De “Out of the Silence” a “Road to Eden”, uma viagem pela discografia dos Dare: das raízes AOR ao cruzamento com a espiritualidade do cristianismo celta, Darren Wharton nunca deixou de escrever com a aorta aberta.
Há bandas que soam a um tempo e a um lugar, e há outras que soam a um lar. Os Dare são das segundas. O seu som — meio etéreo, meio inflamado — nasceu do cruzamento improvável entre a introspecção celta e o romantismo heróico do AOR britânico. Aquela nostalgia das baladas da Ilha Esmeralda e a pujança melódica dos Def Leppard. No centro, sempre ele: Darren Wharton, o jovem teclista que, aos dezoito anos, já tocava nos Thin Lizzy e que transportou consigo, para o seu próprio projecto, as sombras melancólicas e o lirismo trágico que herdou de Phil Lynott.
Quando os Dare surgem, em 1985, o hard rock britânico vivia um dilema identitário. Entre o glamour da MTV e o peso residual da New Wave of British Heavy Metal, havia pouco espaço para a contemplação. E, no entanto, Wharton queria exactamente isso — um som que respirasse, que deixasse o coração falar antes dos amplificadores. Recrutou o guitarrista Vinny Burns, então um prodígio de Manchester, e formou uma banda que soava mais a paisagem emocional do que o produto de estúdio. O que viria a seguir seria uma trilogia singular — Out of the Silence (1988), Blood from Stone (1991) e Calm Before the Storm (1998) — cada um deles, um capítulo na lenta conversão de Wharton de rocker para peregrino.
De facto, há em Dare algo de profundamente irlandês, mesmo sendo uma banda inglesa. É o modo como os refrões parecem preces, as melodias evocam colinas cobertas de névoa e as letras oscilam entre a culpa e a redenção. Wharton canta como quem procura consolo e castigo ao mesmo tempo. E o seu cristianismo — subtil, mas omnipresente — nunca se impõe como dogma, mas como angústia. Em Abandon, pede a Deus que o salve de si mesmo; em Wings of Fire, parece falar com anjos embriagados de humanidade.
Talvez por isso, ouvir os Dare é como visitar um santuário em ruínas: há beleza, mas também perda. Há fé, mas também dúvida. A voz de Wharton é o vitral rachado por onde ainda entra luz. E os solos de guitarra são os ventos que sopram entre as pedras, carregando a memória dos antigos bardos — ou das banshees — que sussurram que toda melodia é uma forma de oração.
O Fogo Original

Out Of The Silence (1988) | No final da década de néon, o mundo parecia dividido entre a pompa dos cabelos altos e o peso do desencanto. Nos Estados Unidos, o AOR vivia o seu crepúsculo dourado; na Europa, o hard rock começava a perder terreno para o cinismo alternativo que se aproximava. E no meio desse trânsito emocional surgem os Dare com Out of the Silence, um disco que não grita — antes respira.
Gravado nos lendários Warehouse Studios, em Oxfordshire, e produzido por Mike Shipley (o mesmo engenheiro que moldara a clareza meticulosa de Def Leppard e The Cars), o primeiro disco dos Dare é uma declaração de intenções quase espiritual. Desde o primeiro tema, Abandon, percebe-se que Darren Wharton não queria apenas soar bem: queria soar verdadeiro. A sua voz, simultaneamente terna e intensa, conduz o ouvinte por um território onde o romantismo e a fé se confundem.
Musicalmente, Out of the Silence é um tratado de elegância. As guitarras de Vinny Burns deslizam como lâminas banhadas em melodia, e os teclados — nunca excessivos — funcionam como brumas, moldando o ar em torno das canções. Há ecos de Journey e Asia, mas também uma sensibilidade lírica herdada de Phil Lynott, o velho mestre que ensinara Wharton que o rock podia ser poesia sem perder a carne.
As malhas — Into the Fire, Nothing Is Stronger Than Love, The Raindance, King of Spades — desenham um mapa emocional que oscila entre o amor humano e a transcendência. King of Spades, em particular, é um epitáfio velado a Lynott, morto dois anos antes. A canção ergue-se como uma elegia sobre o peso da mortalidade e o eco das figuras tutelares que desaparecem cedo demais. Wharton não o diz directamente, mas canta-o: «Hearts that beat too fast will never fade away».
