“The Bestiary”, o segundo álbum dos Castle Rat, é um épico de doom metal e fantasia, onde o magnetismo de Riley Pinkerton domina o universo sonoro e visual da banda — um disco onde cada malha parece viva, repleto de riffs pesados, solos vibrantes e mitologia ritualística.
Emergindo do subterrâneo nova-iorquino, infestando o imaginário com ferocidade e encanto, os Castle Rat regressam com The Bestiary, o seu segundo álbum, a consolidar o que já se adivinhava em Into the Realm: um universo sonoro e visual que é simultaneamente ritual e batalha. Se o primeiro álbum apresentava o “Reino” da Rat Queen como espaço de fantasia medieval imersiva, este novo trabalho amplia o léxico simbólico da banda, transformando cada malha numa fábula sonora onde monstros, heróis e arquétipos femininos coexistem num bestiário ritual.
Riley Pinkerton, a Rat Queen, permanece no centro do cosmos da banda, mas agora com uma presença ainda mais magnética e multifacetada. A sua armadura, que sobre os seios combina defesa e sedução, torna-se metáfora do poder feminino: corpo e artecfato num só gesto, impondo respeito e provocando desejo. É impossível ouvir The Bestiary sem sentir que cada riff, cada solo e cada harmonia foi concebido para amplificar a presença desta figura central, tornando-a simultaneamente leitora e narradora das histórias que se desenrolam.
Bestas
O conceito do álbum, como explica a própria Rat Queen, é o de uma enciclopédia, um «livro conceptual de bestas», reunindo criaturas místicas de um mundo esquecido. Cada animal, cada entidade, é preservado e narrado através da música, sob a égide do Wizard, figura enigmática que personifica o arquétipo do guardião do conhecimento e do limiar entre vida e morte. Esta escolha narrativa confere a The Bestiary uma densidade quase literária: não se trata apenas de riffs poderosos, mas de uma cosmogonia sonora onde cada tema é um capítulo de um grimório moderno.
Musicalmente, The Bestiary projecta-se como ainda mais pesado que o seu antecessor. Randall Dunn, na produção, acentua a dimensão ritual do som: camadas densas de guitarra, bateria cerimonial e baixo que parece ecoar de criptas ancestrais. Jonathan Nuñez, na mistura, consegue manter a clareza melódica enquanto o peso doom permanece intacto — algo essencial para que as histórias deste The Bestiary sejam compreendidas não apenas como ruído, mas como épicos contados em forma de canção. Cada malha funciona como talismã: de riffs maciços a solos que cortam o silêncio com precisão cirúrgica, o disco é simultaneamente uma experiência auditiva e um objecto de contemplação mítica.
The Bestiary dos Castle Rat não é apenas metáfora ou estética; é também política. Na sua centralidade, Riley Pinkerton questiona a ideia de autoridade no metal, género tradicionalmente dominado por figuras masculinas. Aqui, a Rainha não é uma personagem decorativa, mas o eixo que organiza toda a narrativa — musical, performativa e simbólica. O peso da armadura, o gesto de empunhar a guitarra como espada, a interacção com os outros membros — The Count, The Plague Doctor e The All-Seeing Druid — constroem uma hierarquia invertida: a mulher no centro, o masculino em suporte, a fantasia ao serviço da narrativa feminina.
É neste equilíbrio de poder, teatralidade e metal ritual que The Bestiary se torna mais do que um álbum: é um tratado sonoro sobre mitologia, corpo e agência. Cada faixa é um feitiço, cada solo um encantamento, cada harmonia uma invocação. E é esta densidade simbólica que distingue os Castle Rat da maioria das bandas de heavy/doom contemporâneo: não se limitam a reproduzir clichés de espada e feitiçaria; transformam o imaginário medieval em espaço de reflexão sobre o corpo, o género e a autoridade no heavy metal.
