Celtic Frost

Celtic Frost, A Estranha Jornada de Into the Pandemonium a Cold Lake

Dois álbuns antagónicos dos Celtic Frost que encapsulam os altos e baixos de uma banda que ousou ser diferente, mesmo que isso significasse perder-se ao longo do caminho. E, como a história tantas vezes demonstra, as jornadas mais impactantes são aquelas que vêm com as lições mais difíceis.

No mundo do metal, poucas bandas atingiram tamanho estatuto reverencial e menos se atreveram a experimentar as fronteiras do género de forma tão ousada como os Celtic Frost. Oriundos de Zurique, na Suíça, e liderados pelo sorumbático guitarrista/vocalista Tom G. Warrior, em meados da década de 1980, os Celtic Frost tinham-se estabelecido como pioneiros da música extrema, criando uma mistura única de thrash, doom, death, black e gothic metal com álbuns como “Morbid Tales” e “To Mega Therion”.

Mas foi “Into the Pandemonium”, lançado em 1987, que talvez tenha marcado o auge criativo da banda e, paradoxalmente, preparado o terreno para um dos períodos mais controversos da história dos Celtic Frost…

Negrume Extra Muros

“Into the Pandemonium” foi um trabalho vanguardista que expandiu a paleta sónica dos Celtic Frost muito além dos limites do metal tradicional. O álbum apresenta uma mistura impressionante de riffs de guitarra pesados, elementos clássicos e orquestrais e influências inesperadas de géneros como o industrial, a new wave e até o rock gótico. Músicas como “Mexican Radio” (uma versão do hit new wave dos Wall of Voodoo) e “Mesmerized” revelam um nível quase radical de experimentação, enquanto a assombrosa “Rex Irae (Requiem)” introduziran orquestração e coros operáticos absolutamente inéditos no metal daquela época.

Em entrevista com a Metal Injection, Tom G. Warrior aka Gabriel Fischer pondera sobre o difícil parto daquele que, para muitos, é o pináculo desta era da banda: o álbum “Into The Pandemonium”. E se não é um disco perfeito, na opinião de Fischer, é claramente um exercício de emancipação. «Estou bem ciente das suas falhas. E, claro, não é uma obra-prima. Penso que dizê-lo é demasiado lisonjeiro. Mas o que representa são dois jovens músicos a lutar pela sua liberdade artística. Por estranho que isto possa soar hoje em dia, quando basicamente se pode fazer o que se quer na música».

«Nessa altura, era literalmente uma luta diária contra a companhia discográfica e contra certas percepções na cena e nos meios de comunicação social. E a editora discográfica tentou, literalmente, encerrar a produção em vários pontos. E tínhamos realmente de apoiar a nossa visão artística», conclui Warrior.

Embora “Into the Pandemonium” tenha polarizado os fãs, recebeu elogios dos críticos que reconheceram a sua ousadia e ambição. No entanto, os riscos criativos trouxeram consigo custos financeiros e pessoais consideráveis. A produção do álbum foi dispendiosa e a visão da banda, como Fischer refere, entrou muitas vezes em conflito com a sua editora discográfica, a Noise Records, que achou o projecto difícil de comercializar. Os arranjos complexos e os temas desafiadores do álbum marcaram um ponto alto na arte da banda, mas também semearam as sementes da turbulência interior.

No Limiar do Colapso

A natureza estética de “Into the Pandemonium” e as pressões em torno da sua produção desgastaram as relações entre Tom G. Warrior e os seus companheiros de banda, o baixista Martin Eric Ain e o baterista Reed St. Mark. Havia alguma discórdia entre o trio sobre a direcção certa para os Celtic Frost. À medida que a pressão financeira e a exaustão criativa aumentaram, as tensões atingiram um ponto de ebulição. Warrior deixou a banda brevemente, alegando frustração com rumo da banda e desgaste das exigências criativas do álbum anterior. Por um momento, no final de 1987, parecia que os Celtic Frost desmoronavam-se rumo à extinção.

Mas em vez de se dissolverem, os Celtic Frost reagruparam-se com uma direcção musical renovada – ainda que inesperada (e metam inesperada nisso) – que levaria a um dos lançamentos mais controversos da sua carreira. Martin Eric Ain e Reed St. Mark desertaram da ideia. Tom G. Warrior recrutou o guitarrista Oliver Amberg, o baixista Curt Victor Bryant e o baterista Stephen Priestly, que gravara a maioria das malhas de “Morbid Tales”.