O sucesso comercial foi modesto, mas o impacto artístico foi duradouro. Out of the Silence tornou-se um segredo partilhado entre melómanos que recusavam o cinismo. Era um disco feito para acreditar — em algo, em alguém, em nós próprios. E, décadas depois, mantém essa aura de devoção, como se cada faixa fosse uma pequena oração aos deuses esquecidos do rock melódico. Entre os sintetizadores cintilantes e os solos quase litúrgicos, Out of the Silence é, acima de tudo, um álbum sobre esperança — e sobre a coragem de a cantar num tempo em que já poucos acreditavam nela.
★★★★★

Blood From Stone (1991) | Três anos depois da pureza cristalina de Out of the Silence, os Dare voltavam à superfície — mas o mundo já era outro. O rock dos anos 80 estava a implodir sob o peso dos seus próprios adornos, e as rádios começavam a ceder ao apelo sujo do grunge. Darren Wharton, porém, não era homem de desistir nem de se render às modas: Blood From Stone é, nesse sentido, o seu disco mais teimoso e combativo.
Gravado entre o País de Gales e os estúdios Battery de Londres, o álbum soa como uma tentativa deliberada de endurecer a pele. O título — “sangue da pedra” — diz tudo: a ideia de extrair emoção de um tempo que já não a queria. Os teclados ainda lá estão, mas recuados, soterrados sob uma muralha de guitarras em que Vinny Burns assume o papel de gladiador. A produção de Keith Olsen (Whitesnake, Scorpions, Foreigner) carrega o disco de músculo e densidade, como se fosse preciso provar que o romantismo também podia soar ameaçador.
A abertura com Wings of Fire é um trovão — riff metálico, refrão que ruge, uma bateria que não pede licença. Muito menos o single We Don’t Need A Reason. Surrender e Chains continuam o ataque, mas é nas faixas mais dramáticas, como Ashes ou Cry Wolf, que o génio de Wharton reaparece com mais clareza: a sua voz — entre o profeta e o penitente — transforma o melodrama em liturgia. Há ali uma ferida aberta, talvez o reconhecimento de que o sonho dos anos 80 estava a morrer. O lirismo espiritual de Out of the Silence cede lugar a uma raiva contida. Run to Me poderia ser um hino de fé perdida; Real Love é quase uma confissão.
Os Dare, em plena forma, parecem lutar contra um inimigo invisível — o tempo, talvez, ou a própria indústria. Há uma secura deliberada na sonoridade, um toque metálico que antecipa, em alguns momentos, a melancolia que viria a dominar o hard rock britânico do pós-1991. Blood From Stone não teve o sucesso que merecia. A MTV e as editoras estavam já de olhos postos em Seattle, e os Dare soavam, para muitos, como os últimos românticos de uma era a afundar-se. Mas é precisamente essa qualidade — o não-pertencimento — que o torna tão fascinante hoje. É um álbum feito de resistência e fé, como uma cruz erguida num campo de batalha abandonado.
E no centro de tudo está Wharton, ainda a cantar como quem ora, ainda a crer que a beleza pode sobreviver à moda. Blood From Stone é a sua paixão segundo o AOR: o momento em que o amor, a fé e o som colidem — e, da fractura, nasce o milagre.
A Trilogia Celta

Calm Before the Storm (1998) | Quando Darren Wharton reaparece em 1998, o mundo já não se lembra bem de como era rezar ao som de guitarras. O grunge morrera, o britpop cansara-se de si mesmo, e a MTV tornara-se um espelho sem alma. Nesse interregno, o nome Dare parecia ter-se dissolvido como uma lembrança, um eco vindo de um tempo mais puro. Mas Calm Before the Storm surge, então, como uma epifania tardia — o renascimento de um homem que compreendeu que a força não precisa de rugir.
Gravado no País de Gales, com uma formação reformulada e produção inteiramente a cargo de Wharton, o terceiro álbum dos Dare é um exercício de introspecção luminosa. Tudo soa mais íntimo, quase pastoral. As guitarras, agora a cargo de Andrew Moore, perderam o aço e ganharam ar; os teclados tornaram-se brisa e não tempestade. A voz de Darren, amadurecida, deixa cair a urgência juvenil e assume um tom confessional, como quem fala com Deus de igual para igual.