Feitiços
Se em Into The Realm os Castle Rat já nos transportavam para um mundo de masmorras, castelos e rituais, em The Bestiary a experiência sonora eleva-se a um nível quase físico. Desde o primeiro riff, o peso é imediato: guitarras que esmagam o ar com densidade Sabbathiana, baixos que reverberam como tambores de batalha, e a bateria de Josh Strmic que marca o compasso de um ritual inescapável. A produção de Randall Dunn imprime a cada malha um carácter quase cinematográfico, conferindo textura e profundidade a cada nota, transformando o álbum numa tapeçaria de sombras e luz, ameaça e encanto.
Os solos de guitarra, cada vez mais ousados e vibrantes, destacam-se como momentos de pura alquimia musical. Em “Wizard”, por exemplo, o tema abre com um riff cerimonial e evolui para um solo que parece atravessar labirintos de pedra e fogo; cada nota de Riley Pinkerton é um golpe de espada, uma invocação que reverbera para além dos ouvidos, atingindo a espinha do ouvinte. Mas não se trata apenas de velocidade ou virtuosismo (que também existem abundantemente – avancem para “Dragon”): o poder dos solos reside na forma como são integrados na narrativa de The Bestiary, funcionando como ecos dos monstros, espíritos e guardiões que povoam cada capítulo do disco.
Já em “Siren”, a banda revela outra faceta do seu espectro: o poder melódico e as harmonias épicas transformam a faixa numa espécie de cântico enfeitiçador. A alternância entre linhas vocais de Riley, cheias de intensidade e sensualidade, e as guitarras que se entrelaçam em contraponto, cria uma tensão quase dramática — é a voz da Rainha a guiar, a encantar e a desafiar o ouvinte. A malha evidencia a capacidade da banda de equilibrar brutalidade e beleza, ritual e melodia, fazendo de The Bestiary um bestiário sonoro tão devastador quanto encantador.
A produção de Dunn e a mistura de Nuñez são cruciais para que o disco mantenha esta dualidade, tão evidente na justaposição da parede de fuzz com os momentos acústicos e a doçura vocal de Riley. Ao contrário de alguns álbuns de doom contemporâneos, onde a densidade se torna opaca, aqui cada elemento ocupa o seu espaço sem perder peso. O baixo de The Plague Doctor pulsa como coração monstruoso, as guitarras de The Count e Riley são espadas em chamas, e a bateria de The All-Seeing Druid é o compasso do destino.
A mistura consegue transmitir a sensação de uma banda a atuar num espaço vasto, sagrado e perigoso, como se estivéssemos, de facto, dentro de uma campanha D&D, numa cripta com vitrais iluminados por tochas.
Além disso, The Bestiary não se limita a riffs e solos. Pequenos detalhes, como a inclusão de efeitos ritualísticos, coros fantasmagóricos e interlúdios que evocam cantos de bestas ou sussurros mágicos, enriquecem a sua narrativa. Estes elementos, epitomzados em “Serpent” transformam cada audição numa viagem: não estamos apenas a ouvir um álbum, estamos a atravessar corredores de pedra, a espreitar nos cantos escuros onde criaturas místicas observam, cada uma com a sua história e advertência.
O peso adicional e a densidade sonora contribuem também para o carácter performativo do disco. Cada malha soa como uma cena dentro de uma peça teatral épica, e é impossível separar o som da imagem: Riley Pinkerton em palco, armadura sobre os seios, a empunhar a guitarra como espada e a dominar cada segundo do ritual, reforça a sensação de que The Bestiary é música para ser sentida tanto no corpo quanto na mente.
A produção captura esta teatralidade – a magia etérea de “Siren”; a lindíssima polifonia medieval (e algo kraut) de “Wolf II”; o imensamente corpóreo “Dragon”; etc. – permitindo que o ouvinte visualize, quase literalmente, o universo que a banda construiu. O som de The Bestiary é ritual, é épico, é metáfora e é corpo. Cada solo, cada riff, cada harmonia serve ao mesmo propósito: ampliar o imaginário deste The Bestiary, reforçar a presença da Rainha, e criar um espaço onde a fantasia e o doom se encontram num espectáculo de poder e sedução.
