Amadora BD

Amadora BD 2026: A Nona Arte Entre o Mito, o Fantástico e a Realidade

O Amadora BD regressa de 15 a 25 de Outubro, cruzando Lucky Luke, Blake e Mortimer, Dylan Dog, Quarteto Fantástico, autores portugueses e novas linguagens da banda desenhada. Apresentamos o programa, concursos e exposições.

A banda desenhada tem uma particularidade que poucas outras formas de expressão artística conseguem preservar com tanta naturalidade: pode habitar simultaneamente a memória e o presente, a aventura e a política, o fantástico e o quotidiano. Pode nascer de um desenho feito há oitenta anos e continuar a encontrar novas formas de existir, ou servir de instrumento para falar de guerra, fanatismo, identidade, medo, solidão e liberdade. É precisamente essa amplitude que a 37.ª edição do Amadora BD volta a colocar em evidência, entre 15 e 25 de Outubro de 2026.

O núcleo central do Amadora BD instala-se no Parque da Liberdade, com extensões à Galeria Municipal Artur Bual e à Bedeteca da Amadora. O programa reúne catorze exposições, atravessando algumas das personagens e linguagens mais importantes da história da banda desenhada, mas também autores e projectos que ajudam a perceber como a nona arte continua a reinventar-se.

Entre as celebrações mais evidentes está Lucky Luke, que chega aos 80 anos. O sol nunca se põe realmente percorre o trabalho de Morris e a continuidade assegurada por Achdé, mas vai além da simples celebração nostálgica. A exposição olha para a construção daquele Oeste particular, para a representação das mulheres e para os choques culturais presentes numa série que encontrou na comédia uma forma particularmente eficaz de observar a sociedade. O percurso inclui ainda homenagens de Matthieu Bonhomme, Blutch, Mawil e Ralf König, assim como a participação portuguesa de André F. Morgado e Joana Afonso numa antologia europeia dedicada ao cowboy.

Outro dos grandes aniversários celebrados no Amadora BD pertence a Blake e Mortimer, criados por Edgar P. Jacobs em 1946. So British desde 1946 recupera sobretudo o período correspondente à vida do autor, sem esquecer os muitos artistas que continuaram a obra depois da sua morte. Pranchas e esboços acompanham um universo onde espionagem, ciência e ficção científica se cruzam com uma concepção visual que ajudou a definir a chamada Linha Clara. Jacobs produziu apenas dez álbuns até 1987, nove deles pertencentes à série, mas deixou personagens e histórias que continuam a ser trabalhadas por sucessivas gerações de autores.

Se Lucky Luke representa uma das grandes tradições humorísticas europeias e Blake e Mortimer uma das suas vertentes mais sofisticadas de aventura, Dylan Dog leva o Amadora BD para outro território. Criado por Tiziano Sclavi em 1986, o Investigador do Pesadelo tornou-se uma figura central dos fumetti de terror italianos precisamente porque os seus monstros raramente são apenas monstros. Medo, solidão, loucura e fragilidade humana fazem parte de um universo onde o horror serve também para olhar para aquilo que existe por baixo da superfície. A exposição dos 40 anos da personagem percorre essa evolução através do trabalho de vários dos artistas que lhe deram forma.

Do outro lado do Atlântico, a exposição Quarteto Fantástico: a família que criou a Marvel assinala os 65 anos da série criada por Stan Lee e Jack Kirby. Fantastic Four #1, publicado em 1961, não introduziu simplesmente mais quatro super-heróis: ajudou a estabelecer a própria linguagem da Marvel moderna. Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm eram uma família antes de serem uma equipa, e essa dimensão humana coexistia com a exploração de dimensões desconhecidas, ficção científica e uma imaginação praticamente sem limites. A exposição no Amadora BD recupera os 65 anos de histórias através de originais ligados a diferentes fases e autores da série.