Desde a abertura e a faixa-título — duas das canções mais belas da sua carreira — percebe-se que o foco já não é o espectáculo, mas o espírito. Silence of Your Head, Walk on the Water (ainda da primeira fase dos Dare) e Someday ressoam como salmos modernos, onde a melancolia é uma forma de fé. Há aqui uma espiritualidade discreta, uma religiosidade que não prega: simplesmente observa, agradece e aceita. A sonoridade aproxima-se do Celtic rock e da folk britânica, sem nunca perder o ADN melódico.
O passado de Wharton como teclista dos Thin Lizzy manifesta-se em pequenos gestos — os arpejos elegantes, os refrões que parecem entoados ao pôr do sol sobre o mar da Irlanda. Mas agora, a herança de Phil Lynott já não é uma sombra: é uma bênção. O título, Calm Before the Storm, funciona quase como um manifesto inverso. A “tempestade” é o mundo — o ruído, a pressa, a indústria. A “calma” é o refúgio interior de Wharton, que aprendeu a esculpir a devoção em vez de a declamar. É um disco de redenção e contemplação, onde cada nota respira.
O público, contudo, já tinha mudado de frequência. A crítica ignorou o álbum, mas quem o descobriu fala dele com uma reverência serena, como se tivesse encontrado uma pequena igreja no meio da floresta. E, de certa forma, é isso mesmo que Calm Before the Storm representa: o momento em que Dare deixa de ser uma banda e passa a ser um acto de fé, uma peregrinação melódica ao coração do sagrado.
★★★★★

Belief (2001) | Se Calm Before the Storm foi o renascimento, Belief é a ascensão. O título não engana: Darren Wharton, agora plenamente senhor do seu templo sonoro, escreve e canta como quem encontrou a paz depois da longa travessia. Este é o disco em que os Dare se convertem definitivamente ao espírito celta — não por estética, mas por devoção. A música deixa de ser apenas melodia e passa a ser liturgia, uma oferenda ao mistério.
Gravado com produção artesanal e uma entrega quase monástica, Belief é o álbum mais espiritual dos Dare. Tudo é mais lento, mais etéreo, mais imerso numa bruma melódica onde a guitarra já não rasga — vela. As composições parecem desenhadas à mão sobre pedra húmida, com arranjos que evocam tanto o folk escocês como o ambient dos Clannad, mas sempre filtrados pela sensibilidade romântica e melancólica de Wharton. Em canções como Run to Me, Silent Thunder ou Dreams on Fire, o som torna-se orante. Não há espaço para o artifício — apenas para a emoção, a memória e a fé.
A voz de Darren, longe da grandiloquência dos anos 80, ganha uma textura pastoral, como se tivesse absorvido o vento e a maresia do norte galês. Há momentos em que parece sussurrar aos fantasmas de Phil Lynott e Gary Moore, agradecendo-lhes pela lição da vulnerabilidade. Tematicamente, Belief é um álbum sobre a reconciliação entre o homem e o divino. Não o Deus institucional, mas o Deus das montanhas e do fogo, o mesmo que habitava as lendas celtas — e que, agora, é redescoberto na contemplação e no perdão. É um disco de luz e neblina, de mares interiores, de redenção sem dogma.
Musicalmente, é também o ponto onde Dare deixa de pertencer ao AOR e assume uma voz única, quase impossível de rotular. O peso metálico de outrora dissolve-se em atmosferas corais e guitarras que soam como ecos de arpas distantes. Há uma pureza quase medieval na construção das melodias, e cada refrão é como uma oração de agradecimento — não por algo recebido, mas por ainda estar vivo.
Belief foi, para muitos, o verdadeiro ponto de viragem dos Dare. Ignorado pelas rádios, venerado por um pequeno culto de seguidores, é um disco que não procura convencer ninguém: apenas existir, em humildade e plenitude. E é nessa renúncia ao mundo que os Dare encontram o seu verdadeiro lugar — um território entre a terra e o céu, onde as canções brilham como vitrais em penumbra.
★★★★★

Beneath the Shining Water (2004) | Com Beneath the Shining Water, Darren Wharton deixa de ser apenas o ex-teclista dos Thin Lizzy e torna-se definitivamente um contador de histórias sagradas. Este é o disco onde os Dare atingem a serenidade total — o culminar de uma peregrinação interior iniciada em Calm Before the Storm e purificada em Belief. O som, agora, não vem da terra nem do corpo: vem do espírito, e corre como um rio que reflecte o céu.