A Rainha
No universo dos Castle Rat, vale a pena tornar a reforçar a ideia, Riley Pinkerton não é apenas vocalista ou guitarrista: é a própria Rat Queen, encarnação do poder feminino em armadura, mediadora entre o humano e o místico. O seu corpo torna-se território de narrativa: a armadura que protege, mas simultaneamente exibe os seios, funciona como sinal de autoridade, erotismo e ritual. Cada gesto, cada movimento, cada inflexão da voz ou ataque de guitarra, constrói uma dramaturgia onde a presença feminina domina sem concessões.
O impacto da Rainha não reside apenas na teatralidade: é um exercício de política corporal. Em géneros musicais tradicionalmente masculinos como o doom e o heavy metal, Riley reconfigura a relação entre palco, público e narrativa. Ao assumir o centro The Bestiary, ela redefine o arquétipo da heroína em metal — não mais figura decorativa ou musa inspiradora, mas autoridade suprema do seu universo, capaz de comandar monstros, aliados e até a própria audiência.
As canções reflectem esta centralidade. Em faixas como “Siren”, “Crystal Cave”, “Wolf II” ou “Summoning Spell” a voz de Riley guia o ouvinte, ora seduzindo, ora desafiando; é ela quem conjura cada riff, cada solo, como se cada nota fosse um feitiço lançado para moldar o mundo que habita, o seu corpo e a sua voz presença constante, lembrando-nos que a narrativa de The Bestiary é inseparável da figura que a encarna.
Há uma tensão fascinante entre vulnerabilidade e domínio. A armadura deixa espaço para sensualidade, mas não diminui autoridade; pelo contrário, torna a presença da Rainha mais completa, mais complexa. É o clássico paradoxo do corpo como instrumento de poder: Riley Pinkerton domina a sua narrativa, o seu espaço e o seu público, enquanto nos convida a reconhecer que o poder feminino pode ser simultaneamente letal, ritual e erótico.





Num sentido mais amplo, a presença da Rat Queen é um manifesto sobre género e poder no metal contemporâneo. Riley demonstra que a mulher pode ser simultaneamente guerreira, feiticeira, cantora e guitarrista — sem necessitar de justificar nada perante o olhar masculino dominante. O seu corpo, exposto e protegido ao mesmo tempo, é linguagem, é argumento, é performance. E esta argumentação visual e sonora é inseparável da música: não se trata apenas de ouvir The Bestiary, mas de sentir a Rainha em cada batida, em cada riff, em cada eco de solo.
Em suma, Riley Pinkerton transforma o álbum num espaço onde mito, corpo e som se fundem. É a Rainha que decide o destino das criaturas do Bestiário, mas também a que nos mostra que o poder feminino no heavy metal não é concessão: é domínio absoluto, ritual e sedução, tudo ao mesmo tempo.
Underground
The Bestiary não é apenas a evolução sonora dos Castle Rat, mas também uma afirmação de posição dentro do metal contemporâneo. Saindo do underground para conquistar audiências mais amplas, a banda demonstra que é possível combinar tradição e inovação: riffs Sabbathianos, peso doom, solos virtuosos, harmonias épicas e uma teatralidade que é simultaneamente homenagem e subversão, respeitando a herança do heavy metal e, ao mesmo tempo, expandindo-a através da mitologia, da performance e do simbolismo feminino.
O impacto da banda no subterrâneo não se mede apenas em streams ou críticas, mas na forma como redefinem o que significa ser uma banda de doom metal hoje. The Bestiary é uma enciclopédia viva de arquétipos, monstros e figuras místicas, mas também um espelho do poder feminino no metal, um chamado à autoridade criativa das mulheres num género historicamente dominado por homens.
O álbum é também um vigoroso estudo de contraste e harmonia: brutalidade e beleza, peso e melodia, corpo e conceito. Cada elemento foi cuidadosamente moldado para criar uma experiência sensorial total, até ao xamânico e lisérgico final de “Sun Song” e o final que é recomeço com nova fénix. É raro encontrar um disco que consiga unir a densidade sonora do doom com esta subtileza narrativa. E, enquanto Riley Pinkerton empunha a sua guitarra como espada, recordamo-nos de que, no coração desta narrativa, reside a Rainha — indomável, sedutora e absoluta.