Quando os Celtic Frost reapareceram, logo em 1988, com “Cold Lake”, fizeram-no com inusitada audácia e de uma forma que dividiria para sempre os seus fãs.

Glam Metal?

“Cold Lake” mostrou os Celtic Frost numa viragem radical em direcção ao estilo que inundava as ondas hertzianas e a própria MTV. A experimentação avant-garde e a atmosfera obscura desapareceram. Em vez disso, “Cold Lake” abraçou a estética vistosa da cena glam ou hair metal, completa com produção polida, ganchos melódicos acessíveis e letras que se inclinavam fortemente para o estilo de vida hedonista das bandas da Sunset Strip. A contracapa do álbum, com uma imagem da banda renovada, foi bastante explícita…

Para muitos fãs e críticos, “Cold Lake” foi nada menos que uma traição, apenas focado em visar um som mais mainstream e comercialmente viável. Malhas como “Cherry Orchards” e “Dance Sleazy” eram mais parecidas com a música que emanava de álbuns de Poison ou Mötley Crüe do que com as trevas sufocantes de “Into the Pandemonium”. Mais tarde, o próprio Tom G. Warrior expressou profundo arrependimento pelo álbum, referindo-se-lhe como «um pedaço de merda» e distanciando-se do disco sempre que possível.

Em sua defesa, “Cold Lake” não surgiu de um vácuo. Como referido, foi o resultado das imensas pressões criativas e financeiras que a banda enfrentou após “Into the Pandemonium”. O líder dos Celtic Frost, em diversas ocasiões, descreveu como se sentiu tanto alienado quanto pressionado pela rejeição da comunidade metaleira às experimentações da banda, assim como a necessidade de criar algo comercializável. De muitas maneiras, “Cold Lake” foi um risco calculado para manter os Celtic Frost financeiramente viáveis, embora tenha tido o pesado tributo de alienar uma parte significativa da sua base de fãs.

Duas Faces de Uma Moeda (Grotesca)

A mudança drástica entre “Into the Pandemonium” e “Cold Lake” diz muito sobre as pressões a que mesmo uma banda como os Celtic Frost estão sujeitos na implacável indústria musical. E, no final de contas, cada um dos discos representa dois extremos do especro criativo, ligados por um fio condutor comum de experimentação que deu para o torto. Ambos os álbuns ilustram o equilíbrio precário entre a arte e a viabilidade comercial e sublinham as pressões internas e externas que as bandas enfrentam para definir o seu som.

Depois de investir tanto na criação de algo inovador e profundamente pessoal, apenas para enfrentar críticas e perdas financeiras, Tom G. Warrior e os Celtic Frost podem ter sido tentados a “vender-se” numa tentativa de apelar a um público mais vasto. “Cold Lake” tornou-se um ponto de advertência, muitas vezes citado como um dos erros mais infames do metal.

Todavia, nos anos seguintes os Celtic Frost começaram a reconstruir-se lenta, mas seguramente. O álbum “Vanity/Nemesis”, de 1990, viu a banda voltar a um som mais pesado e sombrio, embora continuasse a experimentar novas texturas e temas. E já em 2006 chegou o magistral “Monotheist”. Seguido pelos Triptykon. Embora “Cold Lake” permaneça como um corpo estranho na discografia dos Celtic Frost, resultado infeliz de um momento de vulnerabilidade, sem esse passo é difícil dizer se Tom G. Warrior teria valorizado o som sombrio e experimental do qual os Celtic Frost foram pioneiros e posteriormente recuperaram.

Resumindo, estes álbuns representam dois lados da mesma moeda: “Into the Pandemonium” é um testemunho da vontade dos Celtic Frost de ultrapassar os limites, enquanto “Cold Lake”, em retrospectiva, oferece-nos uma perspectiva incomum sobre uma instituição do metal. E mesmo que sirva como um exemplo das consequências quando uma banda se afasta demasiado do seu núcleo, não deixa de ter o seu charme…

É desde logo divertido pensar na audácia de Tom G. Warrior em pensar que era tudo o que as milhares de fãs femininas procuravam nos looks de uma rockstar dos 80s. Depois, aquele balanço Alice Cooper e a fusão entre os riffs vertiginosos dos Megadeth com alguma misoginia caricata possui um enorme apelo. Além disso, pode ser o pior álbum dos Celtic Frost, mas está longe de ser um mau álbum.

Um pensamento sobre “Celtic Frost, A Estranha Jornada de Into the Pandemonium a Cold Lake

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