Desde a abertura com Sea of Roses percebe-se que estamos diante de um álbum pensado como oração em movimento. As melodias são líquidas, translúcidas, e os arranjos transportam uma espiritualidade profundamente celta — violinos, teclados atmosféricos e guitarras que já não ferem, antes flutuam. Tudo é brando, mas nunca frágil. Há uma força antiga na doçura que o álbum exala, uma fé que não se impõe, apenas acolhe.
A voz de Darren, madura e resignada, parece agora a de um monge trovador. Fala da passagem do tempo (Beneath the Shining Water), da memória dos que partiram (The Battle That Was Lost), e da esperança que renasce na melancolia (Where Darkness Ends). Cada canção é uma pedra lançada ao lago — cria ondas que se alargam e nunca cessam. É aqui que se sente plenamente o peso simbólico da Irlanda mística, feita de névoa, santos, colinas e sepulcros megalíticos. Wharton parece cantar não só com voz humana, mas com a memória dos antepassados, como se os Dare fossem a última chama de uma linhagem antiga de bardos.
Musicalmente, o álbum é uma tapeçaria de folk, AOR e música tão cinematográfica que quase se vê o reflexo do sol nas águas de Conwy ou Llyn Tegid. As guitarras são pincéis de luz, o baixo pulsa como o coração do mundo, e os teclados erguem-se como vitrais sonoros. Se Belief era o recolhimento, Beneath the Shining Water é a transfiguração.
É o momento em que os Dare já não buscam nada — porque encontraram tudo. O amor, a fé, a memória e a morte coexistem aqui sem conflito. É um disco de uma beleza quase incorruptível, uma das obras mais sinceras e espiritualmente completas do rock celta moderno. E, de certo modo, o último capítulo dessa trilogia luminosa — a partir daqui, Darren Wharton começaria a olhar novamente para as sombras, e as águas calmas voltariam a agitar-se.
A Trilogia do Retorno

Arc of the Dawn (2009) | Darren Wharton regressa do silêncio como quem volta do exílio. Cinco anos depois de Beneath The Shining Water, o som de Dare volta a abrir as asas — eléctrico, melódico, confessional. A serenidade dos discos anteriores não desaparece; transforma-se. Há aqui uma nova energia, uma reconciliação entre o homem contemplativo e o músico de palco, entre o devoto e o sonhador. A abertura homónima irradia a mesma pureza de Belief, mas sobre uma base mais firme, quase épica.
O peso das guitarras — com o regresso de Vinny Burns — surge como uma lembrança do fogo dos Dare nos anos 80, só que filtrado pela maturidade e pela luz. Wharton canta como quem regressa de uma longa travessia espiritual. A sua voz, quente e rugosa, é agora a de um homem que já viu o inferno e o céu, e decidiu ficar entre ambos. Temas como King of Spades (o clássico de ’88 regravado), Emerald (cover dos Thin Lizzy) ou Sail Away ecoam tanto a melancolia das paisagens galesas como a herança da lendária banda de Phil Lynnot.
Há uma produção mais ampla em todo o álbum: coros em reverberação, guitarras que brilham como reflexos na água, teclados que se erguem como montanhas distantes. E por baixo de tudo isso, uma pulsação constante — a do coração humano, falível e persistente. Wharton canta o amor, a perda e a fé com a serenidade de quem compreendeu que tudo o que nasce também desaparece — e que é precisamente nessa transitoriedade que reside o milagre.
É um álbum sobre o tempo e o seu arco luminoso, que começa na esperança e termina na gratidão. A crítica, uma vez mais, passou-lhe ao lado; mas os que o escutam sabem: Arc of the Dawn é o elo invisível entre o antigo esplendor e a quietude dos dias maduros dos Dare. O som da luz a curvar-se sobre a cinza.
★★★★★

Sacred Ground (2016) | Lançado sete anos depois da reconciliação com Vinny Burns (do regresso deste aos Dare) e da reescrita do passado, o álbum parece vir do mesmo lugar de recolhimento espiritual de sempre: o País de Gales de origem de Darren Wharton, entre vales húmidos e colinas cobertas de névoa. A música é invariavelmente feita de luz filtrada pela melancolia, nesse equilíbrio tão idiossincrático como raro entre a espiritualidade celta e o romantismo AOR.
