC/DC numa das maiores e mais resilientes bandas da história do rock.

A performance de Axl Rose gerava expectativas contraditórias. As gravações amadoras de ensaios da banda pareciam prometedoras, mas nada fazia esperar que — até pelo caricato “trono” (uma cadeira ortopédica glorificada9 onde surgiu sentado — o vocalista dos Guns N’ Roses arrasasse a cantar os hinos dos AC/DC. “Rock Or Bust” fez explodir os agudos estridentes de Rose nos ouvidos dos mais cépticos. “Shoot To Thrill” e “Hell Ain’t A Bad Place To Be” confirmaram rapidamente que o vocalista estaria à altura da banda e do seu legado.

Então Axl perguntou a Lisboa se estava «pronta para aumentar a potência». E quando rebentou “Back In Black”, a passagem de testemunho parecia completa. O ultra clássico que, décadas antes, trouxera Brian Johnson para o lugar do falecido Bon Scott (abre link) legitimava agora Axl Rose na sua estreia pelos AC/DC. Mas mais impressionante do que mostrar-se capaz de enfiar a bóina de Johnson foi a forma como percorreu as autoestradas infernais de Bon Scott, dando vida a clássicos menos habituais como “Rock ‘n’ Roll Damnation” e à mega surpresa perto do final com “Riff Raff”.

E a banda? Se Phil Rudd tinha mais boogie, Chris Slade tinha mais poder. A forma como projecta a banda — imortalizada em The Razor’s Edge e no lendário Live at Donington — esteve finalmente presente em Portugal, país que até então apenas vira os AC/DC com Phil Rudd. Claro, é uma questão de gosto: um é subtil, o outro explosivo. E talvez, num dia desgraçado como aquele, fosse preciso precisamente um baterista que fizesse explodir banda e público.

É como se, com Slade, até o tradicionalismo rítmico de Cliff Williams ganhasse um corpo mais pesado. A secção rítmica soava mais próxima da agressividade de uma dupla que, em primeiro lugar, bebera directamente dos AC/DC: Alex Van Halen e Michael Anthony.

Stevie Young preocupava-se em emular o comportamento, o som e a eficácia do tio Malcolm, enquanto o outro tio — Angus Young — com Axl, Johnson ou Scott, continuava a ser a alma absoluta da banda. Talvez pelos 60 anos. Talvez pelo stress acumulado nos dois anos anteriores. Angus parecia fisicamente débil, mas tinha o Diabo no corpo. Tocava de forma mais suja, com pequenas imprecisões, mas com uma energia inigualável na pentatónica. Com a guitarra na frente da mistura sonora e carregada de médios e agudos para ajudar a distorção natural da voz de Axl, Angus soou infernal. Como Axl apresentou “Let There Be Rock”: «Vamos ser um pouco bíblicos».

Tudo isto os AC/DC conseguiram fazer depois de todas as tempestades desses tempos, na altura, recentes. E Axl Rose fê-lo sentado! Um grande concerto, que fica na história da música e do nosso país que, provavelmente, viu os AC/DC pela última vez naquele 7 de Maio de 2016. Para mim, o concerto permanece inseparável de uma turbulência muito mais pessoal. Talvez seja precisamente isso que torna aquela noite tão especial dez anos depois. Talvez por isso a memória daquela noite continue tão viva. Porque houve concertos que vi. E houve outros — como aquele — que simplesmente me atravessaram.

Na altura, eu andava numa espécie de curto-circuito emocional permanente. Excitado, ansioso, alcoolicamente feliz. Quatro dias depois daquele concerto nasceria o meu primeiro filho, o meu Isaac. Hoje percebo que talvez tenha sido por isso que tudo naquela noite me pareceu tão excessivo e eléctrico. A tempestade sobre Lisboa. O ruído ensurdecedor. Axl Rose de perna partida a cantar “Shot Down In Flames”. Angus Young possuído pelo rock até aos ossos. A sensação de que tudo podia ruir — e no entanto sobreviver.

Há concertos que envelhecem como arquivos. E há outros que envelhecem como lendas improváveis contadas ao balcão de um bar, tarde demais na noite, quando já ninguém acredita totalmente nelas. Aquele concerto dos AC/DC em Lisboa pertence claramente à segunda categoria.

Uma Oportunidade Perdida

No final da Rock Or Bust Tour, existiam rumores de que Axl Rose tinha gravado com os AC/DC. Todavia, as coisas não passaram disso e Angus Young, embora admitindo que o gunner tinha conquistado fãs com as suas prestações, garantiu que os titãs australianos nunca gravaram com Rose durante o seu tempo na estrada. «Nada saiu realmente sólido. Há muitas coisas em que ele está envolvido. Nem sei se diria que se trata de música. Mas há muitas coisas mesmo».

Foi, de certa forma, uma machadada nas aspirações daqueles que gostavam de ouvir algo oficial dos australianos com Axl Rose nas vozes e que se julgou pudesse estar reservado para o posterior álbum dos AC/DC, “PWR UP” (abre link oficial), e não se confirmou. Essas declarações de Young surgiram à margem de uma entrevista que concedeu à Rádio Suíça SRF 3, ocasião em que o guitarrista revelou qual o álbum dos AC/DC que define a banda: «”Let There Be Rock”, para mim, é o álbum».

 A reportagem foi originalmente publicada pelo autor na Arte Sonora. O texto foi editado a partir desse original. Fotos de Alexandre Antunes / Everything Is New.

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