Um excelente disco, proveniente de uma era pós-Prince no hard rock. “Funk-O-Metal Carpet Ride”, o álbum de estreia dos Electric Boys, permanece cheio de vigor.
Formados em 1982 em Estocolmo, por Conny Bloom (voz e guitarra) e Andy Christell (baixo), os Electric Boys começaram como um duo de adolescentes obcecados com o som quente e suado dos anos 70 — Hendrix, Zeppelin, Grand Funk Railroad. A eles juntaram-se Franco Santunione (guitarra) e Niclas Sigevall (bateria), e a química foi imediata. Com Bloom a compor, cantar e exalar carisma, o grupo rapidamente chamou a atenção do público escandinavo.
A estreia desta banda sueca cumpria todas as premissas dum álbum clássico de hard rock, mas ia muito além disso. “Funk-O-Metal Carpet Ride” é uma daquelas obras que, mais do que pertencer a um género, transpira uma época inteira — aquela transição vibrante entre o final dos anos 80 e a alvorada dos 90, quando o rock começava a duvidar de si próprio, e o funk, o boogie e o psicadelismo tentavam infiltrar-se nas muralhas do hair metal. Possui grandes riffs, refrões orelhudos e muito swing. Até certo ponto, “bué” Prince, mesmo! Contudo, não é funk rock como Red Hot Chili Peppers, mas muito dentro daquilo que os Extreme faziam ou até com aquele boogie dos próprios Aerosmith.
Aliás, estas são as duas bandas que mais servem como referência a “Funk-O-Metal Carpet Ride” e para se agarrarem na eventualidade de não conhecerem os Electric Boys. E é possível que não os conheçam. Porque esta banda teve um enorme problema (que tantas outra enfrentaram no início dos anos 90): o sitz im leben, a sua especificidade cronológica. Os Electric Boys estavam algures entre o glamour e o delírio, a meio caminho entre a Sunset Strip e uma sala underground de Estocolmo.
“Funk-O-Metal Carpet Ride”, permitiu reconhecimento europeu e um sucesso relativo nos Estados Unidos, tendo a banda acompanhado os Thunder em digressão. Depois o segundo disco, uma auto-produção, saiu em 1992 – em “Groovus Maximus” a banda abdicou de Bob Rock, que coordenou a reedição internacional de “Funk-O-Metal” (um ano mais tarde), acrescentando a sua produção em mais cinco canções. Ainda que tenham conseguido um bom disco, está algo longe do nível deste primeiro, destacando-se o single “Mary In The Mystery World”.
E depois os Electric Boys, como muitas outras bandas, sofreram com a sombra colossal de nomes como AC/DC, Aerosmith, Guns N’ Roses, Ozzy e Metallica, que dominavam nesta altura o espaço que o grunge deixava ao hard rock no mercado. Quando estrearam, em 1989, o mundo já se preparava para trocar o spandex pela flanela, o spray pelo desleixo, a pose pela introspecção. Começou a haver uma mudança editorial nas grandes companhias discográficas e a banda acabou por desaparecer, aos poucos, lançando apenas “Freewheelin’ em 1994.
Os Electric Boys reformularam o line-up em 2009, mas os novos discos, apesar de sólidos e atractivos para os fãs, são pouco mais que exercícios de nostalgia. Contudo, “Funk-O-Metal Carpet Ride” faz jus ao título. Provocante e melódico, carregado de balanço. Mais ainda a versão internacional, com uma produção exemplar de Bob Rock num disco que tocava alguns aspectos do rock psicadélico dos anos 60, através do uso de cítaras e momentos atmosféricos.
“Funk-O-Metal Carpet Ride” abre com duas pedradas, “Psychedelic Eyes” e “All Lips N’ Hips”, mas é capaz de manter a audição cativa até ao seu final. Drum machines e o recurso subtil a synths dão-lhe um toque cosmopolita, mas o miolo era pura electricidade analógica: uma tempestado de Les Pauls, Stratocasters, Thunderbirds e uma secção rítmica que transpirava groove. O resultado foi um dos discos mais dançáveis do universo hard rock — uma raridade entre a rigidez metronómica do metal e o cinismo crescente do rock alternativo.
“Psychedelic Eyes” é uma lufada de ar quente: riffs com fuzz, wah-wah, e um balanço quase Hendrixiano. Mas é com “All Lips N’ Hips” que tudo se torna icónico. O tema é irresistível, com o baixo de Christell a serpentejar como uma cobra funk e a voz de Bloom a misturar provocação e melodia em partes iguais. O vídeo, repleto de cores saturadas, eyeliner e attitude, passou nas rotações médias da MTV — o suficiente para garantir uma pequena febre entre os fãs do rock mais libidinoso.
Outras faixas de “Funk-O-Metal Carpet Ride”, como “Electrified”, “Get Nasty” e “Rags to Riches”, seguem o mesmo espírito de festa e vertigem, mas há também momentos mais ambiciosos, como “Into the Woods”, que experimenta com guitarras limpas e ecos psicadélicos, evocando o som de bandas como Traffic ou Cream. A utilização de cítara em alguns trechos, algo quase inaudito no hard rock da época, revelava o lado exploratório da banda — um desejo de transcender o mero riff e de fundir o rock com uma espiritualidade laica, sensorial.
Como convém, a temática de “Funk-O-Metal Carpet Ride” está dentro duma pose playmates e solos de guitarra, uma temática na qual o excesso era sensualidade – isto para quem considera um excesso dissertar sobre moças com saúde e milhões de solos de guitarra. E ainda que seja composto de alguns clichés genéricos e possua vários fillers (que lhe removem alguma solidez) a verdade é que este “Funk-O-Metal Carpet Ride” é um dos melhores lançamentos do género da década de 90 e passou quase despercebido a imensa gente. Para quem gosta do estilo, é obrigatório.
Ao longo das décadas seguintes, foi redescoberto por fãs e coleccionadores, muitas vezes citado como o elo perdido entre o hard rock setentista e o sleaze europeu. Hoje, “Funk-O-Metal Carpet Ride” é uma cápsula sonora de hedonismo e talento, um disco que merece ser ouvido como o documento de uma geração que não quis escolher entre o corpo e a mente. Provocante e melódico, carregado de balanço, ainda ecoa a ambição de quem queria swingar dentro do rock sem pedir licença.