Mas talvez seja precisamente quando o Amadora BD abandona as personagens mais reconhecíveis que se percebe melhor a sua dimensão contemporânea. Guy Delisle chega com O viajante imprevisto, enquanto Josep Homs apresenta Ilustrar o fantástico, duas propostas que apontam para possibilidades muito diferentes da linguagem gráfica. O programa inclui ainda As Raparigas de Salem – Vozes que o fanatismo quis calar e As linhas que traçam o meu corpo, exposições que colocam questões de memória, identidade e violência dentro de linguagens visuais muito afastadas da BD de aventuras tradicional.

Há também espaço para a própria memória da produção portuguesa no Amadora BD. O Menino Triste – 25 Anos assinala o percurso da personagem de João Mascarenhas, enquanto Kingpin Books: 20 Anos a contar Histórias olha para duas décadas de uma editora que se tornou uma presença importante na divulgação de banda desenhada em Portugal. Não são apenas comemorações de catálogo: juntas, ajudam a perceber como se construiu um ecossistema editorial português capaz de colocar diferentes gerações de autores, leitores e editoras em contacto.

Na Bedeteca da Amadora, Tales from Nevermore – Uma viagem entre o terror e o humor, de Pedro N. e Manuel Monteiro, coloca precisamente esses dois universos em contacto. Na Galeria Municipal Artur Bual, Vasco Gargalo apresenta Reflexões – Ironia, crítica e liberdade de expressão, enquanto Spam Cartoon – A Raiva e o Riso leva para o mesmo espaço uma linguagem que sempre encontrou no desenho uma forma rápida e contundente de responder ao mundo. Essa presença do cartoon político é particularmente importante porque impede que o Amadora BD seja reduzido a um festival de personagens, coleccionismo e nostalgia.

A banda desenhada também pode ser comentário, sátira, testemunho e confronto. Pode falar através de uma personagem inventada ou de uma imagem que precisa de apenas alguns segundos para desmontar uma realidade inteira. Essa preocupação com o presente surge também na participação de novos autores. O Concurso de Banda Desenhada da Amadora 2026 propõe como tema Combater o bullying, promover a inclusão e está aberto a autores entre os 12 e os 30 anos, divididos em dois escalões. O objectivo passa por incentivar a criação de novas obras e, simultaneamente, usar a banda desenhada como espaço de reflexão sobre os efeitos sociais e emocionais do bullying.

O Amadora BD terá ainda os Prémios de Banda Desenhada da Amadora, com distinções para Melhor Obra de Autor Português, Melhor Obra Estrangeira Editada em Portugal, Melhor Fanzine/Publicação Independente, Melhor Edição Portuguesa de Banda Desenhada e Prémio Revelação. A cerimónia realiza-se a 18 de Outubro, sendo que o prémio para Melhor Obra de Autor Português tem um valor de 10.000 euros e o Prémio Revelação de 3.000.

Durante dez dias, portanto, o Amadora BD transforma-se novamente num ponto de encontro para uma arte que há muito deixou de caber numa definição única. Lucky Luke e Dylan Dog, Blake e Mortimer e o Quarteto Fantástico pertencem a universos muito diferentes, mas partilham uma coisa essencial: todos sobreviveram à época em que foram criados porque a banda desenhada nunca dependeu apenas das personagens. Depende da capacidade de cada geração voltar a desenhá-las, reinterpretá-las, contradizê-las ou abandoná-las para contar outra coisa.

É isso que torna interessante o Amadora BD deste ano. O passado está por toda a parte, mas não aparece como peça de museu. Morris continua a ser redesenhado, Jacobs continua a ser continuado, Dylan Dog continua a enfrentar novos pesadelos e Kirby e Lee continuam presentes numa das maiores máquinas culturais do nosso tempo. Ao mesmo tempo, há autores portugueses, editoras independentes, cartoonistas e criadores que usam a mesma linguagem para falar de problemas que não existiam quando aquelas primeiras pranchas foram desenhadas.

15–25 de Outubro de 2026; núcleo central no Parque da Liberdade, com programação na Galeria Municipal Artur Bual e na Bedeteca da Amadora. O núcleo central funciona de segunda a quinta, das 10h00 às 20h00, e às sextas, sábados e domingos, das 10h00 às 21h00. Há minibus entre os diferentes núcleos durante o festival. Mais detalhes de bilhética e visitas guiadas, etc, no site oficial da Amadora BD.

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