A malha de abertura, a confessional Home, define o tom do disco: um proverbial regresso à origem, não apenas geográfica, mas interior. Until e Every Time We Say Goodbye são hinos à impermanência, canções sobre a fragilidade do amor e a força do perdão. Em I’ll Hear You Pray, Wharton condensa tudo os que Dare se tornaram: um cruzamento entre a contemplação e o AOR clássico, entre o sagrado e o profano. É o tipo de canção que parece brilhar de dentro para fora, mais sentida do que escrita.
Sacred Ground é meticuloso sem ser frio, luminoso sem ser fácil. Tudo parece gravado num estado de gratidão silenciosa. A voz de Wharton carrega o peso dos anos, a aceitação da passagem do tempo e as ausências deixadas pela vida, e há algo de comovente nessa serenidade: não é o entusiasmo dos vinte, nem o ímpeto dos trinta, mas a paz dos cinquenta, quando se canta apenas porque é preciso agradecer por ainda se poder cantar. A banda reencontra-se e refunda-se: Wharton já não parece querer provar nada, apenas existir em harmonia.
O álbum é atravessado por imagens de natureza — rios, vento, fogo, pedra, chuva —, símbolos de uma comunhão entre o homem e a physis. É o mesmo espírito dos salmos, traduzido em forma de canção moderna. A música dos Dare continua a ser cristã no sentido mais puro do termo: uma fé que não julga, apenas acolhe.
★★★★★

Road to Eden (2022) | Road to Eden é o ponto de chegada da viagem iniciada com Arc of the Dawn e consolidada em Sacred Ground. Aqui, Darren Wharton e os Dare parecem olhar para trás sem nostalgia e para a frente sem pressa, equilibrando a energia do AOR com a experiência acumulada ao longo de décadas. O disco transmite maturidade, tanto na escrita como na execução, e evidencia uma banda que conhece os seus limites e os transforma em força.
A produção mantém a clareza cristalina que se tornou assinatura de Wharton, mas há também uma densidade que não estava presente nos discos anteriores dos Dare: guitarras e teclados dialogam com naturalidade, e a secção rítmica oferece uma base firme sem se tornar intrusiva. As melodias são cuidadosamente construídas, e cada refrão parece pensado para permanecer na memória sem recorrer a excessos ou a clichês fáceis.
Tematicamente, Road to Eden continua a explorar fé, esperança e introspecção, mas de forma mais directa e menos simbólica que os trabalhos da Trilogia Celta dos Dare.
Este álbum destaca-se também pela coesão da banda. A química entre Wharton e Vinny Burns é sólida, e cada membro contribui com nuances que reforçam o carácter íntimo, mas poderoso das composições. É um disco que não precisa de gritar: fala com a confiança de quem construiu, ao longo dos anos, um caminho próprio e o percorre com convicção.
Em termos gerais, Road to Eden fecha não só mais um ciclo discográfico, como a própria caminhada dos Dare (Wharton criou, entretanto, um novo projecto) com serenidade e firmeza. Não há epifanias forçadas nem metáforas desnecessárias — há apenas música bem pensada, bem executada e sentida. É a prova de que os Dare, mesmo depois de tantas décadas, continuavam capazes de criar álbuns que soam relevantes e cheios de autenticidade.
Epílogo
Os Dare revisitaram, através de regravação integral, os clássicos álbuns Calm Before the Storm e Out Of The Silence, em 2012 e 2018, respectivamente. Darren Wharton não o fez por necessidade comercial, mas como gesto de preservação e reafirmação, principalmengte no primeiro caso, para ter essas malhas registadas por Vinny Burns. As versões regravadas actualizam o som com a experiência acumulada e a técnica amadurecida, ajustando arranjos e produção, mas mantêm a essência das canções: a fé, o lirismo e o melodismo característicos da banda.
A discografia dos Dare revela uma trajectória clara e coerente. É a história de uma banda que soube evoluir sem perder identidade, e de um compositor — Darren Wharton — que transformou fé, memória e experiência em música duradoura. O percurso é, ao mesmo tempo, humano e musical: os Dare continuam a ser uma referência discreta mas sólida, capaz de criar álbuns onde técnica, emoção e reflexão coexistem, oferecendo ao ouvinte tanto melodias imediatas como paisagens sonoras para percorrer com atenção. Um legado que atravessou décadas sem perder integridade.
