High Voltage

High Voltage, A Forja de um Império Eléctrico (1973–1975)

A pré-história dos AC/DC. Como a disciplina de Malcolm Young e a energia maníaca de Angus forjaram o som de “High Voltage”. Uma viagem desde a Escócia até aos pubs da Austrália, revelando como o isolamento nos Antípodas criou a banda de hard rock mais pura do planeta.

No dia 17 de Fevereiro de 1975, a editora Albert Productions lançava na Austrália um disco que não pedia licença a ninguém, para coisa nenhuma: High Voltage. Embora a versão internacional (lançada um ano depois) fosse uma mistura deste álbum com o sucessor T.N.T., o High Voltage original é o documento histórico mais puro do que eram os AC/DC antes de se tornarem uma marca global. É um disco sujo, vibrante e, acima de tudo, perigoso.

A génese deste som começa em Glasgow, na Escócia, mas cristaliza-se no calor de Sydney. A família Young emigrou para a Austrália em 1963, trazendo na bagagem uma ética de trabalho rigorosa e um amor profundo pelo blues e pelo rock ‘n’ roll original. Estar na Austrália nos anos 70 era estar isolado do mundo, mas isso foi a maior vantagem dos AC/DC. Longe das modas de Londres ou de Los Angeles, a banda dedicou-se a desenvolver um som puro, sem as contaminações do glam rock excessivo ou do rock progressivo pretensioso que dominava o hemisfério norte.

Eles eram influenciados pelo que ouviam na rádio — Little Richard, The Rolling Stones, The Who — mas tocavam-no com uma raiva e uma urgência que só o isolamento das Antípodas poderia produzir.

A influência fundamental, no entanto, não veio de fora, mas de dentro: George Young, o irmão mais velho, já era uma estrela internacional com os The Easybeats, de “Friday on My Mind” (abre link). Foi George quem ensinou aos irmãos mais novos, Malcolm e Angus, que o segredo não estava na velocidade, mas no swing. Ele foi o mentor e o produtor que garantiu que o som dos AC/DC tivesse uma fundação de betão armado.

Embora Angus Young seja o rosto da banda, os AC/DC foram, desde o primeiro segundo, a visão de Malcolm Young. Enquanto outras bandas dos anos 70 se perdiam em sintetizadores, Malcolm focava-se na economia do ritmo. Com a sua Gretsch “The Beast” (abre link), ele criou um estilo de guitarra rítmica seco e percussivo; ele era o general no palco.

Se Malcolm era a estrutura, Angus Young foi o elemento que transformou um grupo de pubs num espectáculo visual inesquecível. A ideia da farda de escola foi o golpe de génio: contrastava o aspecto de um puto rebelde com uma agressividade sonora avassaladora. Angus trouxe a galvanização. Ele era o para-raios que atraía a atenção do público com a sua Gibson SG e Marshall de 100 watts (abre link), enquanto a banda mantinha o ritmo hipnótico e inabalável.

Em High Voltage, ouvimos Angus com uma energia maníaca, como um guitarrista que ainda está a descobrir os limites da sua própria eletricidade, alternando entre o blues tradicional e explosões de puro caos sónico.

Bon Scott: O Poeta da Sarjeta

Para entender High Voltage, é preciso fechar os olhos e imaginar o ambiente das “pubs” australianas da década de 70. Eram lugares violentos, onde o público não queria saber de virtuosismo ou de mensagens filosóficas; queriam batida, volume e uma razão para beber.

Os irmãos Malcolm e Angus Young entenderam isso melhor do que ninguém, como já vimos. Malcolm, o arquitecto rítmico, a disciplina de uma metrónomo humano. Angus, o miúdo de farda de escola, trouxe a energia luciferina e pueril impregnada pelo espírito de Chuck Berry. Mas foi a entrada de Bon Scott, mesmo nas vésperas da gravação de High Voltage, que deu à banda a sua alma marginal. Ele não era apenas um vocalista; era um contador de histórias com um sorriso malandro e uma voz que soava como se tivesse sido lavada em uísque e gargarejada com pregos.

Em High Voltage, Bon estabelece o arquétipo do “rock and roll outlaw”. Em malhas como “She’s Got Balls” ou “Soul Stripper”, as letras são cruas, carregadas de duplo sentido e de uma honestidade brutal sobre o submundo. Bon não cantava sobre amor romântico; cantava sobre desejo, sobrevivência e a vida noturna sem filtros.

Musicalmente, High Voltage é uma lição de economia. O circuito de pubs australiano era o campo de treino mais duro do mundo; se não fosses físico e directo, o público atirava-te garrafas. Assim se depurou “Baby, Please Don’t Go”, uma versão frenética do clássico de Big Joe Williams que abre o disco, onde Angus mostra solos que bebem directamente do blues, mas com uma distorção que anunciava o futuro do metal.

Uma malha como “Stick Around” exemplifica o groove da banda: o baixo de George Young (irmão mais velho de Malcolm e Angus e produtor do disco) e a bateria de Tony Kerrigan criam uma fundação sólida onde as guitarras podem brilhar sem nunca perder o pé. “Love Song”, por exemplo, é uma curiosidade histórica, sendo talvez a única balada real da carreira da dos AC/DC, revelando um lado que seria rapidamente abandonado em favor da pura agressividade.

O Nascimento de uma Religião

Quando os AC/DC entraram em estúdio para gravar High Voltage, em Novembro de 1974, tinham apenas dez dias para completar o álbum. Essa urgência está gravada nos sulcos do disco. Não houve tempo para dúvidas. A entrada de Bon Scott, apenas semanas antes das gravações, foi a peça final do puzzle. Ele trouxe o carisma de um pirata moderno que uniu a visão rígida de Malcolm ao espectáculo de Angus.

Produzido por George Young e Harry Vanda, o som de High Voltage é seco, frontal e sem os exageros de efeitos que dataram muitos discos daquela época. Este álbum provou que o Rock ‘n’ Roll não precisava de se reinventar para ser relevante; precisava apenas de voltar às suas raízes eléctricas e precisava apenas de ser tocado com mais força e mais honestidade do que qualquer outra outra coisa.

Os AC/DC de 1975 eram uma máquina de guerra pronta para conquistar o mundo, um palco de cada vez. O título High Voltage não era apenas uma metáfora; era um aviso. Quem tocasse naquela banda corria o risco de levar um choque.

Um pensamento sobre “High Voltage, A Forja de um Império Eléctrico (1973–1975)

Leave a Reply